Acabaram indo todos para a varanda e, depois das mesuras habituais e intermináveis, da conversa amena, do chá e do saquê, a comida começou a chegar. Pequenas bandejas de uma transparente sopa de peixe, arroz, peixe cru, como sempre. E depois o cozido dele.
Ele ergueu a tampa do caldeirão. O vapor subiu e os dourados glóbulos de gordura dançaram na superfície fumegante. A sopa-molho rica, de dar água na boca, estava densa com os sumos da carne e tenros nacos. Orgulhosamente ele ofereceu, mas todos menearam a cabeça e pediram-lhe que comesse.
- Domo - disse ele.
Era sinal de boas maneiras tomar a sopa diretamente das tigelinhas laqueadas e comer qualquer coisa sólida contida na sopa com os pauzinhos. Havia uma concha na bandeja. Quase incapaz de conter a fome, ele encheu a tigela e começou a comer. Então viu os olhos deles.
Observavam-no com uma fascinação nauseada que, em vão, tentavam ocultar. Seu apetite começou a se desvanecer. Tentou ignorá-los, mas não conseguiu, o estômago roncando. Dissimulando a própria irritação, pousou a tigela, recolocou a tampa e disse-lhes asperamente que não estava ao seu gosto. Ordenou a Nigatsu que levasse embora.
- Fujiko-san pergunta se deve ser jogado fora – disse Mariko esperançosa.
- Sim.
Fujiko e Buntaro descontraíram-se.
- Gostaria de um pouco mais de arroz? – perguntou Fujiko.
- Não, obrigado.
Mariko abanou o leque, sorriu encorajadoramente, e tornou a encher-lhe o cálice de saquê. Mas Blackthorne não se sentia mais calmo e resolveu que no futuro cozinharia nas colinas, isolado, comeria isolado, e caçaria abertamente.
Ao inferno com eles, pensou. Se Toranaga pode caçar, eu também posso. Quando é que vou vê-lo? Quanto tempo tenho que esperar?
- Sífilis na espera e sífilis em Toranaga! - disse alto em inglês, e sentiu-se melhor.
- O quê, Anjin-san? - perguntou Mariko em português.
- Nada - retrucou ele. - Só estava me perguntando quando verei o Senhor Toranaga.
- Ele não me disse. Muito em breve, imagino.
Buntaro sorvia o saquê e a sopa sonoramente, conforme o costume. Isso começou a aborrecer Blackthorne. Mariko falava animadamente com o marido, que grunhia, mal lhe prestando atenção. Ela não estava comendo, e Blackthorne ficou ainda mais aborrecido de que tanto ela quanto Fujiko estivessem quase bajulando Buntaro, e também que ele próprio tivesse que acolher aquele hóspede indesejado.
- Diga a Buntaro-sama que no meu país o anfitrião brinda ao convidado de honra. - Ergueu o cálice com um sorriso rígido.
- Longa vida e felicidade! - Bebeu.
Buntaro ouviu a explicação de Mariko. Assentiu, ergueu o cálice, sorriu por entre os dentes, e esvaziou-o.
- Saúde! - brindou Blackthorne de novo.
E de novo.
E de novo.
- Saúde!
Desta vez Buntaro não bebeu. Puxou o cálice cheio e fitou Blackthorne com seus olhos pequenos. Então chamou alguém lá fora. A shoji deslizou imediatamente. Seu guarda, sempre presente, curvou-se e estendeu-lhe o imenso arco e a aljava. Buntaro pegou-o e falou veemente e rapidamente a Blackthorne.
- Meu marido... meu marido diz que o senhor queria vê-lo atirar, Anjin-san. Ele acha que amanhã está longe demais. Agora é um bom momento. O portão da sua casa, Anjin-san. Ele pergunta que batente o senhor escolhe.
- Não compreendo - disse Blackthorne. O portão principal estava a uns quarenta passos de distância, em algum ponto do outro lado do jardim, mas agora completamente oculto pela shoji fechada à sua direita.
- O batente da esquerda ou o da direita? Por favor, escolha. - A polidez dela traía urgência.
Prevenido, ele olhou para Buntaro. O homem parecia à parte, esquecido deles, um boneco atarracado e feio, sentado e olhando a distância.
- Esquerda - disse ele, fascinado.
- Hidari! - disse ela.
Imediatamente Buntaro puxou uma seta da aljava e, ainda sentado, assestou o arco, levantou-o, retesou a corda ao nível dos olhos e soltou a flecha com uma fluidez selvagem, quase poética. A seta disparou na direção do rosto de Mariko, tocou-lhe um fio de cabelo de passagem, e desapareceu através da parede shoji. Outra seta foi atirada quase antes de a primeira ter sumido, depois outra, cada uma passando a uma polegada de Mariko. Ela permanecia calma e imóvel, ajoelhada como estivera o tempo todo.
Uma quarta flecha e depois a última. O silêncio encheu-se om o eco da corda do arco vibrando. Buntaro suspirou e voltou lentamente. Pôs o arco atravessado sobre os joelhos. Mariko e Fujiko sorriram, curvaram-se e cumprimentaram Buntaro, que assentiu e curvou-se ligeiramente. Olharam para Blackthorne. Ele sabia que o que testemunhara fora quase mágico. Todas as setas haviam passado pelo mesmo furo na shoji.
Buntaro estendeu o arco de volta ao guarda e pegou o minúsculo cálice. Contemplou-o um momento, depois ergueu-o para Blackthorne, esvaziou-o e falou rudemente, seu ego bestial de novo.
- Ele... meu marido pede, polidamente, por favor, vá e olhe.
Blackthorne pensou um momento, tentando acalmar o coração.
- Não há necessidade. Claro que ele atingiu o alvo.
- Ele diz que gostaria de que o senhor tivesse certeza.
- Eu tenho certeza.
- Por favor, Anjin-san. O senhor o honraria.
- Não preciso honrá-lo.
- Sim. Mas posso, por favor, juntar ao dele o meu pedido?
Novamente a súplica nos olhos dela.
- Como se diz: "Foi maravilhoso assistir a isso"?
Ela lhe disse. Ele disse as palavras e se curvou. Buntaro curvou-se perfunctoriamente em retribuição.
- Peça-lhe, por favor, que venha comigo ver as setas.
- Ele diz que gostaria que o senhor fosse sozinho. Ele não deseja ir, Anjin-san.
- Por quê?
- Se ele foi exato, Anjin-san, o senhor deve ver isso sozinho. Se não foi, deve ver isso sozinho também. Assim nem o senhor nem ele ficam embaraçados.
- E se ele tiver errado?
- Não errou. Mas pelo nosso costume a precisão, nestas circunstâncias impossíveis, não tem importância comparada à graça demonstrada pelo arqueiro, a nobreza do movimento, a força de atirar sentado, ou o desprendimento quanto a ter vencido ou perdido.
As setas estavam a uma polegada uma da outra, no meio do batente esquerdo. Blackthorne olhou para trás, para a casa, e viu, a quarenta e poucos passos, o furinho nítido na parede de papel que era uma centelha de luz na escuridão.
É quase impossível ter tanta pontaria, pensou. Do lugar onde Buntaro estava sentado, não podia ver nem o jardim nem o portão, e a noite estava escura aqui fora. Blackthorne voltou-se para o batente e ergueu um pouco mais a lanterna. Com uma mão tentou arrancar uma seta. A cabeça de aço estava enterrada fundo demais. Ele poderia ter quebrado o cabo de madeira, mas não quis fazer isso.
O guarda observava.
Blackthorne hesitou. O guarda aproximou-se para ajudar, mas ele meneou a cabeça.
- Iyé, domo - e voltou para dentro.
- Mariko-san, por favor, diga à minha consorte que eu gostaria que as setas ficassem no batente para sempre. Todas elas. Para me lembrar de um arqueiro magistral. Eu nunca tinha visto pontaria assim. - Curvou-se para Buntaro.
- Obrigada, Anjin-san. - Traduziu e Buntaro curvou-se e agradeceu o elogio.
- Saquê! - ordenou Blackthorne.
Beberam mais. Muito mais. Buntaro bebia a grandes goles agora, descuidado, o vinho tomando conta dele. Blackthorne observou-o dissimuladamente, depois deixou a atenção vagar, perguntando-se como o homem conseguira alinhar e atirar as setas com uma precisão tão incrível. É impossível, pensou, ainda que eu tenha visto. Gostaria de saber o que Vinck, Baccus e os demais estão fazendo agora. Toranaga lhe dissera que a tripulação estava instalada em Yedo, perto do Erasmus. Jesus Cristo, gostaria de vê-los e voltar a bordo.