- Ah, sim - disse ele, num melhor estado de humor, lembrando-se daquela noite. - A pedra que encontrei em Kyushu. Você ia mudar o nome para O Bárbaro à Espera, não ia?
- Sim, senhor, se lhe agradar - disse Omi. - Mas o senhor me honraria amanhã, decidindo onde colocá-la no jardim? Não creio que haja um lugar suficientemente bom.
- Amanhã decidirei. Sim. - Yabu deixou a mente devanear sobre a pedra e sobre aqueles dias distantes com seu venerado amo, o taicum, e depois sobre a Noite dos Gritos. A melancolia infiltrou-se nele. A vida é tão curta, triste e cruel, pensou. Olhou para Suzu. A criada sorriu, hesitante, o seu rosto oval, delgado, e muito delicada como as outras duas. As três tinham sido trazidas de palanquim da casa dele em Mishima. Naquela noite estavam todas descalças, usando quimonos da melhor seda, a pele muito branca. É curioso que os meninos possam ser tão graciosos, pensou ele, em muitos sentidos mais sensuais e femininos do que as garotas. Depois notou Zukimoto. - O que está esperando? Hein? Saia!
- Sim, senhor. O senhor me pediu que o lembrasse das taxas, senhor. - Zukimoto ergueu a sua massa transpirante e saiu às pressas da sala.
- Omi-san, você dobrará todos os impostos imediatamente - disse Yabu.
- Sim, senhor.
- Camponeses imundos! Não trabalham o suficiente. São preguiçosos, todos eles! Mantenho as estradas a salvo de bandidos, os mares seguros, dou-lhes bom governo, e o que eles fazem? Passam os dias tomando chá e saquê, e comendo arroz. Já é tempo que os meus camponeses assumam as suas responsabilidades!
- Sim, senhor - disse Omi.
Depois Yabu se voltou para o outro assunto que lhe dominava a mente.
- O Anjin-san surpreendeu-me esta noite. A você não?
- Oh, sim, senhor. Mais do que ao senhor. Mas o senhor foi sábio em fazê-lo se comprometer.
- Está dizendo que Igurashi tinha razão?
- Simplesmente admirei a sua sabedoria, senhor. O senhor teria que lhe dizer não em algum momento. Acho que foi muito sábio em dizê-lo agora, esta noite.
- Pensei que ele ia se matar. Sim. Fico contente por você ter estado preparado. Contei com que você estivesse preparado. O Anjin-san é um homem extraordinário, para um bárbaro, neh? Pena que seja bárbaro e tão ingênuo.
- Sim.
Yabu bocejou. Aceitou saquê de Suzu.
- Meio mês, você diz? Mariko-san deve ficar no mínimo esse prazo, Omi-san. Depois decidirei a respeito dela, e a respeito dele. Ele terá que aprender outra lição muito em breve. - Ele riu, mostrando os dentes estragados. - Se o Anjin-san nos ensinar, devemos ensiná-lo, neh? Devemos ensinar-lhe como cometer seppuku corretamente. Seria uma coisa e tanto de se presenciar, neh? Providencie! Sim, concordo que os dias do bárbaro estão contados.
CAPÍTULO 32
Doze dias depois, à tarde, chegou o mensageiro de Osaka. Uma escolta de dez samurais vinha com ele. Os cavalos estavam cobertos de suor e quase mortos. As bandeiras à ponta das lanças exibiam o símbolo do todo-poderoso conselho de regentes. O dia estava quente, nublado e úmido.
O mensageiro era um samurai magro, rijo, de grau superior, um dos lugar-tenentes de Ishido. Chamava-se Nebara Jozen e era conhecido pela sua inclemência. Seu quimono cinzento estava rasgado e salpicado de lama, os olhos vermelhos de fadiga. Recusou comida e bebida e impolidamente solicitou uma audiência imediata com Yabu.
- Perdoe a minha aparência, Yabu-san, mas o meu assunto é urgente - disse. - Sim, peço-lhe perdão. Meu amo pergunta: por que o senhor treina os soldados de Toranaga junto com os seus, e por que eles se exercitam com tantas armas?
Yabu corou ante a grosseria do outro, mas conservou a calma, sabendo que Jozen devia ter recebido instruções específicas e aquela falta de educação prenunciava uma perigosa posição de poder. Além disso, sentia-se enormemente inquieto de que tivesse havido outra brecha na sua segurança.
- É muito bem-vindo, Jozen-san. Pode garantir ao seu amo que tenho sempre os interesses dele no coração - disse ele com uma cortesia que não enganou a nenhum dos presentes.
Encontravam-se na varanda da fortaleza. Omi estava sentado logo atrás de Yabu. Igurashi, que fora perdoado poucos dias antes, estava mais perto de Jozen e, em torno deles, guardas mais íntimos.
- O que mais seu amo manda dizer?
- Meu amo ficará contente de saber que os interesses dele são os seus - respondeu Jozen. - Agora, quanto às armas e ao treinamento: meu amo gostaria de saber por que o filho de Toranaga, Naga, é segundo em comando. Segundo em comando de quê? O que é tão importante para que o filho de Toranaga se encontre aqui? pergunta o General Ishido polidamente. Isso é do interesse dele. Sim. Tudo o que os seus aliados fazem lhe interessa. Por que, por exemplo, o bárbaro parece estar encarregado de treinamento? Treinamento do quê? Sim, Yabu-sama, isso também é muito interessante. - Jozen mudou as espadas para uma posição mais confortável, contente por ter as costas protegidas pelos seus próprios homens. - Depois: o conselho de regentes reúne-se novamente no primeiro dia da lua nova. Dentro de vinte dias. O senhor é formalmente convidado a comparecer a Osaka, a fim de renovar seu juramento de fidelidade.
O estômago de Yabu contorceu-se.
- Tomei conhecimento de que o Senhor Toranaga renunciou.
- Sim, Yabu-san, realmente renunciou. Mas o Senhor Ito Teruzumi vai tomar-lhe o lugar. Meu amo será o novo presidente dos regentes.
Yabu foi dominado pelo pânico. Toranaga dissera que os quatro regentes nunca conseguiriam se pôr de acordo quanto a um quinto. Ito Teruzumi era um daimio menor da província de Negato, na Honshu ocidental, mas sua família era antiga, descendia da linhagem Fujimoto, portanto ele seria aceitável como regente, embora fosse um homem ineficaz, afeminado e um fantoche.
- Eu ficaria honrado em receber o convite deles - disse Yabu defensivamente, tentando ganhar tempo para pensar.
- Meu amo pensou que o senhor talvez quisesse partir imediatamente. Então estaria em Osaka para a reunião formal. Ordenou-me que lhe dissesse que todos os daimios estão recebendo o mesmo convite. Agora. Assim todos terão oportunidade de estar lá a tempo, no vigésimo primeiro dia. Sua Alteza Imperial, o Imperador Go-Nijo, autorizou uma cerimônia da contemplação da flor, a fim de honrar a ocasião. - Jozen estendeu um pergaminho oficial.
- Isto não tem o selo do conselho de regentes.
- Meu amo emitiu o convite agora, sabendo que, na qualidade de leal vassalo do falecido taicum, na qualidade de fiel vassalo de Yaemon, seu filho e herdeiro e governante legítimo do império quando atingir a idade, o senhor compreenderá que o novo conselho naturalmente aprovará o ato dele. Neh?
- Certamente seria um privilégio testemunhar o encontro formal. - Yabu lutava para controlar o próprio rosto.
- Ótimo - disse Jozen. Puxou outro pergaminho, abriu-o o estendeu-o a Yabu. - Isto é uma cópia da carta de nomeação do Senhor Ito, aceita, assinada e autorizada pelos outros regentes, os senhores Ishido, Kiyama, Onoshi e Sugiyama. - Jozen não se deu ao trabalho de dissimular um olhar de triunfo, sabendo que aquilo fechava totalmente a armadilha sobre Toranaga e qualquer um dos seus aliados, e que além disso o pergaminho tornava a ele o aos seus homens invulneráveis.
Yabu pegou o pergaminho. Seus dedos tremiam. Não havia dúvida quanto à sua autenticidade. Fora rubricado pela Senhora Yodoko, a esposa do taicum, que afirmava que o documento era verdadeiro, assinado em sua presença, uma das seis cópias que estavam sendo enviadas por todo o império, e que aquela cópia em particular se destinava aos senhores de Iwari, Mikawa, Totomi, Suruga, Izu e do Kwanto. Estava datado de onze dias antes.