- Ichi-ban, ichi-ban, por Deus!
Fujiko corou e serviu-lhe o saquê para ocultar o rosto. Mariko abanou-se, seu leque carmesim uma libélula. Blackthorne bebeu o vinho a grandes goles, outro pedaço, tomou mais vinho e ritualisticamente ofereceu a Fujiko o cálice cheio até a borda. Ela recusou, conforme o costume, mas naquela noite ele insistiu, e ela esvaziou o cálice, engasgando ligeiramente. Mariko também recusou e também foi instada a beber. Depois ele atacou o faisão tentando não demonstrar muito o prazer que sentia. As mulheres mal tocaram nas pequenas porções de verduras e peixe. Isso não o incomodou, porque era um costume feminino comer antes ou depois, de modo que todas as atenções delas pudessem se devotar ao amo.
Ele comeu o faisão todo, três tigelas de arroz e sorveu ruidosamente o saquê, o que era sinal de boas maneiras. Sentiu-se saciado pela primeira vez em meses. No decorrer da refeição, esvaziou seis frascos de vinho quente, Mariko e Fujiko dois entre si. Agora estavam coradas, dando risadinhas e no estágio da tolice.
Mariko casquinou e pôs a mão diante da boca.
- Gostaria de poder tomar saquê como o senhor, Anjin-san. Bebe melhor do que qualquer homem que eu jamais tenha conhecido. Aposto como o senhor seria o melhor em Izu! Eu poderia ganhar muito dinheiro com o senhor!
- Pensei que os samurais desaprovassem o jogo.
- Oh, desaprovam, desaprovam totalmente, eles não são mercadores ou camponeses. Mas nem todos os samurais são tão fortes quanto os outros e muitos... como se diz... muitos apostam como os bárbaros ... como os portugueses.
- As mulheres jogam?
- Oh, sim. Muito. Mas apenas com outras damas e em quantias cuidadosas, e sempre de modo a que os maridos não descubram! - Alegremente traduziu para Fujiko, que estava mais corada do que ela. - Sua consorte pergunta se os ingleses jogam. O senhor gosta de apostas?
- É o nosso passatempo nacional. - E contou-lhe sobre as corridas de cavalos, boliche, touradas, corridas, corridas de cães, falcoaria, ações de companhias novas, cartas de corso, tiro, dardos, loterias, boxe, cartas, luta romana, dados, xadrez, dominó, e sobre a época das feiras, quando se colocavam ceitis sobre números e se apostava na roleta.
- Fujiko pergunta como encontram tempo para viver, para guerrear e para "travesseirar" - disse Mariko.
- Para isso há sempre tempo. - Seus olhos se encontraram um instante mas ele não conseguiu ler nada nos dela, apenas felicidade e, talvez, excesso de vinho.
Mariko pediu-lhe que cantasse a canção hornpipe para Fujiko, e ele o fez. Elas o cumprimentaram e disseram que era a melhor que já tinham ouvido.
- Tomem mais saquê!
- Oh, o senhor não deve servir, Anjin-san, isso é dever de mulher. Eu não lhe disse?
- Sim. Tome mais um pouco, dozo!
- É melhor não. Acho que vou desabar. - Mariko abanou o leque furiosamente e o ar agitou os fios de cabelo que haviam escapado do seu penteado impecável.
- A senhora tem belas orelhas - disse ele.
- O senhor também. Nós, Fujiko-san e eu, achamos que o seu nariz é perfeito também, digno de um daimio.
Ele sorriu e curvou-se elaboradamente para elas. Elas retribuíram a reverência. As dobras do quimono de Mariko afastaram-se ligeiramente do pescoço, revelando a extremidade do seu quimono interior escarlate e a protuberância dos seios, e isso o excitou consideravelmente.
- Saquê, Anjin-san?
Ele estendeu o cálice, os dedos firmes. Ela verteu, olhando o cálice, a ponta da língua tocando os lábios enquanto se concentrava.
Relutantemente Fujiko também aceitou um pouco, embora dissesse que já não podia sentir as pernas. Sua serena melancolia parecia ter desaparecido naquela noite e ela parecia jovem de novo. Blackthorne notou que ela não era tão feia quanto ele pensara uma vez.
Jozen tinha a cabeça zunindo. Não por causa de saquê, mas devido à incrível estratégia de guerra que Yabu, Omi e Igurashi lhe descreveram tão abertamente. Apenas Naga, o segundo em comando, filho do arquiinimigo, não dissera nada, e permanecera a noite toda frio, arrogante, de costas rijas, com o narigão característico de Toranaga num rosto tenso.
- Surpreendente, Yabu-sama - disse Jozen. - Agora posso compreender a razão do sigilo. Meu amo também compreenderá. Sábio, muito sábio. E o senhor, Nagan-san, esteve em silêncio a noite toda. Gostaria de ouvir a sua opinião. O que acha desta nova mobilidade, desta nova estratégia?
- Meu pai acredita que todas as possibilidades bélicas devem ser consideradas, Jozen-san - replicou o jovem.
- Mas e o senhor, a sua opinião?
- Fui mandado para cá apenas para obedecer, observar, ouvir, aprender e testar. Não para dar opiniões.
- Naturalmente. Mas como segundo em comando, devo dizer, como um ilustre segundo em comando, considera a experiência um sucesso?
- Yabu-sama ou Omi-san devem responder a isso. Ou meu pai.
- Mas Yabu-sama disse que todos esta noite conversaríamos livremente. O que há para ocultar? Somos todos amigos, neh? O filho tão famoso de um pai tão famoso deve ter uma opinião. Neh?
Os olhos de Naga estreitaram-se ante o sarcasmo, mas ele não respondeu.
- Todos podem falar livremente, Naga-san - disse Yabu.
- O que pensa?
- Penso que, tendo a surpresa como aliada, esta idéia venceria uma escaramuça ou possivelmente uma batalha. De surpresa, sim. Mas e depois? - A voz de Naga fluiu gelidamente. - Depois todos os lados usariam o mesmo plano e uma vasta quantidade de homens morreria desnecessariamente, assassinados sem honra por um atacante que não vai saber nem a quem matou. Duvido que meu pai realmente autorize o uso disso numa autêntica batalha.
- Ele disse isso? - Yabu fez a pergunta incisivamente, sem se preocupar com Jozen.
- Não, Yabu-sama. Estou dando a minha opinião. Naturalmente.
- Mas o Regimento de Mosquetes, não o aprova? Ele lhe causa repugnância? - perguntou Yabu sobriamente.
Naga olhou-o com olhos inexpressivos, de réptil.
- Com grande respeito, já que o senhor pede a minha opinião, sim, considero-o repugnante. Nossos antepassados sempre souberam a quem mataram ou quem os derrotava. Isso é bushido, o nosso caminho, o Caminho do Guerreiro, o caminho de um verdadeiro samurai. O melhor homem é o vencedor, neh? Mas agora, isto? Como um homem prova ao seu senhor o próprio valor? Como pode recompensar a coragem? Atirar balas é corajoso, mas também é estúpido. Onde está o valor disso? As armas são contra o nosso código samurai. Os bárbaros lutam desse modo, os camponeses lutam desse modo. O senhor percebe que mercadores e camponeses imundos, até elas, poderiam lutar desse modo? - Jozen riu e Naga continuou, mais ameaçador até. - Alguns camponeses fanáticos poderiam matar qualquer quantidade de samurais, dispondo de armas suficientes! Sim, camponeses poderiam matar qualquer um de nós, até o Senhor Ishido, que quer se sentar no lugar do meu pai.
Jozen empertigou-se.
- O Senhor Ishido não cobiça as terras de seu pai. Visa apenas a proteger o império para o seu herdeiro legítimo.
- Meu pai não é ameaça ao Senhor Yaemon, nem ao reino.
- Naturalmente, mas o senhor estava falando de camponeses. O taicum foi camponês um dia. Meu senhor Ishido foi camponês. Eu fui camponês. E ronin!
Naga não queria discutir. Sabia que não era páreo para Jozen, cuja destreza com a espada e o machado era renomada.
- Não estava tentando insultar o seu amo, o senhor ou a quem quer que seja, Jozen-san. Estava meramente dizendo que nós, samurais, devemos todos nos certificar bem de que os camponeses nunca terão armas, ou nenhum de nós estará seguro.
- Mercadores e camponeses nunca nos preocuparão - disse Jozen.