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Às vezes apenas com Yabu.

Mas sempre com Mariko, uma parte dele, falando por ele. E por Yabu. Mariko agora diferente em relação a ele, ele não mais um estranho.

Outros dias os escribas relendo as notas, sempre verificando, sendo meticulosos, revisando e verificando de novo até, doze dias e cem horas mais ou menos de explanações detalhadas e exaustivas depois, terem formado um manual de guerra. Exato. E letal. Letal a quê? Não a nós, ingleses ou holandeses, que viremos aqui pacificamente e apenas como comerciantes. Letal aos inimigos de Yabu e aos inimigos de Toranaga, e aos nossos inimigos portugueses e espanhóis quando tentarem conquistar o Japão. Como fizeram por toda parte. Em cada território recentemente descoberto. Primeiro chegam os padres. Depois os conquistadores.

Mas aqui não, pensou ele com grande contentamento. Aqui nunca - agora. O manual é letal e à prova disso. Com alguns anos para que o conhecimento se difunda, não vai haver conquista alguma aqui.

- Anjin-san?

- Hai, Mariko-san?

Ela estava se curvando para ele.

- Yabu-ko wa kiden no goshusseki o kon-ya wa hitsuyo to senu to oserareru, Anjin-san.

Lentamente as palavras se formaram ria cabeça dele: "O Senhor Yabu não solicita a sua presença esta noite".

- Ichi-ban - disse ele, feliz. - Domo.

- Gomen nasai, Anjin-san. Anata wa...

- Sim, Mariko-san - interrompeu-a ele, o calor da água consumindo-lhe a energia. - Sei que devia ter dito de modo diferente, mas não quero mais falar japonês agora. Não esta noite. Agora me sinto como um menino de escola que pode faltar à aula por causa dos feriados de Natal. A senhora percebe que estas serão as primeiras horas livres que terei, desde a minha chegada?

- Sim, sim, percebo. - Ela sorriu obliquamente. - E o senhor percebe, Senhor Capitão-Piloto B'rack'fon, que estas serão as primeiras horas livres que terei desde a minha chegada?

Ele riu. Ela estava usando um pesado roupão de banho de algodão, amarrado frouxamente, e uma toalha em torno da cabeça para proteger o cabelo. Toda noite, assim que a massagem dele começava, ela vinha tomar banho, às vezes sozinha, às" vezes com Fujiko.

- Pronto, sua vez agora - disse ele, começando a se levantar.

- Oh, por favor, não. Não desejo perturbá-lo.

- Então vamos compartilhar o banho. Está magnífico.

- Obrigada. Mal posso esperar para lavar o suor e o pó.

- Ela tirou o roupão e sentou-se no minúsculo assento. Uma criada começou a ensaboá-la, enquanto Suwo esperava pacientemente, junto da mesa de massagem.

- E exatamente como um feriado de escola - disse ela, igualmente feliz.

A primeira vez que Blackthorne a vira nua no dia em que nadaram, sentira-se grandemente afetado. Agora a sua nudez, em si mesma, não o tocava fisicamente. Vivendo juntos em estilo japonês, numa casa japonesa, onde as paredes eram de papel e as salas serviam a múltiplas finalidades, ele a vira despida e parcialmente vestida muitas vezes. Chegara até a vê-la satisfazendo necessidades fisiológicas.

- O que é mais normal, Anjin-san? Os corpos são normais, e as diferenças entre homens e mulheres são normais, neh?

- Sim, mas é, hum, é que fomos educados de modo diferente.

- Mas agora o senhor está aqui e os nossos costumes são os seus costumes, e o que é normal é normal. Neh?

Normal era urinar ou defecar ao ar livre se não houvesse latrinas ou baldes, simplesmente erguendo o quimono ou abrindo-o, agachando-se ou ficando em, pé, todos os demais polidamente esperando sem olhar, raramente havendo divisórias para a privacidade. Por que se deveria exigir privacidade? E logo um dos camponeses vinha coletar as fezes e as misturava com água para fertilizar as plantações. O excremento humano e a urina eram a única fonte substancial de fertilizante do império. Havia poucos cavalos e bovinos, e nenhum outro recurso animal em absoluto. Portanto cada partícula humana era guardada e vendida aos fazendeiros de todo o país.

E depois de se ter visto os bem-nascidos e os humildes abrindo ou levantando o quimono, e ficando em pé ou agachando-se, não há muito com que se sentir embaraçado.

- Há, Anjin-san?

- Não.

- Ótimo - dissera ela, muito satisfeita. - Logo o senhor gostará de peixe cru, algas frescas, e então será realmente um hatamoto.

A criada derramou água em cima dela. Depois, limpa, Mariko avançou para a banheira e deitou-se em frente a ele, com um profundo suspiro de êxtase, o pequeno crucifixo oscilando entre os seios.

- Como é que a senhora faz isso? - disse ele.

- Isso o quê?

- Entrar na água tão depressa. É tão quente.

- Não sei, Anjin-san, mas pedi que pusessem mais lenha no fogo e aquecessem a água. Para o senhor, Fujiko sempre se certifica de que a água fique... podemos chamar de tépida.

- Se isso é tépido, então sou o tio de um holandês!

- O quê?

- Nada.

O calor da água tornou-os sonolentos e eles se refestelaram um instante, sem dizer palavra. Mais tarde ela disse:

- O que gostaria de fazer esta noite, Anjin-san?

- Se estivéssemos em Londres, nós... - Blackthorne parou. Não vou pensar neles, disse ele a si mesmo. Ou em Londres. Isso se foi. Isso não existe. Só aqui existe.

- Se? - Ela o estava observando, cônscia da mudança.

- Iríamos a um teatro e assistiríamos a uma peça - disse ele, dominando-se. - Vocês têm peças aqui?

- Oh, sim, Anjin-san. As peças são muito populares entre nós. O taicum gostava de representar para divertir os convidados. O Senhor Toranaga também gosta. E naturalmente há muitas companhias ambulantes para o povo comum. Mas as nossas peças não são como as suas, creio eu. Aqui os atores e atrizes usam máscaras. Chamamos as peças de no. São parte música, parte dança, e na maioria muito tristes, muito trágicas, peças históricas. Algumas são comédias. Nós veríamos uma comédia ou talvez uma peça religiosa?

- Não, iríamos ao Teatro Globe e veríamos alguma coisa de um escritor chamado Shakespeare. Gosto mais dele do que de Ben Jonson ou Marlowe. Talvez víssemos A megera domada ou Sonho de uma noite de verão ou Romeu e Julieta. Levei minha esposa para ver Romeu e Julieta e ela gostou muito. - Explicou os enredos para ela.

Na maior parte Mariko os considerou incompreensíveis.

- Seria impensável, aqui, que uma garota desobedecesse ao pai assim. Mas é muito triste, neh? Triste para a jovem e triste para o rapaz. Ela tinha apenas treze anos? Todas as suas senhoras se casam tão novas assim?

- Não. O comum é casarem com quinze ou dezesseis anos. Minha esposa tinha dezessete anos quando nos casamos. Que idade tinha a senhora?

- Apenas quinze, Anjin-san. - Uma sombra cruzou-lhe o cenho, mas ele não notou. - E após a peça, o que faríamos?

- Eu a levaria para comer. Iríamos à Stone's Chop House, em Fetter Lane, ou à Cheshire Cheese, na Fleet Street. São estalagens onde a comida é especial.

- O que comeríamos?

- Prefiro não lembrar - disse ele com um sorriso preguiçoso, voltando a mente ao presente. - Não posso me lembrar. É aqui que estamos e é aqui que comeremos, e eu gosto de peixe cru e karma é karma. - Afundou mais na banheira. - Uma grande palavra, "karma". E uma grande idéia. Seu auxílio tem sido enorme para mim, Mariko-san.

- Ser de algum valor para o senhor é um prazer meu. - Mariko descontraiu-se no calor. - Fujiko tem um prato especial para o senhor esta noite.

- Oh?

- Comprou um ... acho que o senhor chama de faisão. É um pássaro grande. Um dos falcoeiros apanhou-o para ela.