- Naturalmente você pagará ao cozinheiro substituto do seu próprio salário.
Quando ficaram sozinhas de novo, Nigatsu casquinou por trás da mão: - Oh, Ama-chan, posso cumprimentá-la pela sua vitória total e pela sua sabedoria? O cozinheiro-chefe quase soltou gases quando a senhora disse que ele também teria que pagar!
- Obrigada, Nanny-san. - Fujiko podia sentir o aroma da lebre começando a cozinhar. E se ele me pedir que coma com ele? estava pensando ela, e quase perdeu as forças. Mesmo que não peça, terei que servir. Como posso evitar de ficar nauseada? Você não vai ficar com náuseas, ordenou-se ela. É o seu karma. Você deve ter sido absolutamente terrível na sua vida anterior. Sim. Mas lembre-se de que tudo está excelente agora. Só mais cinco meses e seis dias. Não pense nisso, pense apenas no seu amo, que é um homem bravo e forte, embora tenha horríveis hábitos alimentares...
Cavalos subiram com estrépito até o portão. Buntaro desmontou e afastou o resto dos seus homens com um gesto. Depois, acompanhado apenas do seu guarda pessoal, avançou a passos largos pelo jardim, empoeirado e sujo de suor. Carregava o seu arco imenso e, às costas, a aljava. Fujiko e a criada curvaram-se cordialmente, detestando-o. O tio era famoso pelas fúrias selvagens, incontroláveis, que o faziam investir violentamente sem prevenir ou provocar disputas com praticamente qualquer pessoa. A maior parte do tempo apenas os seus criados sofriam, ou as suas mulheres.
- Por favor, entre, Tio. Que gentileza de sua parte visitar-nos tão cedo - disse Fujiko.
- Ah, Fujiko-san. Você... Que fedor é esse?
- Meu amo está cozinhando a caça que o Senhor Toranaga lhe enviou... está mostrando aos meus miseráveis criados como cozinhar.
- Se ele quer cozinhar, suponho que possa, embora... - Buntaro franziu o nariz com desagrado. - Sim, um amo pode fazer qualquer coisa na sua própria casa, dentro da lei, desde que não perturbe os vizinhos.
Legalmente um cheiro como aquele poderia ser causa de reclamação, e seria péssimo incomodar os vizinhos. Os inferiores nunca faziam nada que pudesse perturbar os superiores. Senão cabeças rolavam. Era por isso que, em todo o país, os samurais cautelosa e cortesmente viviam perto de samurais, do mesmo nível se possível, camponeses ao lado de camponeses, mercadores nas suas ruas, e etas isolados fora. Omi era o vizinho imediato deles. Ele é superior, pensou ela.
- Espero sinceramente que ninguém seja perturbado - disse ela a Buntaro, inquieta, perguntando-se que nova maldade estaria ele tramando. - O senhor queria ver o meu amo? - Começou a se levantar, mas ele a deteve.
- Não, por favor, não se incomode, esperarei - disse ele formalmente, e o coração dela quase parou. Buntaro não era conhecido pela boa educação, e polidez vinda dele era coisa muito perigosa. - Peço desculpas por chegar assim, sem enviar antes um mensageiro para solicitar uma entrevista - estava ele dizendo -, mas o Senhor Toranaga me disse que eu poderia, talvez, ser autorizado a usar o banho e me alojar aqui. De vez em quando. Você perguntaria ao Anjin-san, mais tarde, se ele daria permissão?
- Naturalmente - disse ela, dando continuidade ao padrão usual de etiqueta, embora a idéia de ter Buntaro na sua casa lhe repugnasse. - Estou certa que ele ficará honrado, Tio. Posso oferecer-lhe chá ou saquê, enquanto espera?
- Saquê, obrigado.
Nigatsu rapidamente colocou uma almofada na varanda e disparou em busca do saquê, por mais vontade de ficar que tivesse.
Buntaro estendeu o arco e a aljava ao guarda, descalçou as sandálias empoeiradas, e subiu à varanda pisando duro. Tirou a espada mortífera do sash, sentou-se de pernas cruzadas, e pousou a espada sobre os joelhos.
- Onde está minha esposa? Com o Anjin-san?
- Não, Buntaro-sama, sinto muito, ela recebeu ordem de ir à fortaleza, onde ...
- Ordem? De quem? De Kasigi Yabu?
- Oh, não, do Senhor Toranaga, senhor, quando ele voltou da caçada esta tarde.
- Oh, o Senhor Toranaga? - Buntaro acalmou-se e contemplou carrancudo a fortaleza do outro lado da baía. O estandarte de Toranaga tremulava ao lado do de Yabu.
- Gostaria que eu mandasse alguém buscá-la?
Ele balançou a cabeça.
- Há bastante tempo para ela. - Suspirou, olhou de viés para a sobrinha, filha da sua irmã mais nova. - Sou feliz por ter uma esposa tão completa, neh?
- Sim, senhor. É sim. Ela foi enormemente valiosa para interpretar o conhecimento do Anjin-san.
Buntaro olhou fixamente para a fortaleza, depois farejou o vento quando o cheiro do cozido chegou numa nova lufada.
- É como estar em Nagasaki, ou de volta à Coréia. Preparam carne o tempo todo, cozida ou assada. Fede... você nunca cheirou nada parecido. Os coreanos são animais, como canibais. O fedor do alho entra até na roupa e no cabelo da gente.
- Deve ter sido terrível.
- A guerra foi boa. Poderíamos ter vencido facilmente. E assolado a China. E civilizado ambos os países. - Buntaro avermelhou-se e sua voz soou estridente. - Mas não vencemos. Fracassamos e tivemos que regressar com a nossa vergonha porque fomos traídos. Traídos por traidores imundos, altamente colocados.
- Sim, isso é muito triste, mas o senhor tem razão. Toda a razão, Buntaro-sama - disse ela apaziguadora, dizendo facilmente a mentira, sabendo que nenhuma nação do mundo poderia conquistar a China, e ninguém poderia civilizar a China, que estava civilizada desde tempos imemoriais.
A veia da testa de Buntaro latejava e ele falava quase que para si mesmo.
- Eles pagarão. Todos eles. Os traidores. É apenas uma questão de esperar junto a um rio o tempo suficiente para que os corpos dos seus inimigos passem boiando, neh? Esperarei e cuspirei na cabeça deles em breve, muito em breve. Prometi isso a mim mesmo. - Olhou para ela. - Odeio traidores e adúlteros. E todos os mentirosos!
- Sim, concordo. O senhor tem toda a razão, Buntaro-sama - disse ela, com um calafrio, sabendo que não havia limite para a ferocidade dele. Quando Buntaro tinha dezesseis anos, executara a própria mãe, uma das consortes inferiores de Hiromatsu, pela sua suposta infidelidade enquanto o pai, Hiromatsu, estava na guerra, lutando pelo ditador, o Senhor Goroda. Depois, anos mais tarde, matara o filho mais velho, tido com a primeira esposa, por supostos insultos, e mandara a esposa de volta para a família, onde ela morrera pela própria mão, incapaz de suportar a vergonha. Ele fizera coisas terríveis às consortes e a Mariko. E discutira violentamente com o pai de Fujiko e o acusara de covardia na Coréia, desacreditando-o junto ao taicum, que imediatamente lhe ordenara que raspasse a cabeça e se tornasse monge, para morrer em devassidão, logo depois, consumido pela própria vergonha.
Fujiko precisou de toda a força de vontade para aparentar tranqüilidade.
- Ficamos muito orgulhosos de ouvir que o senhor havia escapado ao inimigo.
O saquê chegou. Buntaro começou a beber pesadamente.
Depois de passado o tempo correto de espera, Fujiko levantou-se.
- Por favor, desculpe-me um instante. - Dirigiu-se a cozinha para prevenir Blackthorne, pedir-lhe permissão para que Buntaro se alojasse na casa, e dizer a ele e aos criados o que devia ser feito.
- Por que aqui? - perguntou Blackthorne irritado. - Por que ficar aqui? É necessário?
Fujiko desculpou-se e tentou explicar que, naturalmente, Buntaro não podia ser recusado. Blackthorne voltou taciturno ao seu cozido e ela retornou à varanda, a Buntaro, com o peito doendo.
- Meu amo diz que fica honrado em tê-lo aqui. A casa dele é a sua casa.
- Como é ser consorte de um bárbaro?
- Eu imaginei que seria horrível. Mas do Anjin-san, que é hatamoto e portanto samurai? Suponho que seja como com outros homens. Esta é a primeira vez que sou consorte. Prefiro ser esposa. O Anjin-san é como os outros homens, embora, sim, alguns dos seus modos sejam muito estranhos.
- Quem teria pensado que uma mulher da nossa casa seria consorte de um bárbaro, mesmo hatamoto?