- Concordo - acrescentou Yabu -, e, Naga-san, concordo com parte do que você disse. Sim. Mas as armas são modernas. Logo todas as batalhas serão travadas com armas de fogo. Concordo em que é desagradável. Mas é o rumo da guerra moderna. E depois as coisas serão como sempre foram: os samurais mais bravos sempre conquistarão.
- Não, desculpe, mas está enganado, Yabu-sama! O que foi que esse bárbaro nos contou - a essência da estratégia de guerra deles? Ele voluntariamente admite que todos os exércitos são recrutados e mercenários. Neh? Mercenários! Nenhum senso de dever para com o senhor. Os soldados apenas lutam por paga e saquê, para violar e fartar-se. Ele não disse que os exércitos deles são exércitos de camponeses? Foi isso o que as armas levaram ao mundo dele, e é isso o que trarão ao nosso. Se eu tivesse poder, tomaria a cabeça desse bárbaro esta noite e tornaria ilegais todas as armas permanentemente.
- É isso o que pensa o seu pai? - perguntou Jozen rapidamente.
- Meu pai não diz a mim nem a ninguém o que pensa, conforme o senhor certamente sabe. Não falo por meu pai, ninguém fala por ele - replicou Naga, furioso por ter-se permitido cair na armadilha e acabar falando. - Fui mandado para cá a fim de obedecer, ouvir e não falar. Não teria falado se não tivesse sido solicitado. Se o ofendi, ou ao senhor, Yabu-sama, ou ao senhor, Omi-san, peço desculpas.
- Não há necessidade de se desculpar. Eu pedi sua opinião - disse Yabu. - Por que alguém ficaria ofendido? Isto é uma discussão, neh? Entre líderes. Você tornariá ilegais as armas?
- Sim. Acho que o senhor seria prudente mantendo um controle muito rígido de cada arma de fogo no seu domínio.
- Todos os camponeses estão proibidos de usar armas de qualquer espécie. Meus camponeses e meu povo são muito bem controlados.
Jozen sorriu malicioso para o jovem delgado, sentindo aversão por ele.
- Tem idéias interessantes, Naga-san. Mas está enganado quanto aos camponeses. Para os samurais eles não são nada além de provedores. Não representam mais ameaça do que um monte de esterco!
- No momento! - disse Naga, deixando-se comandar pelo orgulho. - É por isso que eu baniria as armas agora. Tem razão, Yabu-sama, ao afirmar que uma nova era exige novos métodos. Mas por causa do que disse esse Anjin-san, esse único bárbaro, eu iria muito além das nossas leis atuais. Eu divulgaria editos no sentido de que toda pessoa que não os samurais encontrada com uma arma de fogo ou apanhada comerciando com armas imediatamente perderia a vida, assim como cada membro da sua família de todas as gerações. Mais, eu proibiria a fabricação e a importação de armas de fogo. Proibiria os bárbaros de usá-las e de trazê-las às nossas praias. Sim, se eu tivesse poder - a que não viso e jamais visarei -, manteria os bárbaros totalmente fora do nosso país, exceto por alguns padres e um porto para o comércio, que eu cercaria com uma cerca alta e guerreiros merecedores de confiança. Por último, eu mandaria matar imediatamente esse bárbaro de mente repugnante, o Anjin-san, a fim de que o seu imundo conhecimento não se difundisse. Ele é uma doença.
- Ah, Naga-san - disse Jozen -, deve ser bom ser tão jovem. O senhor sabe, meu amo concorda com muita coisa do que disse sobre os bárbaros. Ouvi-o dizer muitas vezes: "Mantenha-os fora daqui... chute-os para fora... dê-lhes um pontapé no traseiro de volta a Nagasaki e mantenha-os lá!" O senhor mataria o Anjin-san, hein? Interessante. O meu amo também não gosta dele. Mas para ele... - Ele parou. - Ah, sim, o senhor tem um bom pensamento sobre as armas de fogo. Posso ver isso claramente. Posso dizer isso ao meu amo? A sua idéia sobre as novas leis?
- Naturalmente. - Naga estava abrandado, e mais calmo agora que tinha falado o que trazia atravessado desde o primeiro dia.
- Você deu a sua opinião ao Senhor Toranaga? - perguntou Yabu.
- O Senhor Toranaga não me perguntou a minha opinião. Espero que um dia ele me honre perguntando, como o senhor o fez - respondeu Naga de imediato, com sinceridade, e ficou surpreso de que ninguém detectasse a mentira.
- Como isto é uma discussão livre, senhor - disse Omi -, digo que esse bárbaro é um tesouro. Acredito que devemos aprender com ele. Temos que saber sobre armas e navios de combate, porque eles sabem sobre isso. Temos que saber tudo o que sabem assim que ficarem sabendo, e mesmo agora, alguns de nós devem começar a aprender a pensar como eles, de modo que logo possamos ultrapassá-los.
Naga disse, confiantemente:
- O que eles poderiam saber, Omi-san? Sim, armas e navios. Mas o que mais? Como poderiam nos destruir? Não há um samurai entre eles. Esse Anjin não admite abertamente que até os reis deles são assassinos e fanáticos religiosos? Somos milhões, eles são um punhado. Poderíamos esmagá-los apenas com as mãos.
- Esse Anjin-san abriu-me os olhos, Naga-san. Descobri que a nossa terra e a China não são o mundo todo, são apenas uma parte muito pequena. Primeiro pensei que o bárbaro fosse só uma curiosidade. Agora, não. Agradeço aos deuses por ele. Acho que nos salvou e sei que podemos aprender com ele. Já nos deu poder sobre os bárbaros meridionais ... e sobre a China.
- O quê?
- O taicum falhou porque os efetivos deles são grandes demais para nós, homem a homem, seta a seta, neh? Com armas e a habilidade bárbara, poderíamos tomar Pequim.
- Com traição bárbara, Omi-san!
- Com conhecimento bárbaro, Naga-san, poderíamos tomar Pequim. Quem quer que tome Pequim acaba controlando a China. E quem quer que controle a China pode controlar o mundo. Devemos aprender a não nos envergonhar de adquirir conhecimento, venha de onde vier.
- Digo que não precisamos de nada lá de fora.
- Sem ofensa, Naga-san, digo que devemos proteger esta Terra dos Deuses de qualquer jeito. É o nosso dever primordial proteger a única e divina posição que temos na terra. Apenas esta é a Terra dos Deuses, neh? Apenas o nosso imperador é divino. Concordo com que esse bárbaro deva ser silenciado. Mas não pela morte. Por isolamento permanente aqui em Anjiro, até que tenhamos aprendido tudo o que sabe.
Jozen coçou-se pensativamente.
- Meu amo será informado das suas idéias. Concordo em que o bárbaro deve ser isolado. E também que o treinamento deve cessar imediatamente.
Yabu puxou um pergaminho da manga.
- Aqui está um relatório completo sobre a experiência para o Senhor Ishido. Quando ele desejar que o treinamento cesse, naturalmente o treinamento cessará.
Jozen aceitou o pergaminho.
- E o Senhor Toranaga? E quanto a ele? - Seus olhos pousaram em Naga. Este não disse nada, apenas fitou o rolo de pergaminho.
- O senhor terá condição de pedir-lhe a opinião diretamente - disse Yabu. - Ele tem um relatório semelhante. Presumo que o senhor partirá para Yedo amanhã, não? Ou gostaria de presenciar o treinamento? Não preciso lhe dizer que os homens ainda não estão perfeitos.
- Gostaria de assistir a um "ataque".
- Omi-san, providencie. Você comanda.
- Sim, senhor.
Jozen voltou-se para o seu segundo em comando e deu-lhe o pergaminho.
- Masumoto, leve isto ao Senhor Ishido. Parta imediatamente.
- Sim, Jozen-san.
- Providenciê-lhe guias até a fronteira - disse Yabu a Igurashi -, e cavalos descansados.
Igurashi partiu com o samurai no mesmo instante. Jozen espreguiçou-se e bocejou.
- Por favor, desculpe-me - disse -, mas é toda a cavalgada dos últimos dias. Devo agradecer-lhe por uma noite extraordinária, Yabu-sama. Suas idéias têm longo alcance. E as suas, Omi-san. E as suas, Naga-san. Elogiá-lo-ei ao Senhor Toranaga e ao meu amo. Agora, se me desculparem, estou muito cansado e Osaka fica a um longo caminho.
- Naturalmente - disse Yabu. - Como estava Osaka?
- Muito bem. Lembra-se daqueles bandidos, os que os atacaram por terra e por mar?
- Naturalmente.
- Tomamos quatrocentas e cinqüenta cabeças naquela noite. Muitos usavam uniformes de Toranaga.