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- Disse que tudo.

- O quê, em particular?

Mariko perguntou a Yabu.

- Yabu-san perguntou se o senhor já tomou parte em combates terrestres.

- Sim. Na Neerlândia. Um na França.

- Yabu-san disse que isso é excelente. Ele quer conhecer a estratégia européia. Quer saber como as batalhas são travadas nas suas terras. Em detalhes.

Blackthorne pensou um instante. Depois disse:

- Diga a Yabu-san que posso treinar qualquer quantidade de homens para ele e sei exatamente o que ele quer saber. - Ele aprendera muito com Frei Domingo sobre o modo como os japoneses guerreavam. O frade era um perito e tinha um interesse vital por eles. - Afinal, señor - dissera o velho -, esse conhecimento é essencial, não é, saber como os pagãos guerreiam? Todo padre tem que proteger o seu rebanho. E os nossos gloriosos conquistadores não são a abençoada ponta de lança da Madre Igreja? E não estive com eles na frente de combate no Novo Mundo e nas Filipinas, e não os estudo há mais de vinte anos? Conheço a guerra, señor, conheço a guerra. Foi o meu dever, a vontade de Deus, conhecer a guerra. Talvez Deus o tenha enviado a mim para que eu o ensine, no caso de eu morrer. Ouça, o meu rebanho aqui nesta cela foram os meus professores sobre a arte bélica japonesa, señor. Portanto agora sei como os exércitos deles lutam e como vencelos. Como poderiam vencer-nos. Lembre-se, señor, de que lhe revelo um segredo pela sua alma: nunca junte a ferocidade japonesa às armas modernas e aos métodos modernos. Ou, em terra, eles nos destruirão.

Blackthorne encomendou-se a Deus. E começou.

- Diga ao Senhor Yabu que posso auxiliá-lo muitíssimo. E ao Senhor Toranaga. Posso tornar os seus exércitos imbatíveis.

- O Senhor Yabu diz que se a sua informação se comprovar útil, Anjin-san, ele aumentará o salário que o Senhor Toranaga lhe concedeu de duzentos e quarenta kokus para quinhentos kokus após um mês.

- Agradeça-lhe. Mas diga que, se faço tudo isso por ele, solicito um favor em troca: quero que ele revogue a sentença que pesa sobre a aldeia, e quero meu navio e minha tripulação de volta em cinco meses.

- Anjin-san - disse Mariko -, não pode negociar com ele, como um mercador.

- Por favor, peça-lhe. Como um humilde favor. De um hóspede de honra e agradecido futuro vassalo.

Yabu franziu o cenho e respondeu longamente.

- Yabu-san diz que a aldeia não tem importância. Os aldeões precisam de um fogo sob o traseiro para que façam qualquer coisa. O senhor não deve se preocupar com eles. Quanto ao navio, trata-se de um assunto do Senhor Toranaga. Ele tem certeza de que o senhor o recuperará muito em breve. Pediu-me que fizesse a sua solicitação ao Senhor Toranaga assim que eu chegar a Yedo. Farei isso, Anjin-san.

- Por favor, peça desculpas ao Senhor Yabu, mas preciso pedir a ele que revogue a sentença. Esta noite.

- Ele já disse que não, Anjin-san. Não seria bem-educado.

- Sim, compreendo. Mas por favor, peça-lhe de novo. É muito importante para mim... uma súplica.

- Ele diz que o senhor deve ter paciência. Não se preocupe com aldeões.

Blackthorne assentiu. Depois decidiu-se.

- Obrigado. Compreendo. Sim. Por favor agradeça ao Senhor Yabu, mas diga-lhe que não posso viver com essa vergonha.

Mariko empalideceu.

- O quê?

- Não posso viver com a vergonha de ter a aldeia na minha consciência. Estou desonrado. Não posso suportar isso. É contra a minha crença cristã. Terei que cometer suicídio imediatamente.

- Suicídio?

- Sim. Foi isso o que resolvi fazer.

Yabu interrompeu.

- Nan ja, Mariko-san?

Hesitante ela traduziu o que Blackthorne dissera. Yabu interrogou-a e ela respondeu. Depois Yabu disse:

- Não fosse pela sua reação, isto seria uma piada, Mariko-san. Por que está tão preocupada? Por que acha que ele fala a sério?

- Não sei, senhor. Ele parece... Não sei. . . - A voz dela foi sumindo aos poucos.

- Omi-san?

- O suicídio é contra todas as crenças cristãs, senhor. Eles nunca se suicidam como nós. Como um samurai faria.

- Mariko-san, você é cristã. Isso é verdade?

- Sim, senhor. Suicídio é pecado mortal, contra a palavra de Deus.

- Igurashi-san? O que pensa?

- É um blefe. Ele não é cristão. Lembra-se do primeiro dia? Lembra-se do que ele fez ao padre? E o que permitiu que Omi-san lhe fizesse para salvar o rapaz?

Yabu sorriu, recordando aquele dia e a noite que o seguira.

- Sim. Concordo. Ele não é cristão, Mariko-san.

- Desculpe, mas não entendo, senhor. O que houve com o padre?

Yabu contou-lhe o que acontecera no primeiro dia, entre Blackthorne e o padre.

- Ele profanou uma cruz? - disse ela, visivelmente chocada.

- E atirou os pedaços ao pó - acrescentou Igurashi. - É um blefe, senhor. Se essa história com a aldeia o desonra, como é que pode ficar aqui quando Omi o desonrou tanto, urinando-lhe em cima?

- O quê? Desculpe, senhor - disse Mariko -, mas não compreendo de novo.

Yabu disse a Omi:

- Explique a ela.

Omi obedeceu. Ela ficou enojada com o que ouviu, mas não demonstrou.

- Depois, o Anjin-san ficou completamente amedrontado, Mariko-san - concluiu Omi. - Sem armas ele ficará sempre amedrontado.

Yabu tomou um gole de saquê.

- Diga isto a ele, Marikosan: suicídio não é um costume bárbaro. É contra o Deus cristão dele. Portanto como é que ele pode se suicidar?

Mariko traduziu. Yabu observou atentamente quando Blackthorne respondeu.

- O Anjin-san pede desculpas com grande humildade, mas diz que, seja costume ou não, Deus ou não, essa vergonha da aldeia é grande demais para suportar. Diz que... que está no Japão, é hatamoto e tem o direito de viver de acordo com as nossas leis. - As mãos dela tremiam. - Foi isso o que ele disse, Yabu-san. O direito de viver conforme os nossos costumes... a nossa lei.

- Bárbaros não têm direitos.

- O Senhor Toranaga o fez hatamoto - disse ela. - Isso lhe dá o direito, neh?

Uma brisa tocou as shojis, chocalhando-as.

- Como poderia ele cometer suicídio? Hein? Pergunte-lhe.

Blackthorne sacou a espada afiada, a ponta aguda como agulha, e pousou-a suavemente sobre o tatami, a ponta voltada para ele.

- É um blefe! - disse Igurashi. - Quem já ouviu falar de um bárbaro que agisse como pessoa civilizada?

Yabu franziu o cenho, o coração diminuindo a velocidade.

- Ele é um bravo homem, Igurashi-san. Não há dúvida sobre isso. E estranho. Mas isto? - Yabu queria assistir ao ato, testemunhar a fibra do bárbaro, ver como ele se encaminharia para a morte, experimentar com ele o êxtase da ida. Com um esforço, deteve a maré ascendente do seu próprio prazer. - O que aconselha, Omi-san? - perguntou guturalmente.

- O senhor disse à aldeia: "Se o Anjin-san não aprender satisfatoriamente". Aconselho-o a fazer uma leve concessão. Diga-lhe que tudo o que tiver aprendido dentro de cinco meses será "satisfatório", mas em troca ele deve jurar pelo seu Deus não revelar isso à aldeia.

- Mas ele não é cristão. Como esse juramento o comprometerá?

- Acredito que ele seja um tipo de cristão, senhor. É contra os Hábitos Negros e é isso o que importa. Acredito que um juramento pelo seu próprio Deus será um compromisso. E também deve jurar, em nome desse Deus, que se empenhará em aprender e se colocará totalmente ao seu serviço. Como é inteligente, aprenderá muitíssimo em cinco meses. Assim a sua honra ficará poupada e a dele - exista ou não - também. O senhor não perde nada, ganha tudo. É muito importante que o senhor lhe ganhe a dedicação por livre vontade dele.

- Acredita que ele se matará?

- Sim.

- Mariko-san?

- Não sei, Yabu-san. Desculpe, não posso aconselhá-lo. Algumas horas atrás eu teria dito que não, ele não se suicidará. Agora não sei. Ele... desde que Omi-san foi buscá-lo, ele ficou... diferente.