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- Não tive escolha. Simplesmente obedeci ao Senhor Toranaga, e ao avô, o líder do nosso clã. É a posição da mulher, obedecer.

- Sim. - Buntaro esvaziou o cálice de saquê e ela tornou a enchê-lo. - Obediência é importante numa mulher. Mariko-san é obediente, não é?

- Sim, senhor. - Ela olhou-lhe o rosto feio, de gorila. - Ela só lhe trouxe honra, senhor. Sem a senhora sua esposa, o Senhor Toranaga nunca poderia ter obtido o conhecimento do Anjin-san.

Ele sorriu falsamente.

- Ouvi dizer que você apontou as pistolas na cara de Omi-san.

- Eu estava apenas cumprindo o meu dever, senhor.

- Onde aprendeu a usar armas?

- Eu nunca havia empunhado uma arma até então. Não sabia se as pistolas estavam carregadas. Mas teria puxado os gatilhos.

Buntaro riu.

- Omi-san também achou isso.

Ela tornou a encher o cálice.

- Nunca compreendi por que Omi-san não tentou tomá-las de mim. O seu senhor ordenara que as tirasse, mas ele não o fez.

- Eu teria feito.

- Sim, Tio, eu sei. Por favor, desculpe-me, mas ainda assim eu teria puxado os gatilhos.

- Sim. Mas teria errado!

- Sim, provavelmente. Depois daquilo aprendi a atirar.

- Ele a ensinou?

- Não. Foi um dos oficiais do Senhor Naga.

- Por quê?

- Meu pai nunca permitiu que suas filhas aprendessem a manejar espada e lança. Achava, sabiamente, acredito, que devíamos dedicar o nosso tempo a aprender coisas mais delicadas. Mas às vezes uma mulher precisa proteger seu amo e sua casa. A pistola é uma boa arma para uma mulher, muito boa. Não requer força nem muita prática. Então, agora, eu talvez possa ser um pouco mais de utilidade para o meu amo, pois eu certamente estourarei a cabeça de qualquer homem para protegê-lo, e pela honra da nossa casa.

Buntaro esvaziou o cálice.

- Fiquei orgulhoso quando ouvi que você enfrentou Omi-san. Agiu corretamente. O Senhor Hiromatsu ficará igualmente orgulhoso.

- Obrigada, Tio. Mas eu apenas cumpri um dever comum. - Curvou-se formalmente. - Meu amo pergunta se o senhor lhe concederia a honra de conversar agora, se lhe aprouver.

Ele continuou com o ritual.

- Por favor, agradeça-lhe, mas primeiro posso me banhar? Se aprouver a ele, vê-lo-ei quando a minha esposa voltar.

CAPÍTULO 35

Blackthorne esperava no jardim. Agora usava o quimono marrom que Toranaga lhe dera, com espadas ao sash e uma pistola carregada, escondida também sob o sash. Através das apressadas explicações de Fujiko e subseqüentemente pelos criados, aprendera que tinha que receber Buntaro formalmente, porque o samurai era um importante general e hatamoto, e era o primeiro hóspede na sua casa. De modo que tomara um banho e trocara de roupa rapidamente e se dirigira ao local que fora preparado.

Vira brevemente Buntaro na véspera, quando ele chegou. Buntaro estivera ocupado com Toranaga e Yabu o resto do dia, junto com Mariko, e Blackthorne fora deixado sozinho para organizar às pressas a demonstração de ataque com Omi e Naga. O ataque fora satisfatório.

Mariko voltara para casa muito tarde. Contara-lhe rapidamente sobre a escapada de Buntaro, os dias que passara sendo caçado pelos homens de Ishido, esquivando-se, e finalmente atravessando as províncias hostis para atingir o Kwanto.

- Foi muito difícil, mas talvez não demais, Anjin-san. Meu marido é muito forte e muito corajoso.

- O que vai acontecer agora? A senhora vai partir?

- O Senhor Toranaga ordenou que tudo permaneça como estava. Nada deve ser mudado.

- A senhora mudou, Mariko. Perdeu uma centelha.

- Não. Isso é imaginação sua, Anjin-san. É apenas o meu alívio por ele estar vivo, quando eu estava certa de que ele morrera.

- Sim. Mas fez uma diferença, não fez?

- Claro. Agradeço a Deus por meu arpo não ter sido capturado, por ter vivido para obedecer ao Senhor Toranaga. O senhor me desculpará, Anjin-san, estou cansada agora. Sinto muito, estou muito, muito cansada.

- Há alguma coisa que eu possa fazer?

- O que deveria fazer, Anjin-san? Além de estar feliz por mim e por ele? Nada mudou, realmente. Nada terminou porque nada começou. Tudo está como estava. Meu marido está vivo.

Você não gostaria que ele estivesse morto? perguntou-se Blackthorne ali no jardim. Não.

Então por que a pistola escondida? Você está com sensação de culpa?

Não. Nada começou.

Não mesmo?

Não.

Você pensou que estava com ela. Não é o mesmo que ter estado de fato com ela?

Viu Mariko sair da casa e dirigir-se para o jardim. Parecia uma miniatura de porcelana seguindo meio passo atrás de Buntaro, cuja corpulência parecia ainda maior em comparação. Fujiko vinha com ela, assim como as criadas. Ele se curvou.

- Yokoso oide kudasareta, Buntaro-san. Bem-vindo à minha casa.

Todos se curvaram. Buntaro e Mariko se sentaram sobre as almofadas à sua frente, Fujiko atrás. Nigatsu e a criada, Koi, começaram a servir chá e saquê. Buntaro tomou saquê. Blackthorne fez o mesmo.

- Domo, Anjin-san. lkaga desu ka?

- li. Ikaga desu ka?

- li. Kowa jozuni shabereru yoni natta na. Ótimo. O senhor está começando a falar japonês muito bem.

Logo Blackthorne se perdeu na conversa, pois Buntaro engolia as palavras, falando rápida e descuidadamente.

- Desculpe, Mariko-san, não compreendi isso.

- Meu marido deseja agradecer-lhe por ter tentado salvá-lo. Com o remo. Lembra-se? Quando estávamos escapando de Osaka.

- Ah, so desu! Domo. Por favor, diga-lhe que ainda acho que devíamos ter voltado à praia. Havia tempo suficiente. A criada afogou-se desnecessariamente.

- Ele diz que foi karma.

- Foi uma morte desperdiçada - replicou Blackthorne, e lamentou a rudeza. Notou que ela não traduziu.

- Meu marido diz que a estratégia de ataque é muito boa, muito boa mesmo.

- Domo. Diga-lhe que estou contente por ele ter escapado ileso. E que seja ele quem vai comandar o regimento. E, naturalmente, que ele é bem-vindo se quiser ficar aqui.

- Domo, Anjin-san. Buntaro diz que o plano de assalto é muito bom. Mas quanto a ele, sempre carregará seu arco e espadas. Pode matar a uma distância muito maior, com grande precisão, e mais rápido do que um mosquete.

- Amanhã atiraremos juntos e veremos, se ele quiser.

- O senhor perderá, Anjin-san, sinto muito. Posso preveni-lo para não fazer isso? - disse ela.

Blackthorne viu os olhos de Buntaro esvoaçarem de Mariko para ele e voltar para ela.

- Obrigado, Mariko-san. Diga-lhe que eu gostaria de vê-lo atirar.

- Ele pergunta se o senhor sabe usar um arco.

- Sim, mas não como um arqueiro adequado. Os arcos estão completamente fora de uso entre nós. Exceto a besta. Fui treinado para o mar. Lá usamos apenas canhões, mosquetes, ou alfanjes. Algumas vezes usamos setas incendiárias, mas apenas contra as velas do inimigo, e bem de perto.

- Ele pergunta como são usadas, como são feitas, essas setas incendiárias. São diferentes das nossas, como as que foram usadas contra a galera, em Osaka?

Blackthorne começou a explicar e houve as fatigantes interrupções habituais e novas perguntas mais minuciosas. A esta altura estava acostumado à mente incrivelmente inquisitiva deles cor: relação a qualquer aspecto da guerra, mas achava exaustivo conversar por meio de um intérprete. Ainda que Mariko fosse excelente, o que ela realmente dizia raramente era exato. Uma longa réplica era sempre encurtada, alguma coisa do que era dito era, naturalmente, ligeiramente alterada, e ocorriam mal-entendidos. Então as explicações tinham que ser repetidas desnecessariamente.

Mas sem Mariko ele sabia que jamais poderia ter-se tornado tão valioso. É apenas o conhecimento que me mantém longe do abismo, lembrou-se ele. Mas isso não é problema, pois ainda há muito a contar e uma batalha a vencer. Uma autêntica batalha a vencer. Você estará seguro até lá. Você tem uma marinha para planejar. E depois, para casa. Ileso.