Viu as espadas de Buntaro, as espadas do guarda, sentiu as suas e o calor da pistola, e soube, verdadeiramente, que nunca estaria seguro naquela terra. Nem ele nem qualquer outra pessoa, nem mesmo Toranaga.
- Anjin-san, Buntaro-sama pergunta se, mandando-lhe alguns homens amanhã, o senhor poderia mostrar-lhes como fazer essas setas.
- Onde podemos conseguir alcatrão?
- Não sei. - Mariko interrogou-o sobre onde era geralmente encontrado, qual era a aparência, o cheiro, e possíveis alternativas. Depois falou a Buntaro longamente. Fujiko estivera silenciosa o tempo todo, os olhos e os ouvidos treinados, não perdendo nada. As criadas, bem comandadas por um leve movimento do seu leque em direção a um cálice vazio, constantemente enchiam de novo os frascos de saquê.
- Meu marido diz que discutirá isso com o Senhor Toranaga. Talvez exista alcatrão em algum lugar no Kwanto. Nunca ouvimos falar nisso antes. Se não for alcatrão, temos óleo de baleia, que talvez substitua. Ele pergunta se no seu país usam rojões de combate, como os chineses.
- Sim. Mas não são considerados de muito valor, exceto em cercos. Os turcos usaram-nos quando atacaram os cavaleiros de São João, em Malta. Os rojões são usados, na maior parte, para causar incêndios e pânico.
- Ele pede, por favor, que o senhor dê detalhes sobre essa batalha.
- Foi há quarenta anos, na maior... - Blackthorne parou, a mente disparando. Fora o assédio mais vital da Europa. Sessenta mil turcos islâmicos, a nata do Império Otomano, atacaram seiscentos cavaleiros, apoiados por uns poucos milhares de auxiliares malteses, encurralados no seu vasto castelo em St. Elmo, na minúscula ilha de Malta, no Mediterrâneo. Os cavaleiros haviam resistido com êxito aos seis meses de cerco e, inacreditavelmente, forçaram o inimigo a se retirar humilhado. Essa vitória salvara toda a costa mediterrânea, e 'assim a cristandade, de ser devastada pelas hordas infiéis.
Blackthorne repentinamente percebera que essa batalha lhe dava uma das chaves para o Castelo de Osaka: como atacá-lo, como acossá-lo, como atravessar os portões, e como conquistá-lo.
- Estava dizendo, senhor?
- Foi há quarenta anos, no maior mar intercontinental que temos na Europa, Mariko-san. O Mediterrâneo. Foi apenas um cerco, como qualquer outro, que não merece que se fale a respeito - mentiu ele. Esse conhecimento era inestimável, certamente não para ser cedido levianamente e não agora, em absoluto. Mariko explicara muitas vezes que o Castelo de Osaka se erguia inexoravelmente entre Toranaga e a vitória. Blackthorne estava certo de que a solução para Osaka poderia muito bem ser o seu passaporte para fora do império, com todas as riquezas de que ele poderia precisar na vida.
Notou que Mariko parecia perturbada.
- Senhora?
- Nada, senhor. - Começou a traduzir o que ele dissera. Mas ele sabia que ela sabia que ele estava ocultando alguma coisa. O cheiro do guisado distraiu-o.
- Fujiko-san!
- Hai, Anjin-san?
- Shokuji wa madaka? Kyaku wa... sazo kufuku de oro, neh? Quando é o jantar? Os convidados podem estar com fome.
- Ah, gomen nasai, hi ga kurete kara ni itashimasu.
Blackthorne viu-a apontar para o sol e entendeu que dissera:
"Depois do pôr-do-sol". Assentiu e grunhiu, o que passava no Japão por um polido "Obrigado, compreendi".
Mariko voltou-se novamente para Blackthorne.
- Meu marido gostaria que o senhor lhe contasse sobre uma batalha em que tenha estado.
- Estão todas no Manual de Guerra, Mariko-san.
- Ele diz que o leu com grande interesse, mas contém apenas breves detalhes. Nos próximos dias ele deseja aprender tudo sobre as suas batalhas. Uma agora, se lhe agradar.
- Estão todas no Manual de Guerra. Talvez amanhã, Mariko-san. - Ele queria tempo para examinar o seu deslumbrante novo pensamento sobre o Castelo de Osaka e aquela batalha, e estava cansado de conversar, cansado de ser interrogado, mas acima de tudo queria comer.
- Por favor, Anjin-san, o senhor contaria novamente, só uma vez, ao meu marido?
Ele ouviu a súplica cuidadosa sob o tom dela, e cedeu.
- Claro. De qual a senhora acha que ele gostaria?
- A batalha da Neerlândia. "Neerlândia", é assim que se pronuncia?
- Sim - disse ele.
Então ele começou a contar a história dessa batalha que era como quase todas as outras batalhas onde morriam homens, na maior parte das vezes por causa dos erros e da estupidez dos oficiais no comando.
- Meu marido diz que aqui não é assim, Anjin-san. Aqui os oficiais no comando têm que ser muito bons, ou morrem rapidamente.
- Naturalmente a minha crítica se aplicava apenas aos líderes ingleses.
- Buntaro-sama diz que lhe falará sobre as nossas guerras e os nossos líderes, particularmente do taicum, nos próximos dias. Uma troca justa pelas suas informações - disse ela, impassível.
- Domo. - Blackthorne curvou-se ligeiramente, sentindo os olhos de Buntaro cravados nele.
O que é que você realmente quer de mim, seu filho da puta?
O jantar foi uma calamidade. Para todos.
Mesmo antes de deixarem o jardim para irem comer na varanda, o dia já se tornara de mau agouro.
- Desculpe-me, Anjin-san, mas o que é aquilo? - apontou Mariko. - Ali. Meu marido pergunta o que é aquilo.
- Onde? Oh, lá! É um faisão - disse Blackthorne. - O Senhor Toranaga enviou-o para mim, junto com uma lebre. É o que teremos no jantar, em estilo inglês... pelo menos é o que eu terei, embora haja o suficiente para todos.
- Obrigada, mas... nós, meu marido e eu, não comemos carne. Mas por que o faisão está pendurado lá? Com este calor, não deveria ser descido e preparado?
- É assim que se prepara um faisão. A gente o pendura para amadurecer a carne.
- O quê? Assim? Desculpe-me, Anjin-san - disse ela, desconcertada -, sinto muito, mas vai apodrecer rapidamente. Ainda está com as penas e não foi ... limpo.
- A carne do faisão é seca, Mariko-san, por isso ele deve ser pendurado durante alguns dias, talvez umas duas semanas, dependendo do tempo. Depois é depenado, limpo e cozido.
- O senhor... o senhor o deixa ao ar? Para apodrecer? Como...
- Nan ja? - perguntou Buntaro impaciente.
Ela falou com ele, desculpando-se, ele ouviu incrédulo, depois se levantou, aproximou-se, examinou a ave e cutucou-a. Algumas moscas zumbiram, depois pousaram de novo. Hesitantemente Fujiko falou a Buntaro, que corou.
- Sua consorte disse que o senhor ordenou que ninguém além do senhor deveria tocá-lo - disse Mariko.
- Sim. Não se pendura caça aqui? Nem todos são budistas.
- Não, Anjin-san. Acho que não.
- Algumas pessoas acreditam que se deve pendurar um faisão pelas penas da cauda até que caia, mas isso é história de velhas - disse Blackthorne. - O jeito certo é pelo pescoço, assim os sumos ficam onde devem ficar. Algumas pessoas deixam-no pendurado até que se separe do pescoço, mas eu pessoalmente não gosto de carne decomposta assim. Costumávamos... - Parou pois ela adquirira uma leve tonalidade esverdeada.
- Nan desu ka, Mariko-san? - perguntou Fujiko rapidamente.
Mariko explicou. Todos riram nervosamente e Mariko levantou-se debilmente, dando tapinhas no brilho da testa.
- Desculpe, Anjin-san, quer me dar licença um instante...
A comida de vocês também é estranha, queria ele dizer. Que tal a de ontem, lula crua - mascar a carne branca, viscosa, quase sem gosto, com nada além de um pouco de molho de soja para ajudar a descer? Ou os tentáculos picados de polvo, novamente crus, com arroz frio e alga marinha? E a água-viva fresca com tofu - feijões fermentados - ensopado, amarelo-amarronzado, que parecia uma tigela de vômito de cão? Oh, sim, servido lindamente numa frágil e atraente tigela, mas sempre se parecendo com vômito! Sim, por Deus, é o bastante para deixar um homem doente!