Não, a decisão de Omi não tinha nada que ver com aquele pedido de desculpas em público, embora a injustiça se juntasse ao ódio que agora o obcecava. A razão principal era que naquele dia Yabu insultara publicamente a mãe e a esposa de Omi diante de camponeses, mantendo-as à espera durante horas ao sol, como camponesas, e depois as dispensara sem agradecer-lhes, como camponesas.
- Não tem importância, meu filho - dissera a mãe. - É privilégio dele.
- Ele é o nosso suserano - dissera Midori, a esposa, as lágrimas de vergonha escorrendo-lhe pelas faces. - Por favor, desculpe-o.
- E ele não convidou nenhuma de vocês duas para saudá-lo, e aos oficiais, na fortaleza - continuara Omi. - Depois de toda a comida que vocês prepararam! Só a comida e o saquê custaram um koku!
- É nosso dever, meu filho. É nosso dever fazer qualquer coisa que o Senhor Yabu deseje.
- E a ordem relativa ao Pai?
- Ainda não é uma ordem. É um rumor.
- A mensagem que o Pai enviou diz que ele ouviu dizer que Yabu vai mandá-lo raspar a cabeça e tornar-se sacerdote, ou rasgar o ventre. A esposa de Yabu está se vangloriando disso!
- Isso foi sussurrado a seu pai por um espião. Não se pode confiar sempre nos espiões. Sinto muito, meu filho, mas seu pai nem sempre é sábio.
- O que acontece à senhora, Mãe, se isso não for um rumor?
- Qualquer coisa que aconteça é karma. Você deve aceitar o karma.
- Não, estes insultos são insuportáveis.
- Por favor, meu filho, aceite-os.
- Dei a Yabu a chave para o navio, a chave para o Anjin-san e os novos bárbaros, e o modo de escapar à armadilha de Toranaga. Meu auxílio trouxe-lhe imenso prestígio. Com o presente simbólico da espada, ele agora é o primeiro depois de Toranaga nos exércitos do leste. E o que recebemos em troca? Insultos imundos.
- Aceite o seu karma.
- Você deve, marido, imploro-lhe, ouvir a senhora sua mãe.
- Não posso viver com essa vergonha. Tomarei vingança e depois me matarei, e essas humilhações serão apagadas.
- Pela última vez, meu filho, aceite o seu karma, rogo-lhe.
- Meu karma é destruir Yabu.
A velha dama suspirara.
- Muito bem. Você é um homem. Tem o direito de decidir. O que tem que ser, será. Mas a morte de Yabu em si mesma não é nada. Devemos planejar. O filho dele também deve ser eliminado, assim como Igurashi. Particularmente Igurashi. Depois o seu pai comandará o clã, como direito dele.
- Como fazemos isso, Mãe?
- Vamos planejar, você e eu. E seja paciente, neh? Depois devemos consultar o seu pai. Midori, até você pode dar conselhos, mas tente não ser inepta, neh?
- E o Senhor Toranaga? Deu a espada a Yabu.
- Acho que o Senhor Toranaga só quer Izu forte e um Estado vassalo. Não como aliado. Ele não deseja aliados mais do que o táicurn desejava. Yabu pensa que é aliado. Eu penso que Toranaga detesta aliados. Nosso clã prosperará se formos vassalos de Toranaga. Ou vassalos de Ishido! A quem escolheremos, hein? E como matá-los?
Orni lembrava-se da onda de alegria que o invadira no momento em que se tomara a decisão final.
Sentiu-a de novo agora. Mas seu rosto não demonstrou absolutamente nada enquanto chá e vinho eram servidos por criadas cuidadosamente selecionadas, trazidas de Mishima para Yabu. Ele observou Yabu, o Anjin-san, Mariko e Igurashi. Estavam todos à espera de que Yabu começasse.
A sala era ampla e arejada, grande o suficiente para que trinta oficiais jantassem, tomassem vinho e conversassem. Havia muitas outras salas e cozinhas para os guarda-costas e criados, e um jardim ladeando toda a construção, embora fosse tudo provisório. Fora construído do melhor modo possível, considerando o tempo de que dispunham, e era tudo facilmente defendível. O fato de o custo ser coberto pelo feudo aumentado de Omi não o incomodava em absoluto. Fora dever dele.
Olhou para a shoji aberta. Muitas sentinelas no adro. Um estábulo. A fortaleza era protegida por um fosso. A paliçada era construída de bambus gigantes, amarrados compactamente. Grandes pilares centrais suportavam o telhado de telhas. As paredes eram leves telas shojis corrediças, algumas vazadas como janelas, a maioria coberta de papel oleado, conforme o hábito. O soalho,de pranchas de madeira, estava fixado em estacaria erguida sobre terra batida, coberto com tatamis.
Por ordem de Yabu, Omi investigara quatro aldeias à procura de material para construir aquela e a outra casa, e Igurashi trouxera tatamis de qualidade, futons e coisas impossíveis de obter na aldeia.
Omi estava orgulhoso com o seu trabalho e com o acampamento para três mil samurais que fora aprontado no platô sobre a colina que guardava as estradas que levavam à aldeia e à praia. Agora a aldeia estava fechada e segura por terra. Por mar haveria sempre alarma em profusão para que um suserano pudesse escapar.
Mas não tenho suserano. A quem servirei agora? perguntava-se Omi. A Ikawa Jikkyu? Ou a Toranaga diretamente? Toranaga me daria o que quero em troca? Ou a Ishido? Ishido é tão difícil de atingir, neh? Mas tenho muito para contar a ele agora...
Naquela tarde Yabu convocara Igurashi, Omi e os quatro capitães, e pusera em andamento seu plano clandestino de treinamento para os quinhentos samurais atiradores. Igurashi devia ser o comandante. Omi lideraria uma das centenas. Combinaram como introduzir os homens de Toranaga nas unidades quando eles chegassem, e como esses forasteiros deveriam ser neutralizados se se comprovassem traiçoeiros.
Omi sugerira que outro quadro altamente secreto de mais três unidades, de cem samurais cada uma, fosse treinado no outro lado da península, como substitutos, como uma reserva, e como uma precaução contra uma manobra traiçoeira de Toranaga.
- Quem comandará os homens de Toranaga? Quem ele enviará como segundo em comando? - perguntara Igurashi.
- Não faz diferença - respondera Yabu. - Designarei os cinco oficiais assistentes dele, a quem será dada a responsabilidade de lhe rasgar a garganta, caso seja necessário. O código para matá-lo e a todos os forasteiros será "Ameixeira". Amanhã, Igurashi-san, você escolherá os homens. Aprovarei pessoalmente cada um deles e nenhum deve saber, ainda, toda a minha estratégia para o Regimento de Mosquetes.
Agora, enquanto olhava Yabu, Omi saboreava o recém-descoberto êxtase da vingança. Matar Yabu seria fácil, mas sua morte devia ser coordenada. Só então seu pai, ou seu irmão mais velho, seria capaz de assumir o controle do clã, e de Izu.
Yabu chegou ao ponto.
- Mariko-san, por favor, diga ao Anjin-san que quero que ele, amanhã, começe a ensinar os meus homens a atirar como bárbaros, e quero aprender tudo que há para saber sobre o modo como os bárbaros guerreiam.
- Mas, desculpe, as armas não chegarão antes de seis dias, Yabu-san - lembrou-lhe Mariko.
- Tenho quantidade suficiente entre meus homens para começar - replicou Yabu. - Quero que comece amanhã.
Mariko falou a Blackthorne.
- O que ele quer saber sobre a guerra? - perguntou este.