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- Nunca?

- Apenas quando a mulher e o homem se unem contra a lei. Neste país.

Ele se conteve, finalmente compreendendo a razão por que ela negava.

- Peço desculpas. Sim, a senhora tem razão e eu estou muito enganado. Nunca deveria ter falado. Desculpe-me.

- Por que se desculpar? Por quê? Diga-me, Anjin-san, essa garota usava um crucifixo?

- Não.

- Eu sempre uso. Sempre.

- Um crucifixo pode ser tirado - disse ele automaticamente em português. - Isso não prova nada. Podia ser emprestado, como um perfume.

- Diga-me uma última verdade: o senhor realmente viu a garota? Realmente a viu?

- Naturalmente. Por favor, vamos esquecer que...

- A noite estava muito escura, a lua nublada. Por favor, a verdade, Anjin-san. Pense! O senhor realmente viu a garota?

Claro que a vi, pensou ele indignado.

Maldição, pense direito. Você não a viu. A sua cabeça estava enevoada. Podia ter sido a criada, mas você achou que era Mariko porque desejava Mariko e na sua cabeça viu apenas Mariko, acreditando que Mariko o desejaria igualmente. Você é um imbecil. Um maldito imbecil.

- Na verdade, não. Na verdade eu devo realmente pedir desculpas - disse ele. - Como me desculpar?

- Não há necessidade de se desculpar, Anjin-san - retrucou ela, calmamente. - Já lhe disse muitas vezes que um homem nunca se desculpa, mesmo quando está errado. - Os olhos dela o arreliavam agora. - Minha criada não necessita de desculpas.

- Obrigado - disse ele, rindo. - A senhora me fez sentir como um tolo.

- Os anos desaparecem do senhor, quando ri. O tão sério Anjin-san torna-se um menino de novo.

- Meu pai dizia que eu nasci velho.

- É mesmo?

- Ele achava que sim.

- Como é ele?

- Era um excelente homem. Um armador, um capitão. Os espanhóis o mataram num lugar chamado Antuérpia, quando passaram essa cidade pela espada. Queimaram-lhe o navio. Eu tinha seis anos, mas lembro dele como um homem grande, alto, de boa índole, com cabelo dourado. Meu irmão mais velho, Arthur, tinha só oito anos... Tivemos maus momentos, Mariko-san.

- Por quê? Por favor, conte-me. Por favor!

- É tudo muito banal. Cada centavo estava empatado no navio, que se perdeu ... e, bem, não muito tempo depois disso, minha irmã morreu. Morreu de fome, realmente. Houve carestia em 71, e praga, novamente.

- Temos praga às vezes. Varíola. Vocês eram muitos na sua família?

- Três - disse ele, contente por conversar para afastar a outra mágoa. - Willia, minha irmã, tinha nove anos quando morreu. Arthur foi o próximo. Queria ser artista, escultor, mas teve que se tornar aprendiz de pedreiro para ajudar a nos sustentar. Foi morto na armada. Tinha vinte e cinco anos, o coitado, acabara de se engajar num navio, sem treinamento, que desperdício. Sou o último dos Blackthorne. A mulher e a filha de Arthur vivem com a minha mulher e filhos agora. Minha mãe ainda vive, assim como a minha avó Jacoba - tem setenta e cinco anos e é resistente como um pedaço de carvalho inglês, embora seja irlandesa. Pelo menos estavam vivas quando eu parti, há mais de dois anos.

A dor estava voltando. Pensarei neles quando partir para casa, prometeu ele a si mesmo, mas não antes disso.

- Vai cair uma tempestade amanhã - disse, olhando o mar. - E forte, Mariko-san. Depois, em três dias, teremos tempo bom.

- Esta é a estação dos temporais. O céu fica nublado a maior parte do tempo e carregado de chuva. Quando as chuvas cessam, fica muito úmido. Aí começam os taifuns.

Gostaria de estar ao mar agora, pensava ele. Será que estive ao mar alguma vez? O navio era real? O que é a realidade? Mariko ou a criada?

- O senhor não ri muito, não é, Anjin-san?

- Estive navegando muito tempo. Os marujos são sempre sérios. Aprendemos a observar o mar. Estamos sempre observando e esperando alguma catástrofe. Tire os olhos do mar um segundo e ele agarra o seu navio e o transforma em palitos de fósforo.

- Tenho medo do mar - disse ela.

- Eu também. Um velho pescador me disse um dia: " O homem que não tem medo do mar logo se afogará, porque se porá ao largo num dia em que não deveria. Mas nós temos medo do mar, portanto só naufragamos de vez em quando". - Ele olhou para ela. - Mariko-san ...

- Sim?

- Poucos minutos atrás a senhora me convenceu de que... bem, digamos que fui convencido. Agora não estou. Qual é verdade? A honro. Eu tenho que saber.

- Os ouvidos servem para ouvir. Claro que foi a criada.

- Essa criada. Posso tê-la sempre que quiser?

- Naturalmente. Mas um homem sábio não o faria.

- Porque eu poderia ficar desapontado? Da próxima vez?

- Possivelmente.

- Acho difícil possuir uma criada e perder uma criada, difícil não dizer nada...

- "Travesseiro" é um prazer. Do corpo. Não há nada a ser dito.

- Mas como dizer a uma criada que ela é linda? Que eu a amo? Que ela me encheu de êxtase?

- Não é apropriado "amar" uma criada desse modo. Não aqui, Anjin-san. Essa paixão não é nem para uma esposa ou uma consorte. - Os olhos dela se franziram repentinamente. - Mas apenas para alguém como Kiku-san, cortesã, que é muito bela e merece isso.

- Onde posso encontrar essa garota?

- Na aldeia. Eu ficaria honrada em servir de intermediária.

- Por Cristo, acho que fala a sério.

- Naturalmente. Um homem precisa de paixões de todos os tipos. Essa dárna é digna de romance... se o senhor puder pagar por ela.

- O que quer dizer isso?

- Ela seria muito dispendiosa.

- Não se compra amor. Esse tipo não vale nada. "Amor" não tem preço.

Ela sorriu.

- "Travesseirar" sempre tem preço. Sempre. Não necessariamente dinheiro, Anjin-san. Mas um homem paga, sempre, para "travesseirar", de um modo ou de outro. Ao verdadeiro amor nós chamamos dever, é de alma para alma e não necessita dessa expressão, da expressão física, exceto, talvez, a dádiva da morte.

- Está enganada. Gostaria de poder mostrar-lhe o mundo como ele é.

- Conheço o mundo como é, e como será para sempre. Deseja aquela criada desprezível de novo?

- Sim. A senhora sabe que sim...

Mariko riu alegremente.

- Então ela lhe será enviada. Ao pôr-do-sol. Nós a escoltaremos, Fujiko e eu!

- Maldição! Acho que a senhora faria isso, mesmo! - Ele riu com ela.

- Ah, Anjin-san, é bom vê-lo rir. Desde que voltou para Anjiro, o senhor passou por uma grande mudança. Uma mudança muito grande.

- Não. Não tanto. Mas a noite passada tive um sonho. Esse sonho foi a perfeição.

- Deus é a perfeição. E às vezes o pôr-do-sol, ou o nascer da lua, ou o primeiro açafrão do ano.

- Não a compreendo em absoluto.

Ela passou o véu por sobre o chapéu e olhou diretamente para ele.

- Uma vez outro homem me disse: "Não a compreendo em absoluto", e o meu marido disse: "Perdão, senhor, mas nenhum homem consegue compreendê-la. O pai não a compreende, nem os deuses, nem o Deus bárbaro dela, nem a mãe a compreende".

- Foi Toranaga? O Senhor Toranaga?

- Oh, não, Anjin-san. Foi o taicum. O Senhor Toranaga me compreende. Ele compreende tudo.

- Até a mim?

- Muitíssimo ao senhor.

- Tem certeza disso, não?

- Sim, muita.

- Ele vencerá a guerra?

- Sim.

- Sou o vassalo favorito dele?

- Sim.

- Ele vai aceitar a minha marinha?

- Sim.

- Quando vou reaver o meu navio?

- Não vai.

- Por quê?

A gravidade dela desvaneceu-se.

- Porque o senhor terá a sua "criada" em Anjiro e estará "travesseirando" tanto, que não terá energia para partir, nem de quatro, quando ela lhe implorar que suba a bordo do seu navio, e quando o Senhor Toranaga lhe pedir que suba a bordo e nos deixe a todos!

- Lá vai a senhora de novo! Num momento tão séria, no outro não!

- Isso foi só para responder-lhe, Anjin-san, e para pôr certas coisas nos devidos lugares. Ah, mas antes que o senhor nos deixe, devia ver a Senhora Kiku. Ela é digna de uma grande paixão. É tão linda e talentosa! Para ela o senhor teria que ser extraordinário!