- Os ronins não têm honra. Nenhum deles.
- Alguns ronins têm - disse Jozen, aguilhoado com o insulto. Ele vivia sempre com a vergonha de um dia ter sido ronin.
- Alguns usavam até seus novos uniformes cinzentos. Nenhum escapou. Morreram todos.
- E Buntaro-san?
- Não. Ele... - Jozen parou. O "não" escapara, mas agora que o tinha dito, não se importou. - Não. Não sabemos com certeza. Ninguém encontrou a cabeça dele. O senhor não ouviu nada sobre ele?
- Não - disse Naga.
- Talvez tenha sido capturado. Talvez simplesmente o tenham esquartejado e dispersado os pedaços. Meu amo gostaria de saber, quando o senhor tiver notícias. Agora está tudo muito bem em Osaka. Os preparativos para o encontro estão em andamento. Haverá pródigos entretenimentos para celebrar a nova era, e naturalmente, para honrar todos os daimios.
- E o Senhor Toda Hiromatsu? - perguntou Naga polidamente.
- O velho Punho de Aço está mais forte e grosseiro do que nunca.
- Ainda está lá?
- Não. Partiu com todos os homens de seu pai alguns dias antes de mim.
- E a família de meu pai?
- Ouvi dizer que a Senhora Kiritsubo e a Senhora Sazuko pediram para ficar com o meu amo. Um médico aconselhou a senhora a descansar por um mês - questão de saúde, o senhor sabe. Ele achou que a jornada não seria boa para a criança. - A Yabu acrescentou: - Ela levou um tombo na noite em que o senhor partiu, não foi?
- Sim.
- Não é nada sério, espero - disse Naga, muito preocupado.
- Não, Naga-san, nada sério - disse Jozen, depois novamente para Yabu: - O senhor informou o Senhor Toranaga da minha chegada?
- Naturalmente.
- ótimo.
- As notícias que o senhor nos trouxe vão interessá-lo grandemente.
- Sim. Vi um pombo-correio fazer um círculo e voar para o norte.
- Disponho desse serviço agora. - Yabu não acrescentou que um pombo de Jozen também fora observado, nem que falcões o haviam interceptado perto das montanhas, nem que a mensagem fora decifrada: "Em Anjiro. Tudo verdade conforme relatado. Yabu, Naga, Omi e bárbaro aqui".
- Partirei amanhã, com a sua permissão, depois do "ataque". O senhor me dará cavalos descansados? Não devo fazer o Senhor Toranaga esperar. Estou ansioso por vê-lo. Meu amo também. Em Osaka. Espero que me acompanhe, Naga-san.
- Recebi ordens de vir para cá, ficarei aqui. - Naga manteve os olhos baixos, mas estava ardendo de cólera contida.
Jozen partiu e caminhou com os guardas colina acima, em direção ao seu acampamento. Substituiu as sentinelas, ordenou aos homens que dormissem, e entrou na sua pequena tenda de arbustos que haviam construído contra a chuva que se aproximava. À luz de vela, sob o mosquiteiro, reescreveu a mensagem anterior num delgado pedaço de papel de arroz, e acrescentou: "Os quinhentos canhões são letais. Planejados ataques de surpresa em massa - relatório completo já enviado através de Masumoto".
Depois datou e apagou a vela. Na escuridão, deslizou para fora do mosquiteiro, retirou um dos pombos dos cestos e colocou a mensagem no minúsculo recipiente no pé da ave. Depois, furtivamente dirigiu-se a um dos homens e estendeu-lhe o pombo.
- Leve-o para fora do mato - sussurrou ele. - Esconda-o em algum lugar onde possa pernoitar em segurança até o amanhecer. Tão longe quanto possível. Mas seja cuidadoso, há olhos por toda parte. Se for interceptado, diga que eu o mandei patrulhar, mas esconda o pombo primeiro. - O homem se afastou tão silenciosamente quanto uma barata.
Satisfeito consigo mesmo, Jozen olhou na direção da aldeia, lá embaixo. Havia luzes na fortaleza e na vertente oposta, na casa que ele sabia ser de Omi. Havia também algumas na casa logo abaixo, a casa atualmente ocupada pelo bárbaro.
Aquele rapazola, Naga, tem razão, pensou Jozen, afastando um mosquito com a mão. O bárbaro é uma praga imunda.
- Boa noite, Fujiko-san.
- Boa noite, Anjin-san.
A shoji fechou-se atrás dela. Blackthorne tirou o quimono, a tanga, e vestiu o quimono de dormir, mais leve. Enfiou-se sob o mosquiteiro e deitou-se.
Soprou a vela. Uma profunda escuridão o envolveu. A casa estava silenciosa agora. As pequenas janelas estavam fechadas e ele podia ouvir o mar quebrando na praia. Nuvens obscureciam a lua.
O vinho e o riso o haviam deixado sonolento e eufórico. Ouvia a arrebentação e se sentia à deriva com ela, a mente enevoada. Ocasionalmente um cão latia na aldeia lá embaixo. Eu devia arrumar um cachorro, pensou ele, lembrando-se do bull terrier em casa. Será que ainda está vivo? O nome era Grog, mas Tudor, seu filho, sempre chamava o animal de "Og-Og".
Ah, Tudor, rapazinho. Faz tanto tempo.
Gostaria de poder vê-los todos - ou até escrever uma carta o mandar para casa. Vejamos, pensou, como começaria?
"Meus queridos: esta é a primeira carta que pude mandar para casa desde que desembarcamos no Japão. As coisas vão bem, agora que sei como viver de acordo com os modos deles. A comida é terrível, mas esta noite comi um faisão e logo terei o meu navio de volta. Por onde começar a minha história? Hoje sou como um senhor feudal nesta terra estranha. Tenho uma casa, um cavalo, oito criados, uma governanta, meu próprio banheiro, o minha própria intérprete. Estou limpo e barbeado agora, e me barbeio todos os dias. As lâminas de aço que eles têm aqui certamente são as melhores do mundo. Meu salário é altíssimo - o suficiente para alimentar duzentos e cinqüenta famílias do Japão, por um ano. Na Inglaterra isso seria o equivalente a quase mil guinéus de ouro por ano! Dez vezes o meu salário na companhia holandesa...”
A shoji começou a se abrir. A mão dele procurou a pistola sob o travesseiro e ele se preparou, soerguendo-se. Depois captou o farfalhar de seda quase imperceptível e um bafejo de perfume.
- Anjin-san? - Um fio de sussurro, cheio de promessa.
- Hai? - perguntou ele de modo igualmente suave, perscrutando a escuridão, incapaz de enxergar com clareza.
Os passos se aproximaram. Houve o som dela ajoelhando-se, o mosquiteiro sendo puxado para o lado, e ela se juntou a ele sob a rede. Ela lhe tomou a mão e levou-a ao peito, depois aos lábios.
- Mariko-san?
Imediatamente os dedos dela se estenderam na escuridão e tocaram-lhe os lábios, pedindo silêncio. Ele assentiu, compreendendo o risco terrível que corriam. Ele segurou-lhe o pulso minúsculo e roçou-o com os lábios. Em meio à escuridão de breu, a outra mão dele procurou e acariciou o rosto dela. Ela beijou-lhe os dedos um por um. Seu cabelo estava solto e comprido até a cintura agora. As mãos dele percorreram-lhe o corpo. A adorável sensação da seda, nada embaixo.
O gosto dela era doce. A língua dele tocou-lhe os dentes, depois contornou-lhe as orelhas, descobrindo-a. Ela afrouxou o quimono dele e deixou o seu cair para o lado, a respiração mais langorosa agora. Ela se achegou mais, aninhando-se a ele, e puxou a coberta por cima da cabeça deles. Depois começou a amá-lo, com as mãos e os lábios. Com mais ternura e empenho e conhecimento do que ele jamais conhecera.
CAPÍTULO 33
Blackthorne despertou ao amanhecer. Sozinho. Ao primeiro momento teve a certeza de haver sonhado, mas o perfume dela ainda pairava, e ele soube que não fora um sonho.
Uma batida discreta.
- Hai?
- Ohayo, Anjin-san, gomen nasai. - Uma criada abriu a porta para Fujiko, depois trouxe a bandeja com chá, uma tigela de papa de arroz e bolos doces de arroz.
- Ohayo, Fujiko-san, domo - disse ele, agradecendo-lhe. Ela sempre vinha pessoalmente com a primeira refeição, abria o mosquiteiro e esperava enquanto ele comia, e a criada estendia um quimono limpo, tabis e uma tanga.