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- Ah! Então ela não teve dificuldade.

- Não, senhor.

- Mas ele é proporcional?

- A garota disse: "Oh, sim, muito'. "Pródigo' foi a palavra que ela usou.

- Excelente. Pelo menos nisso o karma dele é bom. Esse é o problema com muitos homens. Yabu, por exemplo, e Kiyama. Lanças pequenas. Uma infelicidade nascer com uma lança pequena. Muita. Sim. - Deu uma olhada no pergaminho, depois fechou o leque com um estalido. - E você, Mariko-san? Como está?

- Bem, obrigada, senhor. Estou muito contente de vê-lo com tão boa aparência. Posso oferecer-lhe meus cumprimentos pelo nascimento de seu neto?

- Sim, obrigado. Sim, estou muito satisfeito. O menino é bem formado e parece saudável.

- E a Senhora Genjiko?

Toranaga grunhiu.

- Forte como sempre. Sim. - Franziu os lábios, meditando um instante. - Talvez você pudesse recomendar uma mãe adotiva para a criança. - Era costume que os filhos de samurais importantes tivessem mães adotivas, a fim de que a mãe natural pudesse atender ao marido e ao funcionamento da casa dele, deixando à mãe adotiva a preocupação com a criação da criança, tornando-a forte e uma honra para os pais. - Receio que não seja fácil encontrar a pessoa certa. A Senhora Genjiko não é a ama mais fácil para quem se trabalhar, neh?

- Estou certa de que o senhor encontrará a pessoa perfeita, senhor. Mas certamente pensarei no assunto - replicou Mariko, sabendo que oferecer tal conselho seria tolice, pois nenhuma mulher nascida poderia satisfazer Toranaga e a nora.

- Obrigado. Mas e você, Mariko-san, como está?

- Bem, senhor, obrigada.

- E a sua consciência cristã?

- Não há conflito, senhor. Nenhum. Fiz tudo o que o senhor desejou. Realmente.

- Algum padre esteve aqui?

- Não, senhor.

- Tem necessidade de um?

- Seria bom me confessar, receber o sacramento e ser abençoada. Sim, sinceramente, eu gostaria disso... confessar as coisas permitidas e ser abençoada.

Toranaga estudou-a atentamente. Os olhos dela eram honestos.

- Agiu bem, Mariko-san. Por favor, continue assim.

- Sim, senhor, obrigada. Uma coisa... o Anjin-san precisa muito de uma gramática e um dicionário.

- Mandei pedir ao Tsukku-san. - Notou o franzir de cenho dela. - Acha que ele não os enviará?

- Ele obedeceria, claro. Talvez não com a velocidade que o senhor gostaria.

- Logo saberei disso - acrescentou Toranaga agourentamente. - Só lhe restam treze dias.

Mariko se espantou.

- Senhor? - perguntou, sem compreender.

- Treze? Ah - disse Toranaga com indiferença, dissimulando o seu lapso momentâneo -, quando estávamos a bordo do navio português, ele pediu permissão para visitar Yedo. Concordei, desde que fosse dentro de quarenta dias. Restam treze. Não foi de quarenta dias o tempo que aquele bonzo, aquele profeta, Moisés, passou na montanha, reunindo os mandamentos do "Deus" que foram gravados em pedra?

- Sim, senhor.

- Você acredita que isso aconteceu?

- Sim. Mas não compreendo como nem por quê.

- É uma perda de tempo discutir coisas de Deus. Neh?

- Se se visa a fatos, sim, senhor.

- Enquanto esperava por esse dicionário, você tentou fazer um?

- Sim, Toranaga-sama. Receio que não seja muito bom. Infelizmente parece haver muito pouco tempo, e muitos problemas. Aqui ... por toda parte - acrescentou ela, intencionalmente.

Ele assentiu, concordando, sabendo que ela gostaria ardentemente de perguntar muitas coisas: sobre o novo conselho, a designação do Senhor Ito, a sentença de Naga, e se a guerra seria imediata.

- Somos afortunados em ter o seu marido de volta, neh?

O leque dela parou.

- Nunca pensei que ele escaparia vivo. Disse uma prece e queimei incenso em memória dele todos os dias. - Buntaro lhe contara naquela manhã como outro contingente de samurais de Toranaga cobrira a sua retirada da praia e como ele atingira os arredores de Osaka sem dificuldade. Depois, com cinqüenta homens escolhidos e cavalos de reserva, disfarçados de bandidos, ele rumara às pressas para as colinas e caminhos secundários numa arremetida impetuosa para Yedo. Por duas vezes seus perseguidores o alcançaram, mas o inimigo não estava em número suficiente para contê-lo e ele conseguiu escapar. Adiante sofreu uma emboscada e perdeu todos os homens, menos quatro, e escapou novamente, aprofundando-se mais na floresta, viajando à noite, dormindo durante o dia. Frutas e água de nascentes, um pouco de arroz apanhado em casas de fazendas solitárias, depois a galope de novo, sempre com caçadores nos calcanhares. Levara vinte dias para chegar a Yedo. Dois homens sobreviveram com ele. - Foi quase um milagre - disse ela. - Pensei estar possuída por um kami quando o vi ao seu lado na praia.

- Ele é inteligente. Muito forte e muito inteligente.

- Posso pedir-lhe notícias do Senhor Hiromatsu, senhor? E de Osaka? A Senhora Kiritsubo e a Senhora Sazuko?

Sem omitir opinião, Toranaga informou que Hiromatsu chegara a Yedo um dia antes de ele partir para Anjiro, embora as duas damas tivessem decidido ficar em Osaka, sendo a saúde da Senhora Sazuko a razão para esse adiamento. Não havia necessidade de elaborar. Tanto ele quanto Mariko sabiam que isso era meramente uma fórmula para poupar a dignidade e que o General Ishido nunca permitiria que duas reféns tão valiosas partissem, agora que Toranaga estava fora do seu alcance.

- Shigata ga nai - disse ele. - Karma, neh? Não há nada que se possa fazer. É karma, não é?

- Sim. - Ele pegou o pergaminho. - Agora devo ler isto. Obrigado, Mariko-san. Agiu muito bem. Por favor, traga o Anjin-san à fortaleza ao amanhecer.

- Senhor, agora que o meu amo está aqui, terei...

- Seu marido já concordou que enquanto eu estiver aqui, você permanece onde está e atua como intérprete. Seu dever primordial é para com o Anjin-san pelos próximos dias.

- Mas, senhor, preciso instalar casa para o meu senhor. Ele necessitará de criados e de uma casa.

- Isso seria um desperdício de dinheiro, tempo e esforço, no momento. Ele ficará com os soldados, ou na casa do Anjin-san, onde lhe apraza. - Notou um lampejo de irritação. - Nan ja?

- Meu lugar deve ser com o meu amo. Para servi-lo.

- O seu lugar é onde eu quero que seja. Neh?

- Sim, por favor, desculpe-me. Naturalmente.

- Naturalmente.

Ela se foi.

Ele leu o pergaminho cuidadosamente. E o Manual de Guerra. Depois releu partes do pergaminho. Guardou-os ambos em segurança, postou guardas à porta da cabina, e subiu ao convés.

Estava amanhecendo. O dia prometia calor e nebulosidade. Ele cancelou o encontro com o Anjin-san, conforme pretendia, e cavalgou para o planalto com cem guardas. Ali reuniu seus falcoeiros e três falcões, e caçou na extensão de vinte ris. Pelo meiodia havia ensacado três faisões, duas grandes galinholas, uma lebre e um par de codornizes. Mandou um faisão e a lebre para o Anjin-san, o resto para a fortaleza. Alguns dos seus samurais não eram budistas e ele lhes tolerava os hábitos alimentares. Quanto a si mesmo, comeu um pouco de arroz frio com uma pasta de peixe, um pouco de alga marinha em conserva com fatias de gengibre. Depois se enrodilhou no chão e dormiu.

A tarde findava e Blackthorne encontrava-se na cozinha, assobiando alegremente. Em torno dele estavam o cozinheiro-chefe, o cozinheiro assistente, o preparador de verduras, o preparador de peixe, e seus assistentes, todos sorridentes, mas interiormente mortificados pelo fato de o amo estar ali na cozinha deles, com a ama, e também porque ela lhes dissera que ele ia honrá-los mostrando-lhes como preparar e cozer ao seu estilo. E por último por causa da lebre.

Ele já havia pendurado o faisão às vigas de um telheiro externo com a cuidadosa instrução de que ninguém, ninguém devia tocá-lo senão ele.