- O voto dele destruirá o senhor, ainda assim.
- Desde que haja um conselho.
- Ah, então o senhor tem um plano?
- Sempre tenho um plano - ou planos -, o senhor não sabia? Mas o senhor, qual é o seu aliado? Se desejar partir, parta. Se quiser ficar, fique. Escolha! - Pôs-se em movimento.
Mariko estendeu a Toranaga um pergaminho de caracteres escritos muito juntos.
- Isso é tudo? - perguntou ele.
- Sim, senhor - respondeu ela, não gostando do abafamento da cabina nem de estar a bordo da galera de novo, ainda que atracada ao cais. - Muito do que está no Manual de Guerra será repetido, mas tomei notas todas as noites e escrevi tudo conforme aconteceu - ou tentei fazer isso. É quase como um diário do que foi dito e aconteceu desde que o senhor partiu.
- Ótimo. Alguém mais o leu?
- Não que eu saiba. - Ela usou o leque para se refrescar. - A consorte e os criados do Anjin-san me viram escrevendo, mas mantive o pergaminho fechado a chave.
- Quais são as suas conclusões?
Mariko hesitou. Deu uma olhada na cabina e na vigia fechada.
- Apenas os meus homens estão a bordo - disse Toranaga -, e nenhum nos conveses inferiores. Apenas nós.
- Sim, senhor. Só me lembrei que o Anjin-san disse que não há segredos a bordo de um navio. Desculpe. - Pensou um instante, depois disse confiante: - O Regimento de Mosquetes vencerá uma batalha. Os bárbaros poderiam nos destruir se desembarcassem com armas e canhões. O senhor precisa ter uma marinha bárbara. Nessa medida o conhecimento do Anjin-san foi enormemente valioso para o senhor, razão pela qual devia ser mantido secreto, apenas para os seus ouvidos. Nas mãos erradas esse conhecimento seria mortífero para o senhor.
- Quem compartilha esse conhecimento agora?
- Yabu-san sabe muita coisa, mas Omi-san sabe mais, é ele o mais intuitivo. Igurashi-san, Naga-san, e as tropas. As tropas, naturalmente, compreendem a estratégia, não os detalhes mais sutis, e nada sobre o conhecimento político e genérico do Anjinsan. Eu, mais do que todos. Escrevi tudo o que ele disse, perguntou ou comentou. Da melhor maneira que pude. Claro que ele só nos falou a respeito de certas coisas, mas o alcance dessas coisas é vasto, e a memória, quase perfeita. Com paciência ele pode fornecer-lhe um quadro acurado do mundo, seus costumes e perigos. Se estiver dizendo a verdade.
- Está?
- Acredito que sim.
- Qual é a sua opinião sobre Yabu?
- Yabu-san é um homem violento, totalmente sem escrúpulos. Não honra nada além dos próprios interesses. Dever, lealdade, tradição não significam nada para ele. Sua mente tem repentes de grande astúcia, até brilho. É igualmente perigoso como aliado ou inimigo.
- Tudo isso são virtudes louváveis. O que há para ser dito contra ele?
- É um mau administrador. Seus camponeses se revoltariam se dispusessem de armas.
- Por quê?
- Taxas extorsivas, Taxas ilegais. Ele fica com setenta e cinco partes de cada cem partes de arroz, peixe e toda a produção. Introduziu um imposto por cabeça, imposto pela terra, imposto pelo barco. Cada venda, cada barril de saquê, tudo é taxado em Izu.
- Talvez eu devesse empregá-lo, ou ao seu mestre quarteleiro, para o Kwanto. O que ele faz aqui é problema dele. Seus camponeses nunca obterão armas, portanto não temos nada com que nos preocupar. Eu ainda poderia usar isto como base se fosse necessário.
- Mas, senhor, sessenta partes é o limite legal.
- Era o limite legal. O taicum tornou legal, mas está morto. O que mais sobre Yabu?
- Come pouco, parece ter boa saúde, mas Suwo, o massagista, acha que ele tem problemas de rins. Tem alguns hábitos curiosos.
- Quais?
Ela lhe contou sobre a Noite dos Gritos.
- Quem lhe falou sobre isso?
- Suwo. E a esposa e a mãe de Omi-san.
- O pai de Yabu também costumava cozinhar os inimigos. Perda de tempo. Mas posso compreender essa sua necessidade de fazer isso ocasionalmente. O sobrinho, Omi?
- Muito sagaz. Muito sábio. Totalmente leal ao tio. Um vassalo muito capaz, impressivo.
- A família de Omi?
- A mãe dele é... é adequadamente firme com Midori, a esposa. A esposa é samurai, gentil, forte, e muito boa. São todos vassalos leais de Yabu-san. Atualmente Omi-san não tem consortes, embora Kiku, a mais famosa cortesã de Izu, seja quase como uma consorte. Se ele pudesse comprar o contrato dela, acho que a levaria para a sua casa.
- Ele me ajudaria contra Yabu, se eu quisesse que fizesse isso?
Ela ponderou ,a respeito. Depois meneou a cabeça.
- Não, senhor. Acho que não. Acho que ele é vassalo de seu tio.
- Naga?
- Um samurai tão bom quanto um homem pode ser. Viu imediatamente o perigo de Jozen-san e seus homens contra o senhor, e enfrentou a situação até que o senhor pudesse ser consultado. Embora deteste o Batalhão de Mosquetes, treina arduamente as companhias a fim de torná-las perfeitas.
- Acho que ele foi muito estúpido sendo fantoche de Yabu.
Ela arrumou uma dobra do quimono, sem dizer nada.
Toranaga abanou-se.
- Agora, o Anjin-san?
Ela estivera esperando por essa pergunta e, agora que fora feita, todas as observações inteligentes que ia fazer desapareceram-lhe da cabeça.
- Bem?
- Deve julgar pelo pergaminho, senhor. Em certos aspectos ele é impossível de explicar. Claro, sua educação e herança não têm nada em comum com as nossas. É muito complexo e está além da nossa... além da minha compreensão. Costumava ser muito aberto. Mas, desde que tentou seppuku, mudou. Está mais fechado. - Ela lhe contou o que Omi dissera e fizera naquela primeira noite. E a promessa de Yabu.
- Ah, foi Omi que o deteve, não Yabu-san?
- Sim.
- E Yabu seguiu o conselho de Omi?
- Exatamente, senhor.
- Então Omi é o conselheiro. Interessante. Mas com certeza o Anjin-san não espera que Yabu cumpra a promessa, espera?
- Sim, totalmente.
Toranaga riu.
- Que infantilidade!
- A "consciência" cristã é muito profunda nele, sinto muito. Ele não pode evitar o seu karma, parte do qual é ser ele totalmente governado por esse ódio da morte, ou das mortes, do que ele chama de "inocentes". Até a morte de Jozen afetou-o profundamente. Durante muitas noites seu sono foi perturbado e durante dias mal conversou com pessoa alguma.
- Essa "consciência" se aplicaria a todos os bárbaros?
- Não, embora devesse, a todos os bárbaros cristãos.
- Ele perderá essa "consciência"?
- Penso que não. Mas é tão indefeso quanto uma boneca até que a perca.
- A consorte dele?
Ela lhe contou tudo.
- Ótimo. - Ele ficou satisfeito pela escolha de Fujiko e pelo fato de o seu plano ter funcionado tão bem. - Muito bom.
- Ela agiu muito bem no caso das armas. Que tal os hábitos dele?
- Na maior parte, normais, exceto por um surpreendente constrangimento em relação a assuntos de "travesseiro" e uma curiosa relutância em discutir as funções mais normais. - Ela também descreveu a sua inusitada necessidade de solidão, e seu gosto abominável em se tratando de comida. - Na maioria das outras coisas ele é cortês, razoável, arguto, um aluno competente, e muito curioso a respeito de nós e dos nossos costumes. Consta tudo do meu relatório, mas, numa palavra, expliquei alguma coisa sobre o nosso modo de vida, um pouco sobre nós e a nossa história, sobre o taicum e os problemas que afligem o nosso reino agora.
- Ah, sobre o herdeiro?
- Sim, senhor. Fiz mal?
- Não. Eu lhe disse que o educasse. Como está o japonês dele?
- Muito bom, considerando. Com o tempo ele falará a nossa língua razoavelmente bem. É muito bom aluno, senhor.
- "Travesseiro"?
- Uma das criadas - disse ela imediatamente.
- Ele a escolheu?
- Sua consorte a mandou a ele.
- E?
- Foi mutuamente satisfatório, informaram-me.