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- Estou tentado a aceitar esse desafio.

- Não desafio ninguém. Mas se o senhor estivesse preparado para ser samurai e não... não fosse estrangeiro... se estivesse preparado para tratar o "travesseiro" pelo que é, então eu ficaria honrada em agir como sua intermediária.

- O que significa isso?

- Quando o senhor estiver de bom humor, quando estiver pronto para diversão muito especial, peça à sua consorte que fale comigo.

- Por que Fujiko-san?

- Porque é dever da sua consorte providenciar para que o senhor seja satisfeito. É costume nosso tornar a vida simples. Admiramos a simplicidade, por isso homens e mulheres podem ver o "travesseiro" pelo que é: uma parte importante da vida, certamente, mas entre um homem e uma mulher há coisas mais essenciais. Humildade, por exemplo. Respeito. Dever. Até esse seu "amor". Fujiko o "ama".

- Não, não ama!

- Ela dará a vida pelo senhor. O que mais há para dar?

Finalmente ele desviou dela os olhos e fitou o mar. As ondas

encapelavam-se na praia à medida que o vento ganhava forças.

Voltou-se para ela. — Então não há nada a dizer? — perguntou.

- Entre nós?

- Nada. Isso é prudente.

- E se eu não concordar?

- O senhor tem que concordar. Está aqui. Este é o seu lar.

Os quinhentos atacantes galoparam através do flanco da colina num grupo desorganizado, desceram para o vale salpicado de pedras, onde os dois mil "defensores" estavam alinhados numa formação de batalha. Cada cavaleiro trazia um mosquete passado às costas e um cinto com cartucheiras para balas, pederneiras e um chifre de pólvora. Como as da maioria dos samurais, suas roupas eram uma heterogênea reunião de quimonos e trapos, mas as armas sempre as melhores que podiam pagar. Apenas Toranaga e Ishido, copiando o primeiro, insistiam em que seus homens se uniformizassem e fossem meticulosos no trajar. Todos os outros consideravam essa extravagância material como um tolo esbanjamento de dinheiro, uma inovação desnecessária. Até Blackthorne concordava com isso. Os exércitos na Europa nunca usavam uniformes - que rei podia se permitir isso, exceto para uma guarda pessoal?

Blackthorne estava em pé numa elevação com Yabu e seus ajudantes, Jozen e todos os seus homens, e Mariko. Aquele era o primeiro ensaio de ataque em larga escala. Ele aguardava inquieto. Yabu estava excepcionalmente tenso, e Omi e Naga estavam suscetíveis quase ao ponto de beligerância. Particularmente Naga.

- O que está acontecendo com todo mundo? - perguntara a Mariko.

- Talvez desejem fazer bonito na frente do seu senhor e do hóspede.

- Ele também é um daimio?

- Não. Mas é importante, é um dos generais do Senhor Ishido. Seria bom se tudo saísse perfeito hoje.

- Gostaria de que me tivessem prevenido de que haveria um ensaio.

- De que teria servido isso? Tudo o que podia fazer, o senhor fez.

Sim, pensou Blackthorne, enquanto olhava os quinhentos. Mas eles ainda estão longe de estarem prontos. Certamente Yabu sabe disso, todo mundo sabe. Portanto, se houver um desastre, bem, será karma, disse ele a si mesmo com mais confiança, e encontrou consolo nesse pensamento.

Os atacantes ganhavam velocidade e os defensores se mantinham à espera sob as bandeiras de seus capitães, escarnecendo do "inimigo' como fariam normalmente, enfileirados numa formação ampla, com uma profundidade de três ou quatro homens. Logo os atacantes desmontariam fora do alcance de uma seta. Depois os guerreiros mais valentes de ambos os lados truculentamente avançariam, arrogantes, para lançar o desafio, proclamando a própria linhagem e superioridade com os insultos óbvios. Teriam início conflitos armados isolados, o número de participantes gradualmente iria aumentando, até que um comandante ordenasse um ataque geral e aí era cada um por si. Normalmente o grupo maior derrotava o menor, depois as reservas eram trazidas e a confusão se repetia até que o moral de um lado arrefecia, e aos poucos covardes que se retiravam logo se unia a maioria, sucedendo-se uma debandada. A traição não era habitual. Algumas vezes regimentos inteiros, seguindo as ordens do amo, trocavam de lado, para serem bem-vindos como aliados - sempre bem-vindos, mas nunca merecedores de confiança. Algumas vezes os comandantes derrotados corriam para se reagruparem a fim de lutar de novo. Algumas vezes ficavam e lutavam até a morte, algumas vezes cometiam seppuku com cerimônia. Raramente eram capturados. Alguns ofereciam seus serviços aos vitoriosos. Algumas vezes isso era aceito, mas na maioria era recusado. A morte era o quinhão dos derrotados, rápida para os bravos e vergonhosa para os covardes. E esse era o padrão histórico de todas as escaramuças no país, mesmo nas grandes batalhas. Os soldados ali eram o mesmo que em qualquer outro lugar, com a diferença de que eram ferozes e havia muitos, muitos mais preparados para morrer pelos respectivos amos do que em qualquer outro lugar na terra.

O tropel dos cascos ecoou no vale.

- Onde está o comandante do ataque? Onde está Omi-san? - perguntou Jozen.

- No meio dos homens, tenha paciência - respondeu Yabu.

- Mas onde está o estandarte dele? E por que não está usando armadura e plumas de combate? Onde está o estandarte do comandante? São exatamente como um bando de bandidos imundos!

- Seja paciente! Todos os oficiais têm ordens de permanecer indistinguíveis. Eu lhe disse. E por favor, não se esqueça de que estamos simulando uma batalha no auge, que isto é parte de uma grande batalha, com reservas e ar...

Jozen explodiu:

- Onde estão as espadas deles? Nenhum está usando espadas! Samurais sem espadas? Seriam massacrados!

- Seja paciente!

Agora os atacantes estavam desmontando. Os primeiros guerreiros avançaram das posições de defesa para mostrar o seu valor. E um número igual de defensores começou a imitá-los. Então, de repente, a canhestra massa de atacantes precipitou-se em cinco falanges cerradas e disciplinadas, cada uma com quatro fileiras de vinte e cinco homens, três falanges à frente e duas na reserva, quarenta passos atrás. Como um todo, investiram contra o inimigo. Atingindo o raio de tiro, detiveram-se com um estremecimento e as fileiras da frente dispararam, em uníssono, uma salva de rebentar os ouvidos. Gritos e homens morrendo. Jozen e seus homens abaixaram-se reflexamente, depois olharam atônitos quando as fileiras da frente se ajoelharam e começaram a recarregar, enquanto as segundas fileiras faziam fogo por cima delas, com as terceiras e quartas fileiras seguindo o mesmo esquema. A cada salva mais defensores caíam, e o vale se encheu de tiros, gritos e confusão.

- O senhor está matando seus próprios homens! - gritou Jozen por sobre o tumulto.

- É munição vazia, não é real. Estão todos representando, mas imagine que se trata de um ataque real, com balas de verdade! Olhe!

Os defensores "recuperaram-se" do choque inicial. Reagruparam-se e fizeram meia-volta para um ataque frontal. Mas a essa altura as fileiras da frente já haviam recarregado e, a uma ordem, dispararam outra salva de uma posição ajoelhada, depois a segunda fila atirou de pé, imediatamente se ajoelhando para recarregar, depois a terceira e a quarta, como antes, e embora muitos mosqueteiros fossem lentos e as fileiras se desordenassem, foi fácil imaginar a terrível dizimação que homens treinados causariam. O contra-ataque falhou, depois se dissolveu, e os defensores se retiraram numa confusão simulada, até a elevação, parando logo abaixo dos observadores. Muitos "mortos" jaziam pelo chão.

Jozen e seus homens estavam abalados.

- Essas armas romperiam qualquer linha!

- Espere. A batalha não terminou!

Novamente os defensores se formaram e agora seus comandantes os exortaram à vitória, convocaram as reservas, e ordenaram o ataque geral final. Os samurais correram colina abaixo, emitindo seus terríveis gritos de batalha, para cair em cima do inimigo.