- Eles compreendem, Fujiko-san? Não tocar senão eu? - perguntou ele com uma seriedade zombeteira.
- Oh, sim, Anjin-san. Todos compreenderam. Desculpe-me, mas o senhor deve dizer: "Ninguém deve tocá-lo senão eu".
- Agora - estava ele dizendo, a ninguém em particular -, a delicada arte de cozinhar. Lição número um.
- Dozo gomen nasai? - perguntou Fujiko.
- Miru! Observe.
Sentindo-se jovem de novo - pois um dos seus primeiros biscates fora limpar caça, ele e o irmão, roubada com um risco enorme nas propriedades nos arredores de Chatham -, escolheu uma faca comprida e curva. O sushi-chefe empalideceu. Aquela era a sua faca favorita, com uma ponta especialmente afiada para garantir que as fatias de peixe cru fossem sempre cortadas com perfeição. A equipe toda sabia disso, e todos contiveram o fôlego, sorrindo mais ainda para dissimular o embaraço por ele, enquanto ele aumentava o tamanho do sorriso, para ocultar a própria vergonha.
Blackthorne abriu a barriga da lebre e destramente tirou a bolsa do estômago e as entranhas. Uma das criadas mais jovens teve náuseas e escapou silenciosamente. Fujiko resolveu multá-la com o salário de um mês, desejando ao mesmo tempo também poder ser uma camponesa e sumir com honra.
Eles olharam petrificados quando ele cortou as patas, depois empurrou as pernas dianteiras para dentro, a fim de soltar a pele. Fez o mesmo com as pernas traseiras e cortou a pele em círculo para puxá-las pela abertura do ventre; depois, com um puxão hábil, abriu o couro acima da cabeça como se fosse um casaco de inverno sendo tirado. Estendeu o animal quase pelado sobre o cepo, e decapitou-o deixando a cabeça com os olhos fixos, patéticos, ainda ligada ao couro. Virou a pele do lado certo de novo e colocou-a de lado. Um suspiro percorreu a cozinha. Ele não o ouviu, concentrado em cortar as pernas nas juntas e retalhar a carcaça. Outra criada sumiu despercebida.
- Agora quero uma panela - disse Blackthorne, com um sorriso amável.
Ninguém lhe respondeu. Simplesmente olhavam com os mesmos sorrisos fixos. Ele viu um grande caldeirão de ferro, imaculado. Pegou-o com as mãos ensangüentadas e encheu-o de água num recipiente de madeira, depois pendurou-o sobre o braseiro, armado no chão de terra, num poço cercado de pedras. Acrescentou os pedaços de carne.
- Agora alguns vegetais e especiarias - disse ele.
- Dozo? - perguntou Fujiko, guturalmente.
Ele não sabia as palavras japonesas, por isso olhou em torno. Havia algumas cenouras e algumas raizes que pareciam nabos num cesto de madeira. Limpou-as, cortou-as em fatias e juntou-as à sopa com sal e um pouco do escuro molho de soja.
- Devíamos ter algumas cebolas, alho e vinho do Porto.
- Dozo? - perguntou Fujiko de novo, infeliz.
- Kotaba shirimasen. Não sei as palavras.
Ela não o corrigiu, simplesmente pegou uma colher e ofereceu-lhe. Ele balançou a cabeça.
- Saquê - ordenou. O cozinheiro assistente voltou à vida num sobressalto e deu-lhe o pequeno barril de madeira.
- Domo. - Blackthorne verteu um cálice no caldeirão, depois mais um, para uma boa medida. Ele teria bebido um pouco do barril, mas sabia que seria falta de educação bebê-lo frio e sem cerimônia, e certamente ali na cozinha.
- Jesus Cristo, eu adoraria uma cerveja - disse ele.
- Dozo gozientashita, Anjin-san?
- Kotaba shirimasen, mas este cozido vai ficar excelente. Ichi-ban, neh? - Apontou para o caldeirão que chiava.
- Hai - disse ela, sem convicção.
- Okuru tsukai arigato Toranaga-sama - disse Blackthorne.
- Mande um mensageiro para agradecer ao Senhor Toranaga. - Ninguém lhe corrigiu o mau japonês.
- Hai.
Uma vez fora da cozinha, Fujiko correu para a latrina, a pequena cabana que se erguia em esplendor solitário perto da porta principal, no jardim. Estava muito enjoada.
- Está se sentindo bem, ama? - perguntou a criada, Nigatsu. Era de meia-ldade, rechonchuda, e cuidara de Fujiko a vida toda.
- Vá embora! Mas antes traga um pouco de chá. Não. Você teria que entrar na cozinha... oh, oh, oh!
- Tenho chá aqui, ama. Pensamos que a senhora precisaria de um pouco de chá, então fervemos a água em outro braseiro. Aqui está!
- Oh, você é tão inteligente! - Fujiko beliscou afetuosamente a bochecha redonda de Nigatsu, enquanto outra criada vinha abaná-la. Enxugou a boca na toalha de papel e sentou-se, agradecida, sobre almofadas na varanda. - Oh, assim é melhor!
- E era melhor ao ar livre, à sombra, o bom sol da tarde lançando sombras escuras, borboletas alimentando-se, o mar lá embaixo, calmo e iridescente.
- O que está acontecendo, ama? Não ousamos nem espiar.
- Não tem importância. O amo... o amo... nao importa. Os costumes dele são esquisitos, mas esse é o nosso karma.
Desviou o olhar quando viu o seu cozinheiro-chefe, que vinha untuosamente pelo jardim, e sentiu o coração afundar mais um pouco.
Ele se curvou formalmente, um homenzinho teso, magro, de pés grandes e dentes muito salientes. Antes que pudesse proferir uma palavra, Fujiko disse com um sorriso insípido:
- Encomende facas novas na aldeia. Um novo caldeirão de cozinhar arroz. Um cepo novo, novos recipientes de água - todos os utensílios que achar necessários. Esses que o amo usou devem ser conservados para sua finalidade particular. Você reservará uma área especial, construirá outra cozinha se quiser, onde o amo possa cozinhar, se desejar - até que você seja eficiente.
- Obrigado, Fujiko-sama - disse o cozinheiro. - Desculpe-me por interrompê-la, mas, sinto muito, por favor, desculpeme, conheço um excelente cozinheiro na aldeia vizinha. Não é budista e até esteve na Coréia com o Exército, por isso aprendeu tudo sobre o... como... cozinhar para o amo muito melhor do que eu.
- Quando eu quiser outro cozinheiro, eu lhe direi. Quando o considerar inapto ou fingindo-se de doente, eu lhe direi. Até lá você será o cozinheiro-chefe aqui. Aceitou o posto por seis meses - disse ela.
- Sim, ama - disse o cozinheiro com dignidade exterior, mas tremendo por dentro, pois Fujiko-noh-Anjin não era ama para brincadeira. - Por favor, desculpe-me, mas fui contratado para cozinhar. Tenho orgulho em cozinhar. Mas nunca aceitei ser... ser açougueiro. Os etas são açougueiros. Claro que não podemos ter um eta aqui, mas esse outro cozinheiro não é budista como eu, como meu pai, o pai dele, e o pai do pai dele, ama, e eles nunca, nunca... Por favor, esse novo cozinheiro...
- Você cozinhará aqui como sempre fez. Acho a sua comida excelente, digna de um mestre-cuca de Yedo. Até mandei uma das suas receitas para a Senhora Kiritsubo, em Osaka.
- Oh? Obrigado. Faz-me muita honra. Qual, ama?
- A das enguias frescas, minúsculas, e medusa e ostras em fatias, com apenas o toque exato de soja, que você faz tão bem. Excelente! A melhor que já comi.
- Oh, obrigado, ama - rebaixou-se ele.
- Claro que as suas sopas deixam muito a desejar.
- Oh, sinto muito!
- Discutirei isso com você mais tarde. Obrigada, cozinheiro - disse ela, ensaiando uma dispensa.
O homenzinho permaneceu no lugar resolutamente.
- Por favor, desculpe-me, ama, mas oh ko, com completa humildade, se o amo... quando o amo ...
- Quando o amo lhe disser que cozinhe ou abata animais ou seja o que for, você fará isso correndo. Imediatamente. Como qualquer criado leal faria. Mas como pode levar muito tempo para você se tornar eficiente, então, talvez, seja melhor que você faça acertos provisórios com esse outro cozinheiro, para que o visite nos raros dias em que o amo possa querer comer à sua própria maneira.
A honra satisfeita, o cozinheiro sorriu e curvou-se.
- Obrigado. Por favor, desculpe-me por pedir esclarecimento.