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- Ele já sabe! - deixou escapar Jozen, abençoando a própria antevisão da noite precedente. - Ele já sabe! Mandei uma mensagem por pombo secretamente ao amanhecer! Não ganha nada me matando, Naga-san!

Naga fez sinal a um dos seus homens, um velho samurai, que avançou e atirou o pombo estrangulado aos pés de Jozen. Depois a cabeça decepada de um homem também foi atirada ao chão - a cabeça do samurai, Masumoto, enviado na véspera por Jozen com o pergaminho. Os olhos ainda estavam abertos, os lábios repuxados numa careta de ódio. A cabeça começou a rolar. Foi aos trambolhões por entre as fileiras até pousar contra uma rocha.

Um gemido irrompeu dos lábios de Jozen. Naga e todos os seus homens riram. Até Yabu sorriu. Outro dos samurais de Jozen saltou para Naga. Vinte mosquetes espocaram e o homem atrás dele, que não tinha se movido, também caiu em agonia, mortalmente ferido.

O riso cessou.

- Devo ordenar aos meus homens que ataquem, senhor? - perguntou Omi. Fora tão fácil manobrar Naga.

Yabu enxugou a chuva do rosto.

- Não, isso não serviria para nada. Jozen-san e seus homens já estão mortos, não importa o que eu faça. É o karma dele, assim como Naga tem o seu. Naga-san! - bradou ele. - Pela última vez, ordeno-lhe que os deixe partir!

- Por favor, desculpe-me, mas tenho que recusar.

- Muito bem. Quando estiver acabado, apresente-se a mim.

- Sim. Deve haver uma testemunha oficial, Yabu-sama. Para o Senhor Toranaga e para o Senhor Ishido.

- Omi-san, você fica. Assinará o certificado de morte e fará o relatório. Naga-san e eu o rubricaremos.

Naga apontou para Blackthorne.

- Deixe-o ficar também. Igualmente como testemunha. Ele é responsável pela morte deles. Devia testemunhar.

- Anjin-san, suba até aqui! Junto de Naga-san! Compreendeu?

- Sim, Yabu-san. Compreendi, mas por quê, por favor?

- Para ser uma testemunha.

- Desculpe, não compreendi.

- Mariko-san, explique "testemunha" a ele, que ele deve testemunhar o que vai acontecer, depois acompanhe-me. - Ocultando a sua imensa satisfação, Yabu voltou-se e se afastou.

Jozen estremeceu.

- Yabu-san! Por favor! Yabuuuuuusamaaaa!

Blackthorne assentiu. Quando terminou, voltou para casa. Havia silêncio na casa e uma mortalha sobre a aldeia. Um banho não o fez sentir-se limpo. O saquê não lhe tirou o gosto da boca. O incenso não lhe desobstruiu o mau cheiro das narinas.

Mais tarde Yabu mandou buscá-lo. O ataque foi dissecado, momento a momento. Omi e Naga estavam lá, com Mariko - Naga como sempre, frio, ouvindo, raramente comentando, ainda segundo em comando. Nenhum deles parecia tocado pelo que ocorrera.

Trabalharam até depois do pôr-do-sol. Yabu ordenou que o ritmo do treinamento fosse acelerado. Um segundo grupo de quinhentos devia ser formado imediatamente. Dentro de uma semana, outro.

Blackthorne caminhou para casa sozinho, comeu sozinho, acossado pela sua assombrosa descoberta: que eles não tinham sentido de pecado, eram todos sem consciência - até Mariko.

Naquela noite não conseguiu dormir. Saiu de casa, o vento lutando contra ele. Rajadas faziam espumar as ondas. Uma lufada mais forte lançou entulho com estrépito contra uma cabana da aldeia. Cães uivavam para o céu, andando à cata de alimento. Os telhados de palha de arroz moviam-se como coisas vivas. Venezianas batiam com violência e homens e mulheres, espectros silenciosos, esforçavam-se por fechá-las e fixá-las com traves. A maré subia lentamente. Todos os botes de pesca tinham sido puxados para a segurança da praia, muito mais longe do que o habitual. Tudo fora fixado com sarrafos. Ele caminhou pela praia, depois voltou para casa, vergado pela pressão do vento. Não encontrara ninguém. A chuva começou a cair em rajadas e ele logo ficou encharcado.

Fujiko o esperava na varanda, o vento açoitando-a, fazendo pingar a lâmpada de óleo protegida por um anteparo. Estavam todos acordados. Criados carregavam valores para o depósito de pedra no fundo do jardim.

A ventania ainda não era ameaçadora.

Uma telha virou, solta, quando o vento penetrou sob uma aba do telhado, que estremeceu todo. A telha caiu e se espatifou sonoramente. Criados se alvoroçavam ao redor, alguns preparando baldes de água, outros tentando consertar o telhado. O velho jardineiro, Ueki-ya, ajudado por crianças, amarrava os arbustos e as árvores tenros a estacas de bambu.

Outra rajada balançou a casa.

- Vai desabar, Mariko-san.

Ela não disse nada, o vento ferindo-a e a Fujiko, provocando-lhes lágrimas nos cantos dos olhos. Ele olhou para a aldeia. Os detritos estavam sendo atirados por toda parte. Então o vento se introduziu por um rasgão na shoji de papel de uma construção e a parede inteira sumiu, deixando apenas um esqueleto entrelaçado. A parede oposta esfacelou-se e o telhado ruiu.

Blackthorne voltou-se, indefeso, quando uma shoji do seu quarto veio abaixo. Aquela parede desapareceu, e o mesmo aconteceu com a oposta. Logo todas as paredes estavam em tiras. Ele podia ver através da casa toda. Mas os suportes do telhado agüentaram e o telhado não se deslocou. Leitos, lanternas e esteiras estavam sendo arrastados, criados atrás deles.

A tempestade demoliu as paredes de todas as casas da aldeia. E algumas foram-completamente arrasadas. Ninguém se feriu gravemente. Ao amanhecer o vento acalmou e homens e mulheres começaram a reconstruir seus lares.

Pelo meio-dia as paredes da casa de Blackthorne tinham sido refeitas e metade da aldeia estava de volta ao normal. As paredes de treliça leve requeriam pouco trabalho para serem erguidas mais uma vez, apenas cavilhas de madeira e amarras para conexões que eram sempre encaixadas e carpintejadas com grande habilidade. Os telhados de telhas e sapé eram mais difíceis, mas ele viu que as pessoas se ajudavam mutuamente, sorridentes, rápidas e com muita prática. Mura corria pela aldeia, aconselhando, orientando e supervisionando. Subiu a colina para inspecionar os progressos.

- Mura, você fez - Blackthorne procurou as palavras -, você faz a coisa parecer fácil.

- Ah, obrigado, Anjin-san. Sim, obrigado, mas fomos felizes de não ter havido incêndios.

- Vocês incêndios com freqüências?

- Desculpe: "Vocês têm incêndios com freqüência?"

- Vocês têm incêndios com freqüência? - repetiu Blackthorne.

- Sim. Mas eu havia dado ordens para que a aldeia se

preparasse. "Preparasse", o senhor compreende?

- Sim.

- Quando essas tempestades começam... - Mura se retesou e olhou por sobre o ombro de Blackthorne. Sua mesura foi profunda.

Omi estava se aproximando no seu passo gingado, os olhos amistosos apenas em Blackthorne, como se Mura não existisse.

- Bom dia, Anjin-san.

- Bom dia, Omi-san. Sua casa está bem?

- Sim. Obrigado. - Omi olhou para Mura e disse bruscamente: - Os homens deviam estar pescando, ou trabalhando os campos. As mulheres também. Yabu-san quer seus impostos. Estão tentando me envergonhar na frente dele com a sua preguiça?

- Não, Omi-san. Por favor, desculpe-me. Providenciarei imediatamente.

- Não devia ser necessário dizer-lhe. Não lhe direi na próxima vez.

- Peço desculpas pela minha estupidez. - Mura afastou-se às pressas.

- O senhor está bem hoje - disse Omi a Blackthorne.

- Nenhum problema à noite?

- Bem hoje, obrigado. E o senhor?

Omi falou longamente. Blackthorne não assimilou tudo, assim como não compreendera tudo o que Omi dissera a Mura, só algumas palavras aqui, outras ali.

- Desculpe. Não compreendo.

- Gostou? Gostou de ontem? Do ataque? Da batalha simulada?

- Ah, compreendo. Sim, acho bom.

- E o testemunho?

- Por favor?