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- Testemunho! O ronin Nebara Jozen e seus homens? - Omi imitou a estocada de baioneta com uma risada. - O senhor testemunhou a morte deles. Morte! Compreende?

- Ah, sim. A verdade, Omi-san, não gostar matanças.

-. Karma, Anjin-san.

- Karma. Hoje treinamento?

- Sim. Mas Yabu-sama quer conversar apenas. Mais tarde. Compreendeu, Anjin-san? Apenas conversar, mais tarde – Omi repetia pacientemente.

- Conversar apenas. Compreender.

- Está começando a falar a nossa língua muito bem. Sim. Muito bem.

- Obrigado. Difícil. Pequeno tempo.

- Sim. Mas o senhor é um bom homem e tenta arduamente. Isso é importante. Nós lhe daremos tempo, Anjin-san, não se preocupe. Eu o ajudarei. - Omi podia ver que a maior parte do que dizia se perdia, mas não importava, desde que Anjin-san captasse o essencial. - Quero ser seu amigo - disse, e repetiu com toda a clareza. - Compreende?

- Amigo? Eu compreendo "amigo".

Omi apontou para si mesmo, depois para Blackthorne. Quero ser seu amigo.

- Ah! Obrigado. Honrado.

Omi sorriu de novo e curvou-se, de igual para igual, e se afastou.

- Amigo dele? - resmungou Blackthorne. - Será que ele esqueceu? Eu não.

- Ah, Anjin-san - disse Fujiko, correndo na sua direção.

- Gostaria de comer? Yabu-sama vai mandar buscá-lo dentro em breve

- Sim, obrigado. Muitos quebras? - perguntou ele, apontando para a casa.

- Desculpe-me, sinto muito, mas o senhor deve dizer: "Houve muitos danos?"

- Houve muitos danos?

- Nenhum dano real, Anjin-san.

- Ótimo. Não ferimentos?

- Desculpe-me, sinto muito, o senhor deve dizer: "Ninguém se feriu.”

- Obrigado. Ninguém se feriu?

- Não, Anjin-san. Ninguém se feriu.

De repente Blackthorne se cansou de ser continuamente corrigido, então encerrou a conversa com uma ordem.

- Estou fome! Comida!

- Sim, imediatamente. Desculpe, mas o senhor deve dizer: "Estou com fome". Uma pessoa tem fome, mas está com fome, ou faminta. - Esperou até que ele dissesse corretamente, depois se afastou.

Ele se sentou na varanda e observou Ueki-ya, o velho jardineiro, limpando o estrago e as folhas dispersas. Podia ver mulheres e crianças consertando a aldeia, e barcos saindo para o mar encapelado. Gostaria de saber que impostos eles têm que pagar, disse a si mesmo. Eu odiaria ser um camponês aqui. Não só aqui - em qualquer lugar.

À primeira luz ele ficara desolado com a aparente devastação da aldeia.

- Essa tempestade mal tocaria uma casa inglesa - dissera a Mariko. - Oh, foi uma ventania, está certo, mas não foi séria. Por que vocês não constroem com pedra ou tijolos?

- Por causa dos terremotos, Anjin-san. Qualquer construção de pedra naturalmente racharia e desabaria, e provavelmente feriria ou mataria os moradores. Com o nosso estilo de construção, o dano é pequeno. O senhor verá como tudo será rapidamente reconstruído.

- Sim, mas vocês têm riscos de incêndio. E o que acontece quando chegam os Grandes Ventos? Os taifuns?

- Aí é muito mau.

Ela explicara sobre os taifuns e as estações deles - de junho a setembro, às vezes mais cedo, às vezes mais tarde. E sobre as outras catástrofes naturais.

Poucos dias antes tinha havido outro tremor. Fora leve. Uma chaleira caíra do braseiro e o derrubara. Felizmente as brasas tinham sido apagadas. Uma casa na aldeia pegara fogo, mas o incêndio não se alastrara. Blackthorne nunca vira um combate ao fogo tão eficiente. Além disso, ninguém na aldeia prestara muita atenção. Simplesmente riram e continuaram com a vida de todo dia.

- Por que as pessoas riem?

- Consideramos muito vergonhoso e descortês demonstrar sentimentos fortes, particularmente o medo, então ocultamo-los com uma risada ou um sorriso. Claro que ficamos todos com medo, embora não devamos demonstrá-lo.

Alguns de vocês demonstram, pensou Blackthorne.

Nebara Jozen demonstrara. Morrera pessimamente, soluçando de medo, implorando clemência, uma morte lenta e cruel. Deram-lhe permissão para correr, depois fora baionetado cuidadosamente por entre risadas, depois forçado a correr de novo, e novamente paralisado. Em seguida deixaram-no rastejar, depois estriparam-no lentamente, enquanto urrava, o sangue gotejando, e abandonaram-no para morrer.

Em seguida Naga voltara a atenção para os outros samurais. Imediatamente três dos homens de Jozen se ajoelharam, despiram o ventre e sacaram as adagas para cometer o seppuku ritual. Três dos seus companheiros postaram-se atrás deles como assistentes, as espadas compridas desembainhadas e levantadas, nenhum deles molestado por Naga ou seus homens. Quando os samurais ajoelhados estenderam a mão para a faca, os assistentes esticaram-lhes o pescoço e as três espadas faiscaram e os decapitaram com um único golpe. As cabeças rolaram, chocalhando dentes, depois ficaram imóveis. Moscas enxamearam.

Depois dois samurais se ajoelharam, o último homem em pé, pronto para agir como auxiliar. O primeiro ajoelhado foi decapitado à maneira dos companheiros quando se lançou para a faca. O outro disse:

- Não, eu, Hirasaki Kenko, sei como morrer... como um samurai deve morrer.

Kenko era um jovem suave, perfumado e quase bonito, de pele pálida, o cabelo bem oleado e muito arrumado. Pegou a faca reverentemente e envolveu parcialmente a lâmina com o sash para segurá-la melhor.

- Protesto contra a morte de Nebara Jozen-san e destes homens - disse com firmeza, curvando-se para Naga. Deu uma última olhada para o céu e ao auxiliar um último sorriso tranqüilizador. - Sayonara, Tadeo. - Depois enterrou a faca no lado esquerdo do estômago. Com as duas mãos, rasgou de lado a lado, tirou a faca e mergulhou-a mais fundo ainda, bem acima da virilha, e arrancou-a em silêncio. Seus intestinos dilacerados derramaram-se sobre o colo e enquanto seu rosto horrivelmente contorcido, torturado, se lançava para a frente, seu auxiliar desceu a espada num único arco fustigante.

Naga pessoalmente pegou-lhe a cabeça pelo cabelo, limpou a sujeira e fechou-lhe os olhos. Depois disse a seus homens que providenciassem para que a cabeça fosse lavada, embrulhada e enviada a Ishido com honras totais, com um relato completo da bravura de Hirasaki Kenko.

O último samurai se ajoelhou. Não sobrara ninguém para assisti-lo. Também ele era jovem. Seus dedos tremiam e o medo o consumia. Por duas vezes cumprira o seu dever para com os companheiros, por duas vezes cortara imaculadamente, honrosamente, poupando-os da aflição da dor e da vergonha do medo.

E esperara que seu amigo mais caro morresse como um samurai devia morrer, auto-lmolado num silêncio orgulhoso, depois cortara imaculadamente de novo, com perfeita habilidade. Ele nunca matara antes.

Seus olhos focalizaram a sua própria faca. Despiu o estômago e rezou para ter a coragem do amante. Lágrimas afloraram, mas ele pela força de vontade transformou o rosto numa máscara gelada, sorridente. Desatou o sash e envolveu parcialmente a lâmina. Depois, porque o jovem cumprira bem o seu dever, Naga fez um gesto ao seu lugar-tenente.

Esse samurai avançou e se curvou, apresentando-se formalmente.

- Osaragi Nampo, capitão da Nona Legião do Senhor Toranaga. Eu ficaria honrado em agir como seu auxiliar.

- Ikomo Tadeo, primeiro oficial, vassalo do Senhor Ishido - retrucou o jovem. - Obrigado. Eu ficaria honrado em aceitá-lo como meu auxiliar.

Sua morte foi rápida, indolor e honrosa.

As cabeças foram reunidas. Mais tarde Jozen voltou à vida com um estremecimento. Suas mãos frenéticas tentaram em vão fechar o ventre.

Abandonaram-no aos cães que tinham subido da aldeia.

CAPÍTULO 34

À hora do Cavalo, onze horas da manhã, dez dias após a morte de Jozen e de todos os seus homens, um comboio de três galeras contornou o promontório de Anjiro. Estavam apinhadas de soldados. Toranaga desembarcou. A seu lado vinha Buntaro.