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- Agora serão esmagados - disse Jozen, envolvido como todos os outros pelo realismo da batalha simulada.

E estava certo. As falanges não resistiram. Romperam-se e dispararam na corrida, sob os gritos de batalha dos samurais autênticos, com espadas e lanças, e Jozen e seus homens uniram seus gritos de escárnio ao alarido quando os regimentos se arremessaram para a matança. Os mosqueteiros corriam como os comedores de alho, cem passos, duzentos passos, trezentos, então, de repente, a uma ordem, as falanges se reagruparam, desta vez numa formação em V. Novamente as salvas ensurdecedoras começaram. O ataque vacilou. Depois parou. Mas os tiros continuaram. Depois também pararam. O jogo terminara. Mas todos na elevação sabiam que em condições reais os dois mil teriam sido massacrados.

Agora, em silêncio, defensores e atacantes começaram a se separar. Os "corpos" se levantaram, armas foram coletadas. Houve risos e gemidos. Muitos homens mancavam e alguns estavam com ferimentos mais graves.

- Cumprimento-o, Yabu-sama! - disse Jozen com grande sinceridade. - Agora compreendo tudo o que o senhor queria dizer!

- O tiroteio estava disperso - disse Yabu, inteiramente encantado. - Vai levar meses para treiná-los.

Jozen balançou a cabeça.

- Eu não gostaria de atacá-los agora. Não se tivessem munição verdadeira. Nenhum exército poderia resistir àquele murro, nenhum alinhamento. As fileiras nunca conseguiriam permanecer fechadas. E então se lançariam tropas comuns e cavalaria através da brecha e se enrolariam os lados como se fosse um velho pergaminho. — Ele agradecia a todos os kamis por ter tido o bom senso de assistir a um ataque. - Foi terrível de assistir. Por um instante pensei que a batalha fosse real.

- Eles receberam ordens de fazer parecer real. E agora o senhor pode revistar os meus mosqueteiros, se desejar.

- Obrigado. Isso seria uma honra.

Os defensores estavam afluindo para os seus acampamentos que se erguiam no flanco da colina oposta. Os quinhentos mosqueteiros esperavam embaixo, perto do caminho que subia pela elevação e descia para a aldeia. Estavam se formando nas suas companhias. Omi e Naga à frente deles, ambos usando espadas de novo.

- Yabu-sama?

- Sim, Anjin-san?

- Bom, não?

- Sim, bom.

- Obrigado, Yabu-sama. Eu satisfaço.

Mariko corrigiu-o automaticamente:

- "Fico satisfeito."

- Ah, desculpe. Fico satisfeito.

Jozen chamou Yabu de lado. - Isso saiu tudo da cabeça do Anjin-san?

- Não - mentiu Yabu. - Mas é o modo como os bárbaros lutam. Ele está só treinando os homens a carregar e atirar.

- Por que não fazer o que Naga-san aconselhou? O senhor tem o conhecimento do bárbaro agora. Por que correr o risco de que isso se espalhe? Ele é uma praga. Muito perigoso, Yabu-sama. Naga-san tinha razão. É verdade: os camponeses poderiam combater deste modo. Facilmente. Livre-se do bárbaro já.

- Se o Senhor Ishido quiser a cabeça dele, só terá que pedir.

- Eu peço. Agora. - Novamente a truculência. - Falo com a voz dele.

- Considerarei isso, Jozen-san.

- E também, em nome dele, peço que se retirem todas as armas daqueles homens imediatamente.

Yabu franziu o cenho, depois voltou a atenção para as companhias. Estavam se aproximando do topo da colina, as fileiras em ordem, disciplinadas, levemente ridículas como sempre, só porque aquela formação não era habitual. A cinqüenta passos de distância, pararam. Omi e Naga avançaram sozinhos e saudaram.

- Estava bem para um primeiro exercício - disse Yabu.

- Obrigado, senhor - respondeu Omi. Coxeava levemente e tinha o rosto sujo, escoriado, marcado de pólvora.

- Suas tropas teriam que portar espadas numa batalha real, Yabu-sama, neh? - disse Jozen. - Um samurai tem que portar espadas. Eventualmente ficariam sem munição, neh?

- As espadas terão o seu papel, no ataque e na retirada. Oh, eles as usarão como sempre para manter a surpresa, mas, logo depois da primeira carga, livram-se delas.

- Samurais sempre precisarão de espadas. Numa batalha real. Ainda assim, estou contente porque não teremos nunca que usar esta força de ataque, ou... - Jozen ia acrescentar "ou esse imundo e traiçoeiro método de guerra". Mas disse: - ...ou teremos todos que abandonar nossas espadas.

- Talvez tenhamos, Jozen-san, quando formos à guerra.

- O senhor renunciaria à sua lâmina Murasama? Ou mesmo ao presente de Toranaga?

- Para vencer uma batalha, sim. De outro modo não.

- Então o senhor talvez tivesse que correr bem depressa para salvar as frutas quando o seu mosquete emperrasse ou a pólvora molhasse. - Jozen riu com o próprio gracejo. Yabu não.

- Omi-san! Mostrê-lhe! - ordenou.

Imediatamente Omi deu uma ordem. Seus homens puxaram a pequena baioneta embainhada que pendia quase despercebida nas costas do cinto de cada um e a enfiaram na cavidade da boca dos mosquetes.

- Atacar!

Imediatamente os samurais investiram com o seu grito de batalha:

- Kasigiiiiii!

A floresta de aço nu parou a um passo deles. Jozen e seus homens riram nervosamente devido à repentina e insuspeita ferocidade.

- Bom, muito bom - disse Jozen. Estendeu a mão e tocou uma baioneta. Era extremamente afiada. - Talvez tenha razão, Yabu-sama. Esperemos que isto não tenha que ser testado.

- Omi-san! - chamou Yabu. - Forme-os. Jozen-san vai revistá-los. Depois voltem para o acampamento. Mariko-san, Anjin-san, sigam-me! - Desceu a passos largos da elevação, por entre as fileiras, seguido dos auxiliares, de Blackthorne e Mariko.

- Formar no caminho. Substituir baionetas!

Metade dos homens obedeceram no mesmo instante, deram meia-volta e desceram a vertente de novo. Naga e seus duzentos e cinqüenta samurais continuaram onde estavam, as baionetas ainda ameaçando.

Jozen indignou-se.

- O que está havendo?

- Considero seus insultos intoleráveis - disse Naga malignamente.

- Isso é absurdo. Não o insultei, nem a ninguém! As suas baionetas é que insultam a minha posição! Yabu-sama!

Yabu voltou-se. Estava agora do outro lado do contingente Toranaga.

- Naga-san - chamou friamente -, o que significa isso?

- Não posso perdoar a esse homem os insultos a meu pai, ou a mim.

- Ele está protegido. Você não pode tocá-lo! Está sob o emblema dos regentes!

- Seu perdão, Yabu-sama, mas isto é entre mim e Jozen-san.

- Não. Você está sob as minhas ordens. Ordeno-lhe que diga aos seus homens que regressem ao acampamento.

Nem um homem se moveu. A chuva começou.

- Seu perdão, Yabu-san, por favor, perdoe-me, mas isto é entre mim e ele, e aconteça o que acontecer, isento-o de toda responsabilidade pelo meu ato e o dos meus homens.

Atrás de Naga, um dos homens de Jozen sacou a espada e avançou para as costas desprotegidas de Naga. Uma saraivada de vinte mosquetes estourou-lhe a cabeça imediatamente. Esses vinte homens se ajoelharam e começaram a recarregar. A segunda fileira preparou-se.

- Quem ordenou munição real? - perguntou Yabu.

- Eu. Eu, Yoshi-noh-Toranaga!

- Naga-san! Ordeno-lhe que deixe Nebara Jozen e seus homens irem-se livremente. Ordeno-lhe que se retire para o seu alojamento até que eu possa consultar o Senhor Toranaga sobre a sua insubordinação!

- Naturalmente o senhor informará o Senhor Toranaga, e karma é karma. Mas lamento, Senhor Yabu, que antes este homem precise morrer. Todos devem morrer. Hoje!

Jozen estremeceu.

- Estou protegido pelos regentes! Você não ganhará nada me matando.

- Recupero minha honra, neh? - disse Naga. – Retribuo-lhe as zombarias a meu pai e seus insultos a mim. Mas o senhor teria que morrer de qualquer maneira, neh? Eu não poderia ter sido mais claro a noite passada. Agora o senhor assistiu a um ataque. Não posso correr o risco de que Ishido tome conhecimento de todo este... - sua mão apontou para o campo de batalha - ... este horror!