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- Um faisão? É mesmo? Honto?

- Honto - retrucou ela. - Fujiko pediu-lhes que o caçassem para o senhor. Pediu-me que lhe dissesse.

- Como está sendo cozido?

- Um dos soldados viu os portugueses preparando faisões e contou a Fujiko-san. Ela lhe pede que seja paciente, caso não esteja cozido adequadamente.

- Mas como é que ela ... como é que as cozinheiras estão fazendo? - Ele se corrigiu, pois apenas os criados cozinhavam e limpavam.

- Ela me disse que primeiro alguém arranca todas as penas, depois... depois tira as entranhas. - Mariko controlou o próprio enjôo. - Depois o pássaro é cortado em pedacinhos e frito em óleo, ou cozido com sal e temperos. - O nariz dela franziu-se.

- Às vezes eles o cobrem com lama e o colocam no meio de brasas e o assam. Não temos fornos, Anjin-san. Portanto será frito. Espero que esteja bom.

- Tenho certeza de que estará perfeito - disse ele, certo de que estaria intragável.

Ela riu.

- O senhor é transparente às vezes, Anjin-san.

- A senhora não compreende como a comida é importante! - Apesar de si mesmo, ele sorriu. - Tem razão. Eu não devia ser tão interessado por comida. Mas não consigo controlar a fome.

- Logo conseguirá. Aprenderá até a tomar chá numa xícara vazia.

- O quê?

- Este não é lugar para explicar isso, Anjin-san, nem o momento. Pois é preciso que se esteja desperto e muito alerta. É necessário um pôr-do-sol tranqüilo, ou um amanhecer. Um dia lhe mostrarei como se faz, por causa do que o senhor fez. Oh, é tão bom estar aqui, não? Um banho é realmente um dom de Deus.

Ele ouviu os criados lá fora, alimentando o fogo. Agüentou o calor que se intensificava o mais que pôde, depois saiu da água, meio auxiliado por Suwo, e deitou-se ofegante, sobre a espessa toalha. O velho afundou os dedos. Blackthorne poderia ter gritado de prazer.

- Isto é muito bom.

- O senhor mudou muito nos últimos dias, Anjin-san.

- Mudei?

- Oh, sim, desde o seu renascimento... sim, muito.

Ele tentou se recordar da primeira noite, mas lembrava-se de pouca coisa. De algum modo conseguira voltar para casa sobre as próprias pernas. Fujiko e as criadas o ajudaram a se deitar. Após um sono sem sonhos, despertou ao amanhecer e foi nadar. Depois, secando ao sol, agradecera a Deus a força e a pista que Mariko lhe dera. Mais tarde, caminhando para casa, saudou os aldeões, sabendo secretamente que eles estavam libertos da maldição de Yabu, assim como ele estava.

Depois, quando Mariko chegou, ele mandou buscar Mura.

- Mariko-san, por favor, diga isto a Mura: temos um problema, você e eu. Vamos resolvê-lo juntos. Quero freqüentar a escola da aldeia. Aprender a falar com as crianças.

- Elas não têm escola, Anjin-san.

- Nenhuma?

- Não. Mura diz que há um mosteiro a algumas ris a oeste e os monges poderiam ensiná-lo a ler e escrever, se o senhor quisesse. Mas isto é uma aldeia, Anjin-san. As crianças aqui precisam aprender a pescar, a conhecer o mar, a fazer redes, a plantar e cultivar o arroz e as plantações. Há pouco tempo para qualquer outra coisa, quanto mais para ler e escrever. Além disso, os pais e os avós ensinam as suas crianças, como sempre.

- Então como poderei aprender quando a senhora tiver partido?

- O Senhor Toranaga enviará os livros.

- Precisarei de mais do que de livros.

- Será tudo satisfatório, Anjin-san.

- Sim. Talvez. Mas diga ao chefe da aldeia que sempre que eu cometer um erro, qualquer um - qualquer um, até uma criança - deve me corrigir. Imediatamente. Eu lhe ordeno.

- Ele lhe agradece, Anjin-san.

- Alguém aqui fala português?

- Ele diz que não.

- Alguém nos arredores?

- Iyé, Anjin-san.

- Mariko-san, preciso ter alguém para quando a senhora partir.

- Direi isso a Yabu-san.

- Mura-san, você...

- Ele diz que o senhor não deve usar "san" com ele nem com nenhum aldeão. Eles estão abaixo do senhor. Não é correto que o senhor diga "san" a eles ou a qualquer um inferior ao senhor.

Fujiko também se havia curvado até o chão naquele primeiro dia.

- Fujiko-san lhe dá as boas-vindas a casa, Anjin-san. Ela diz que o senhor lhe concedeu uma grande honra e roga o seu perdão pela rudeza no navio. Sente-se honrada em ser sua consorte e cabeça da sua casa. Pergunta se o senhor conservará as espadas, coisa que lhe agradará imensamente. Pertenceram ao pai dela, que já morreu. Ela não as deu ao marido porque ele tinha suas próprias espadas.

- Agradeça-lhe e diga que fico honrado com que ela seja consorte - dissera ele.

Mariko curvara-se também. Formalmente.

- O senhor está numa nova vida agora, Anjin-san. Olhamo-lo com novos olhos. É costume nosso ser formais às vezes, com grande seriedade. O senhor abriu-me os olhos. Muitíssimo. Antes o senhor era apenas um bárbaro para mim. Por favor, desculpe a minha estupidez. O que fez prova que é samurai. Agora é samurai. Por favor, perdoe a minha falta de educação de antes.

Ele se sentira muito alto naquele dia. Mas a sua quase-morte autoinfligida o alterara mais do que ele mesmo percebia, e o marcara para sempre, mais do que a soma de todas as suas outras quase-mortes. Na realidade você não estava contando com Omi? perguntava-se ele. Omi apararia o golpe? Você não lhe deu sinais de alarma em profusão? Não sei. Só sei que estou contente porque ele estava preparado, respondeu Blackthorne a si mesmo. Lá se foi mais uma vida!

- Esta é a minha nona vida. A última! - disse alto.

Os dedos de Suwo pararam no mesmo instante.

- O quê? - perguntou Mariko. - O que disse, Anjin-san?

- Nada. Não foi nada - retrucou ele, constrangido.

- Machuquei-o, amo? - disse Suwo.

- Não.

Suwo disse mais alguma coisa que ele não compreendeu.

- Dozo?

- Ele quer lhe massagear as costas agora - disse Mariko, distante.

Blackthorne pôs-se de bruços, repetiu as palavras em japonês e esqueceu imediatamente. Podia vê-la através do vapor. Ela respirava profundamente, a cabeça ligeiramente inclinada para trás, a pele rosada.

Como é que agüenta o calor? perguntou-se ele. Treinamento, acho eu, desde a infância.

Os dedos de Suwo lhe causavam grande prazer, e ele cochilou momentaneamente.

No que é que eu estava pensando?

Estava pensando na sua nona vida, sua última vida, e estava com medo, lembrando-se da superstição. Mas é tolice, aqui na Terra dos Deuses, ser supersticioso. As coisas aqui são diferentes e isso vale para sempre. Hoje é para sempre.

Amanhã muitas coisas podem acontecer.

Hoje vou me adaptar às regras deles.

Vou, sim.

A criada trouxe o prato coberto. Segurava-o alto, acima da cabeça, conforme o costume, a fim de que sua respiração não maculasse o alimento. Ansiosamente ela se ajoelhou e colocou-o com cuidado sobre a mesa-bandeja diante de Blackthorne. Sobre cada mesinha havia tigelas e pauzinhos, cálices de saquê e guardanapos, e um minúsculo arranjo de flores. Fujiko e Mariko estavam sentadas em frente a ele. Usavam flores e pentes de prata no cabelo. O quimono de Fujiko era estampado com peixes verdeclaros sobre um fundo branco, o obi dourado. Mariko usava um preto e vermelho, com uma fina capa prateada e com crisântemos e um obi vermelho e prata. Estavam ambas perfumadas, como sempre. O incenso ardia a fim de manter a distância os insetos noturnos.

Blackthorne se preparara há muito tempo. Sabia que qualquer desagrado seu destruiria a noite delas. Se havia como apanhar faisões, então haveria mais caça, pensou ele. Tinha uni cavalo e armas, e podia caçar por si mesmo, desde que arrumasse tempo para isso.

Fujiko inclinou-se para a frente e tirou a tampa de sobre o prato. Os pedacinhos de carne frita estavam dourados e pareciam perfeitos. Ele começou a salivar com o aroma.

Lentamente pegou um pedaço com os pauzinhos, desejando que não caísse, e mastigou. Estava duro e seco, mas ele não comia carne há tanto tempo que achou delicioso. Outro pedaço. Ele suspirou de prazer.