- Bem, como se faz a diferença entre "eu vou", "yukimasu", e "eles foram", "yukimasu"?
- Pela inflexão, Anjin-san, e o tom. Ouça: "yukimasu"... "yukimasu".
- Mas o som é exatamente o mesmo!
- Ah, Anjin-san, isso é porque o senhor está pensando na sua língua. Para compreender japonês o senhor tem que pensar em japonês. Não se esqueça de que a nossa língua é a língua do infinito. É tudo muito simples, Anjin-san. Apenas mude o seu conceito do mundo. Aprender japonês é apenas aprender uma nova arte, separada do mundo ... É tudo muito simples.
- É tudo uma bosta, isso sim - resmungou ele em inglês, e sentiu-se melhor.
- O quê? Que foi que disse?
- Nada. Mas o que a senhora diz não faz sentido.
- Aprenda os caracteres escritos - dissera Mariko.
- Não posso. Vai levar tempo demais. Eles não têm sentido algum.
- Olhe, na realidade são simples quadros, Anjin-san. Os chineses são muito inteligentes. Emprestamos a escrita deles há mil anos atrás. Olhe, pegue este caráter, ou símbolo, que representa um porco.
- Não se parece com um porco.
- Mas já pareceu, Anjin-san. Deixe-me mostrar-lhe. Olhe. Junte o símbolo de telhado sobre o símbolo do porco e o que é que tem?
- Um porco e um telhado.
- Mas o que isso significa? O novo caráter?
- Não sei.
- Casa. Antigamente os chineses achavam que um porco sob um telhado era o lar. Eles não são budistas, são comedores de carne, portanto um porco, para eles, para camponeses, representa a riqueza, portanto uma boa casa. Daí o caráter.
- Mas como se diz?
- Depende de ser chinês ou japonês.
- Oh, ko!
- Oh, ko de fato - rira ela. - Eis outro caráter. Um símbolo de telhado com dois porcos embaixo significa contentamento. Um telhado com duas mulheres embaixo é igual a discórdia. Neh?
- Absolutamente!
- Claro, os chineses são muito estúpidos em muitas coisas e as mulheres deles não são educadas como as daqui. Não há discórdia na sua casa, há?
Blackthorne pensou nisso agora, no décimo segundo dia do seu renascimento. Não. Não havia discórdia. Mas tampouco era um lar. Fujiko era apenas como uma governanta digna de confiança e naquela noite, quando ele fosse para a cama, para dormir, os futons estariam desdobrados e ela estaria ajoelhada ao lado, pacientemente, inexpressivamente. Estaria vestida com o quimono de dormir, semelhante ao quimono do dia, mais macio e com apenas um sash frouxo em vez do obi rígido à cintura.
- Obrigado, senhora - ele diria. - Boa noite.
Ela se curvaria e iria silenciosamente para o quarto do outro lado do corredor, ao lado do quarto onde Mariko dormia. Depois ele se poria embaixo do mosquiteiro de seda de excelente qualidade. Ele nunca vira mosquiteiros assim antes. Depois se deitaria prazerosamente e no meio da noite, ouvindo os poucos insetos zumbindo lá fora, se ateria ao Navio Negro, à importância do Navio Negro para o Japão.
Sem os portugueses, nada de comércio com a China. E nada de sedas para roupas ou mosquiteiros. Mesmo agora, com a umidade do clima apenas começando, ele já podia perceber o valor da seda.
Se ele se mexesse durante a noite, uma criada abriria a porta quase imediatamente, para lhe perguntar se desejava alguma coisa. Uma vez ele não compreendera. Fez sinal à criada que se fosse e dirigiu-se ao jardim, sentando-se nos degraus e olhando a lua. Dentro de poucos minutos Fujiko, desalinhada e sonolenta, veio e se sentou em silêncio atrás dele.
- Posso servir-lhe alguma coisa, senhor?
- Não, obrigado. Por favor, vá para a cama.
Ela dissera alguma coisa que ele não entendera. Novamente ele lhe fez sinal que fosse embora, então ela falara asperamente com a criada, que esperava como uma sombra. Logo apareceu Mariko.
- Está bem, Anjin-san?
- Sim. Não sei por que vocês ficaram perturbadas, Jesus Cristo... só estou olhando a lua. Não conseguia dormir. Só queria tomar um pouco de ar.
Fujiko falou com ela hesitante, constrangida, magoada com a irritação na voz dele.
- Ela diz que o senhor a mandou ir dormir de novo. Ela só queria que o senhor soubesse que não é nosso costume que uma esposa ou consorte durma enquanto o amo está acordado, era só isso, Anjin-san.
- Diga a ela que terá que mudar o costume. Levanto-me com freqüência à noite. É um hábito que adquiri ao mar. Tenho o sono muito leve em terra.
- Sim, Anjin-san.
Mariko explicara e as duas mulheres se afastaram. Mas Blackthorne sabia que Fujiko não tinha ido dormir e não o faria até que ele mesmo dormisse. Ela estava sempre em pé e à espera, fosse qual fosse a hora em que ele voltasse para casa. Algumas noites caminhava pela praia sozinho. Embora insistisse em ficar só, sabia que era seguido e observado. Não porque tivessem medo de que ele tentasse escapar. Apenas porque era o costume deles que as pessoas importantes fossem sempre escoltadas. Em Anjiro ele era importante.
Com o tempo, acabara aceitando a presença dela. Fora como Mariko dissera: "Pense nela como numa rocha, numa shoji ou numa parede. É dever dela servi-lo".
Com Mariko era diferente.
Sentia-se contente de que ela tivesse ficado. Sem a sua presença, nunca teria começado o treinamento, para não mencionar a tradução dos meandros da estratégia. Abençoava a ela, a Frei Domingo, a Alban Caradoc e aos seus outros professores.
Nunca pensei que as batalhas serviriam jamais a algum bom uso, pensou ele novamente. Uma vez, quando seu navio transportava uma carga de lãs inglesas para Antuérpia, uma frota espanhola caíra em cima da cidade e todos os homens foram para as barricadas e os diques. O ataque de surpresa fora rechaçado e a infantaria espanhola batida. Essa foi a primeira vez em que ele viu Guilherme, duque de Orange, usando regimentos como peças de xadrez. A\ inçando, retirando em pânico simulado para se reagruparem, investindo de novo, as armas espocando em salvas combinadas, rasgando as entranhas, martelando os ouvidos, irrompendo por entre os Invencíveis para deixá-los moribundos ou gritando, o mau cheiro de sangue e pólvora, urina e cavalos e excremento invadindo a gente, e uma alegria selvagem e frenética com a matança dominando-o, e a força de vinte homens nos seus braços.
- Jesus Cristo, é formidável ser vitorioso - disse ele em voz alta, na banheira.
- Amo? - disse Suwo.
- Nada - retrucou ele em japonês. - Eu falando... estava só pensar... estava só pensando alto.
- Compreendo, amo. Sim. Seu perdão.
Blackthorne deixou-se devanear novamente.
Mariko. Sim, ela tem sido inestimável.
Após aquela primeira noite do seu quase-suicídio, nada mais fora dito. O que havia para dizer?
Fico contente de haver tanta coisa para fazer, pensou ele. Nenhum tempo para pensar, exceto aqui no banho, nestes poucos minutos. Nunca há tempo suficiente para fazer tudo. Ordenaram-me que me concentrasse em treinamento e ensino, e não em aprender, mas quero aprender, tento aprender, preciso aprender para cumprir a promessa a Yabu. Não há horas suficientes. Sempre exausto, esgotado, na hora de dormir, dormindo imediatamente, para estar em pé ao amanhecer e sair a galope para o planalto. Treinando a manhã toda, depois uma refeição frugal, nunca satisfatória e sempre sem carne. Depois, toda tarde, até o pôr-do-sol - às vezes até mais tarde -, com Yabu e Omi e Igurashi e Naga e Zukimoto e alguns outros oficiais, falando sobre guerra, respondendo a perguntas sobre guerra. Como travar combate. Como os bárbaros guerreiam e como os japoneses guerreiam. Em terra e no mar. Escribas sempre tomando notas. Muitas, muitas notas.