- Igurashi-san?
- Se o senhor ceder agora e isso for um blefe, ele usará o mesmo truque o tempo todo. Ele é astucioso como um kami raposa, todos vimos quão astucioso, neh? O senhor terá que dizer não um dia. Aconselho-o a dizer agora. É um blefe.
Omi inclinou-se para a frente e meneou a cabeça.
- Senhor, por favor, desculpe-me, mas devo repetir que se disser "não" arrisca-se a uma grande perda. Se for um blefe - e pode muito bem ser -, então, como homem orgulhoso que é, ele ficará cheio de ódio com a humilhação posterior e não o ajudará até o limite de suas forças, coisa de que o senhor necessita. Ele pediu uma coisa na qualidade de hatamoto, o que tem o direito de fazer, diz que quer viver de acordo com os nossos hábitos, de livre vontade. Isso não é um enorme passo à frente, senhor? É maravilhoso para o senhor, e para ele. Aconselho cautela. Use-o para proveito seu.
- É o que pretendo - disse Yabu, com a voz abafada.
- Sim, ele é valioso - disse Igurashi -, e sim, quero o conhecimento dele. Mas ele tem que ser controlado. Você disse isso muitas vezes, Omi-san. Ele é bárbaro. É tudo o que é. Oh, sei que é hatamoto agora, e que pode usar as duas espadas a partir de hoje. Mas isso não o torna samurai. Ele não é samurai e nunca será.
Mariko sabia que, de todos eles, era ela quem devia ser capaz de ler com mais clareza o Anjin-san. Mas não conseguia. Num momento o compreendia, no momento seguinte ele se tornava incompreensível de novo. Num momento gostava dele, no momento seguinte odiava-o. Por quê?
Os olhos de Blackthorne fitavam o vazio. Mas agora havia gotas de suor na sua testa. Será que isso é medo? pensou Yabu. Medo de que eu pague para ver o blefe? Estará blefando?
- Mariko-san?
- Sim, senhor?
- Diga-lhe... - Repentinamente a boca de Yabu ficou seca, o peito doía. - Diga ao Anjin-san que a sentença permanece.
- Senhor, por favor, desculpe-me, mas recomendo-lhe aceitar o conselho de Omi-san.
Yabu não olhou para ela, apenas para Blackthorne. A veia na sua testa latejava.
- O Anjin-san diz que está decidido. Que seja. Vejamos se ele é bárbaro, ou hatamoto.
A voz de Mariko soou quase imperceptível.
- Anjin-san, Yabu-san diz que a sentença permanece. Sinto muito.
Blackthorne ouviu as palavras, mas elas não o perturbaram. Sentia-se mais forte e mais em paz do que jamais se sentira, com uma maior consciência da vida do que jamais tivera.
- O Senhor Toranaga o fez hatamoto - disse ela - Isso lhe dá o direito, neh?
Enquanto esperara, não os ouvira nem os olhara. O comprmisso fora feito. O resto ele deixara a Deus. Estivera fechado na própria cabeça, ouvindo as mesmas palavras vezes sem conta, a mesmas que lhe haviam dado a pista para a vida ali, as palavras que com certeza tinham sido enviadas por Deus, por intermédio de Mariko: "Há uma solução fácil. Morra. Para sobreviver aqui o senhor deve viver de acordo com os nossos costumes".
- ... a sentença permanece.
Então, agora, devo morrer.
Eu devia estar com medo. Mas não estou.
Por quê?
Não sei. Só sei que uma vez tendo realmente decidido que o único modo de viver aqui como homem é fazendo isso de acordo com os costumes deles, arriscando-me a morrer, morrendo - talvez morrendo -, repentinamente o medo da morte se foi. "A vida e a morte são a mesma coisa... Deixe o karma ao."
Não estou com medo de morrer.
Além da shoji, uma chuva suave começara a cair. Ele baixou os olhos para a faca.
Tive uma boa vida, pensou ele.
Seus olhos voltaram-se para Yabu.
- Wakarimasu - disse claramente, e embora soubesse que seus lábios tinham formado a palavra, foi como se outra pessoa tivesse falado.
Ninguém se moveu.
Ele viu sua mão direita pegar a faca. Depois a mão esquerda também agarrou o cabo, a lâmina pronta e apontando para o coração. Agora havia apenas o som da sua vida, crescendo e crescendo, elevando-se cada vez mais forte até que ele não conseguia mais ouvir. Sua alma ansiava pelo silêncio eterno.
O grito desencadeou-lhe os reflexos. Suas mãos impeliram a faca inexoravelmente rumo ao alvo.
Omi estivera pronto para detê-lo, mas não estava preparado para a rapidez e a ferocidade do ímpeto de Blackthorne, e quando a mão esquerda de Omi agarrou a lâmina, e a direita o cabo, a dor o aferroou e o sangue esguichou da mão esquerda. Lutou com todas as forças. Estava perdendo. Igurashi veio ajudar. Juntos detiveram o golpe. A faca foi tomada. Um delgado gotejar de sangue escorria da pele sobre o coração de Blackthorne, onde a ponta da faca entrara.
Mariko e Yabu não tinham se movido.
- Diga-lhe, diga-lhe que qualquer coisa que aprenda será suficiente - disse Yabu. - Ordene-lhe, Mariko-san, não, peça-lhe, peça que Anjin-san que jure, conforme disse Omi. Tudo conforme Omi-san disse.
Blackthorne voltou da morte lentamente. Fitou-os e à faca de uma imensa distância, sem compreender. Depois a torrente de vida voltou aos borbotões, mas ele não conseguiu apreender, acreditando-se morto e não vivo.
- Anjin-san? Anjin-san?
Viu os lábios dela movendo-se e ouviu-lhe as palavras, mas todos os seus sentidos estavam concentrados na chuva e na brisa.
- Sim? - Sua própria voz estava ainda muito distante, mas ele sentia o cheiro da chuva e ouvia os pingos e sentia o gosto de al no ar. Estou vivo, disse-se ele maravilhado. Estou vivo e isso é chuva de verdade lá fora, o vento é de verdade e vem do norte. Há um braseiro real com brasas reais, e se eu pegar o cálice, encontrarei líquido real nele e o líquido terá sabor. Não estou morto. Estou vivo!
Os outros permaneciam sentados em silêncio, esperando pacientemente, amáveis com ele para honrar-lhe a bravura. Nenhum homem no Japão tinha jamais visto o que eles viram. Cada um se perguntava em silêncio: o que o Anjin-san vai fazer agora? Será capaz de se erguer por si mesmo e caminhar, ou seu próprio espírito o deixará? Como agiria eu, se fosse ele? Silenciosamente uma criada trouxe uma bandagem e enfaixou a mão de Omi onde a lâmina cortara profundamente, estancando o fluxo de sangue. Estava tudo muito silencioso. De vez em quando Mariko dizia o seu nome baixinho enquanto eles sorviam chá ou vinho, mas muito frugalmente, saboreando a espera, o que tinham presenciado e a lembrança.
Para Blackthorne aquela não-vida parecia durar para sempre. Então seus olhos viram. Seus ouvidos ouviram.
- Anjin-san?
- Hai? - respondeu ele, através do maior cansaço que jamais conhecera.
Mariko repetiu o que Omi dissera, como se viesse de Yabu. Teve que dizê-lo várias vezes, antes de ter certeza de que ele compreendera claramente.
Blackthorne reuniu o remanescente de suas forças, sentindo a vitória doce.
- Minha palavra é suficiente, assim como a dele o é. Ainda assim, jurarei por Deus, como ele quer. Sim. Como Yabu-san jurará pelo deus dele, para cumprir a parte dele no acordo.
- O Senhor Yabu diz que sim, que jura pelo Senhor Buda.
Então Blackthorne jurou, conforme Yabu desejava que ele jurasse. Aceitou um pouco de chá. Nunca tivera um gosto tão bom. A xícara pareceu-lhe muito pesada e ele não conseguiu segurá-la muito tempo.
- A chuva é agradável, não é? - disse ele, observando os pingos de chuva que surgiam e sumiam, atônito com a inusitada limpidez da sua visão.
- Sim - disse ela brandamente, sabendo que os sentidos dele se encontravam num plano nunca alcançado por ninguém que não tivesse livremente ido ao encontro da morte e, por obra de um karma desconhecido, miraculosamente regressado à vida. - Por que não descansar agora, Anjin-san? O Senhor Yabu lhe agradece e diz que conversará mais com o senhor amanhã. Deve descansar agora.