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Ele sorveu o chá, perguntando-se se Fujiko sabia sobre o ocorrido à noite. O rosto dela não traía nada.

- Ikaga desu ka? Como está? - perguntou Blackthorne.

- Okagesama de genki desu, Anjin-san, Anata wa? Muito bem, obrigada. E o senhor?

A criada tirou a roupa limpa dele do armário fechado que se fundia com perfeição ao resto do aposento de gelosia de papel, depois deixou-os a sós.

- Anata wa yoku nemutta ka? Dormiu bem?

- Hai, Anjin-san, arigato gozie,nashita! - Ela sorriu, pôs a mão na cabeça simulando dor, estar bêbada e dormir como uma pedra. - Anata wa?

- Watashi wa yoku nemuru. Eu dormi muito bem.

Ela o corrigiu:

- Watashi wa yoku nemutta.

- Domo. Watashi wa yoku nemutta.

- Yoi! Talhenyoi! Bom. Muito bom.

Então, do corredor, ele ouviu Mariko chamar:

- Fujiko-san?

- Hai, Mariko-san? - Fujiko foi à shoji e abriu uma fresta. Ele não pôde ver Mariko. E não entendeu o que elas diziam. Espero que ninguém saiba, pensou. Rezo para que seja secreto, apenas entre nós. Talvez fosse melhor se tivesse sido um sonho.

Começou a se vestir. Fujiko voltou e se ajoelhou para lhe calçar os tabis.

- Mariko-san? Nan ja?

- Nani-mo, Anjin-san - replicou ela. Não era nada de importante. Foi até o takonoma, a alcova com os pergaminhos pendurados e o arranjo de flores, onde as espadas eram sempre deixadas. Entregou-as a ele. Ele as prendeu no cinto. As espadas já não lhe pareciam ridículas, embora tivesse vontade de conseguir usá-las com menos consciência de si mesmo.

Ela lhe contara que as espadas tinham sido conferidas ao seu pai, por bravura, após uma batalha particularmente sangrenta no extremo-norte da Coréia, sete anos atrás, durante a primeira invasão. Os exércitos japoneses haviam irrompido através do reino, vitoriosos, retalhando a região norte. Depois, quando estavam perto do rio Yalu, as hordas chinesas abruptamente brotaram do outro lado da fronteira para enfrentar os exércitos japoneses e, devido ao peso das suas tropas inacreditáveis, haviam-nos desbaratado. O pai de Fujiko fazia parte da retaguarda que cobria a retirada para as montanhas ao norte de Seul, onde se voltaram e travaram batalha visando a um empate. Essa campanha e a segunda tinham sido a expedição militar mais dispendiosa jamais empreendida. Quando o taicum morrera, no ano anterior, Toranaga, em nome do conselho de regentes, imediatamente ordenara aos remanescentes dos exércitos que regressassem, para grande alívio da maioria dos daimios, que detestavam a campanha coreana.

Blackthorne saiu para a varanda. Calçou as sandálias e fez um aceno de cabeça aos criados, que tinham sido reunidos em linha para saudá-lo, como de costume.

Fazia um dia encoberto. O céu estava nublado e um vento quente e úmido vinha do mar. As alpondras que estavam fixadas no cascalho do caminho estavam molhadas da chuva que caíra durante a noite. Além do portão estavam os cavalos e seus dez samurais batedores. E Mariko.

Já estava montada e usava um manto amarelo-claro sobre as calças de seda verde-clara, um chapéu de aba larga e um véu, preso por fitas amarelas, e luvas. Preso à sela, um guarda-chuva.

- Ohayo - disse ele formalmente. - Ohayo, Mariko-san.

- Ohayo, Anjin-san. Ikaga desu ka?

- Okagesama de genki desu. Anata wa?

Ela sorriu.

- Yoi, arigato goziemashita.

Não deu o menor indício de haver qualquer diferença entre eles. Mas ele esperava por isso, em público, sabendo como a situação era perigosa. Seu perfume chegou até ele, que teria gostado de beijá-la ali, diante de todos...

- Ikimasho! - disse ele, e saltou para a sela, acenando para os samurais para que se pusessem em marcha à frente. Conduziu o cavalo vagarosamente e Mariko se pôs ao seu lado. Quando ficaram sozinhos, ele se descontraiu.

- Mariko.

- Hai?

Então ele disse, em latim:

- Você é linda e eu a amo.

- Agradeço-lhe, mas todo aquele vinho da noite passada faz a minha cabeça não se sentir nem um pouco bela hoje, não de verdade, e "amor" é uma palavra cristã.

- Você é linda e cristã, e o vinho não poderia afetá-la.

- Obrigada pela mentira, Anjin-san, sim, agradeço-lhe.

- Não. Eu é que devo agradecer.

- Oh? Por quê?

- Nunca "por quê?", nada de "por quê?" Agradeço-lhe sinceramente.

- Se o vinho e a carne o deixam tão cordial, agradável e galante - disse ela -, preciso dizer à sua consorte que mova céus e terra para obtê-los para o senhor todas as noites.

- Sim. Eu repetiria tudo, sempre.

- O senhor está feliz hoje - disse ela. - Ótimo, muito bom. Mas por quê? Por quê, realmente?

- Por sua causa. Você sabe por quê?

- Não sei nada, Anjin-san.

- Nada? - arreliou ele.

- Nada.

Ele ficou perplexo. Estavam os dois sozinhos e em segurança.

- Por que "nada" tira a alma do seu sorriso? - perguntou ela.

- Estupidez! Absoluta estupidez! Esqueci que é mais prudente ser cauteloso. Foi só porque estamos sozinhos e eu queria falar a respeito. E, na verdade, dizer mais.

- O senhor fala por enigmas. Não o entendo.

Ele ficou confuso de novo.

- Não quer falar a respeito? Em absoluto?

- A respeito de quê, Anjin-san?

- O que aconteceu a noite passada, então?

- Passei pela sua porta esta noite, quando a minha criada, Koi, estava com o senhor.

- O quê!

- Nós, sua consorte e eu, achamos que ela seria um presente agradável para o senhor. Ela lhe agradou, não?

Blackthorne estava tentando se recompor. A criada de Mariko era do tamanho dela, mas mais jovem e nunca tão encantadora e nunca tão linda, mas sim, estava escuro como piche, e sim, ele tinha a cabeça enevoada por causa do vinho, mas não, não era a criada.

- Isso não é possível - disse ele em português.

- O que não é possível, senhor? - perguntou ela, na mesma língua.

Ele voltou ao latim, já que os batedores não se encontravam muito afastados, o vento soprando na sua direção.

- Por favor, não brinque comigo. Ninguém pode ouvir. Conheço uma presença e um perfume.

- Pensou que fosse eu? Oh, não era, Anjin-san. Eu ficaria honrada, mas eu nunca poderia... apesar do muito que pudesse desejar - oh, não, Anjin-san. Não era eu, mas Koi, a minha criada. Eu ficaria honrada, mas pertenço a outro até que ele esteja morto.

- Sim, mas não era a sua criada. - Ele engoliu a raiva. - Mas deixe estar como a senhora prefere.

- Era a minha criada, Anjin-san - disse ela, apaziguadora. - Nós a friccionamos com o meu perfume e instruímo-la: nada de palavras, apenas toque. Não pensamos um momento sequer que o senhor acharia que era eu! Isso não foi para ludibriá-lo, mas para o seu conforto, sabendo que as repugnantes coisas relativas a "travesseiro" o embaraçam. - Ela o fitava com olhos enormes, inocentes. - Ela lhe agradou, Anjin-san? O senhor agradou a ela.

- Uma brincadeira envolvendo coisas de grande importância às vezes não tem graça.

- Coisas de grande importância serão sempre tratadas com grande importância. Mas uma criada, na noite, com um homem, não tem importância.

- Não a considero sem importância.

- Agradeço-lhe. Digo o mesmo. Mas uma criada, à noite, com um homem, é assunto privado e sem importância. É um presente dela a ele e, algumas vezes, dele a ela. Nada mais.

- Nunca?

- Às vezes. Mas este assunto de "travesseiro" em particular não tem a vasta seriedade que o senhor lhe atribui.