Olhou de soslaio para Mariko, que dizia alguma coisa ao marido. Buntaro ouviu, depois, para surpresa de Blackthorne, o rosto do samurai contorceu-se de repugnância. Antes que pudesse desviar os olhos, Buntaro o olhou.
- Nan desu ka? - As palavras de Buntaro soaram quase como uma acusação.
- Nani-mo, Buntaro-san. Nada. - Blackthorne ofereceu saquê a todos, esperando disfarçar o seu lapso. Novamente as mulheres aceitaram, mas tomaram apenas um pequeno gole de vinho. Buntaro acabou o seu imediatamente, com um humor péssimo. Depois falou com Mariko.
Apesar de si mesmo, Blackthorne falou:
- O que há com ele? O que está dizendo?
- Oh, desculpe, Anjin-san. Meu marido estava perguntando sobre o senhor, sobre a sua esposa e consortes. E sobre seus filhos. E sobre o que aconteceu desde que partimos de Osaka. Ele... - Parou, mudando de idéia, e acrescentou numa voz indiferente: - Ele está muito interessado no senhor e nas suas idéias.
- Estou interessado nele e nas idéias dele, Mariko-san. Como se conheceram, a senhora e ele? Quando se casaram? Ele... - Buntaro irrompeu com um jorro de japonês impaciente.
Imediatamente Mariko traduziu o que fora dito. Buntaro estendeu a mão e encheu duas xícaras de chá com saquê, ofereceu uma a Blackthorne e acenou às mulheres que levassem os cálices.
- Ele ... meu marido diz que às vezes os cálices de saquê são pequenos demais. - Mariko encheu os cálices. Sorveu um, Fujiko o outro. Houve outra arenga, mais belicosa, e o sorriso de Mariko congelou-sê-lhe no rosto. O de Fujiko também.
- Iyé, dozo gomen nasai, Buntaro-sama - começou Mariko.
- Ima! - ordenou Buntaro.
Nervosamente Fujiko começou a falar, mas Buntaro calou-a com um olhar.
- Gomen nasai — sussurrou Fujiko, desculpando-se. - Dozo, gomen nasai.
- O que ele disse, Mariko-san? - Ela não pareceu ter ouvido Blackthorne. - Dozo gomen nasai, Buntaro-sama, watashi...
O rosto do marido avermelhou-se.
- IMA!
- Desculpe, Anjin-san, mas meu marido me ordena que lhe conte... que responda às suas perguntas... que lhe conte a meu respeito. Eu lhe disse que não achava que esses assuntos de família devessem ser discutidos tão tarde da noite, mas ele ordena. Por favor, seja paciente. - Ela tornou um grande gole de saquê. Depois outro. Os fios de cabelo que lhe estavam soltos sobre as orelhas oscilaram à leve corrente produzida pelo leque de Fujiko. Ela esvaziou o cálice e pousou-o. - Meu nome de solteira é Akechi. Sou a filha do Senhor General Akechi Jinsai, o assassino. Meu pai traiçoeiramente assassinou o seu suserano, o Senhor Ditador Goroda.
- Deus do paraíso! Por que fez isso?
- Seja qual for a razão, Anjin-san, é insuficiente. Meu pai cometeu o pior crime do nosso mundo. Meu sangue está maculado, assim como o sangue do meu filho.
- Então por que... - Ele parou.
- Sim, Anjin-san?
- Eu só ia dizer que compreendo o que isso quer dizer... matar um suserano. Estou surpreso de que a tenham deixado viva.
- Meu marido honrou-me...
Novamente Buntaro a interrompeu com malignidade e ela se desculpou e explicou o que Blackthorne perguntara. Desdenhosamente, Buntaro fez-lhe um gesto para continuar.
- Meu marido honrou-me mandando-me embora - continuou ela, do mesmo modo meigo. - Implorei que me autorizasse a cometer seppuku, mas ele me negou esse privilégio. Era... Devo explicar que seppuku é um privilégio concedido por ele ou pelo Senhor Toranaga. Eu ainda lhe peço humildemente uma vez por ano, no aniversário do dia da traição. Mas na sua sabedoria, meu marido sempre recusou. - O sorriso dela era adorável. - Meu marido me honra todos os dias, todos os momentos, Anjin-san. Se eu fosse ele, não seria capaz sequer de conversar com uma pessoa tão... conspurcada.
- É por isso que ... é por isso que a senhora é a última da sua linhagem? - perguntou ele, lembrando-se do que ela dissera sobre uma catástrofe, durante a marcha do Castelo de Osaka. Mariko traduziu a pergunta para Buntaro, e depois voltou-se novamente.
- Hai, Anjin-san. Mas não foi uma catástrofe, não para eles. Foram apanhados nas colinas, meu pai e sua família, por Nakamura, o general que se tornou taicum. Foi Nakamura quem comandou os exércitos de vingança e dizimou todas as forças do meu pai, vinte mil homens, um por um. Meu pai e sua família foram acuados, mas meu pai teve tempo de ajudá-los a todos, meus quatro irmãos e três irmãs, minha... minha mãe e as duas consortes. Depois cometeu seppuku. Nisso ele foi samurai, e eles eram samurais. Ajoelharam-se bravamente diante dele, um por um, e ele os matou um por um. Morreram honrosamente. E ele morreu honrosamente. Os dois irmãos do meu pai, e um tio, se haviam aliado a ele na traição contra o suserano. Também foram perseguidos. E morreram com honra igual. Nenhum Akechi foi deixado com vida para enfrentar o ódio e o escárnio do inimigo, exceto eu... não, desculpe-me, por favor, Anjin-san, estou errada... meu pai e seus irmãos e tio eram o verdadeiro inimigo. Do inimigo, apenas eu permaneci viva, uma testemunha viva da imunda traição. Eu, Akechi Mariko, fui deixada viva porque era casada e portanto pertencia à família do meu marido. Morávamos em Kyoto então. Eu estava em Kyoto quando o meu pai morreu. Sua traição e rebelião duraram apenas treze dias, Anjin-san. Mas enquanto viver um homem nestas ilhas, o nome Akechi será vergonhoso.
- Há quanto tempo estava casada quando isso aconteceu?
- Há dois meses e três dias, Anjin-san.
- E tinha quinze anos?
- Sim. Meu marido honrou-me não se divorciando de mim nem me expulsando como deveria ter feito. Fui mandada embora. Para uma aldeia ao norte. Fazia frio lá, Anjin-san, na província de Shonai. Muito frio.
- Quanto tempo ficou lá?
- Oito anos. O Senhor Goroda tinha quarenta e cinco anos quando cometeu seppuku para impedir a própria captura. Isso foi há quase dezesseis anos, Anjin-san, e a maioria dos seus descend...
Buntaro interrompeu de novo, sua língua um açoite.
- Por favor, desculpe-me, Anjin-san - disse Mariko. - Meu marido corretamente assinala que teria sido suficiente que eu dissesse que sou filha de um traidor, que longas explicações são desnecessárias. Claro que algumas explicações eram necessárias - acrescentou ela cuidadosamente. - Por favor, desculpe os maus modos do meu marido e rogo-lhe que se lembre do que eu disse sobre ouvidos para ouvir e sobre a Cerca Óctupla. Perdoe-me, Anjin-san, recebi ordem de ir embora. O senhor não deve sair antes que ele saia, nem beber mais do que ele. Não interfira. - Ela se curvou para Fujiko. - Dozo gomen nasai.
- Do itashimashité.
Mariko inclinou a cabeça para Buntaro e partiu. Seu perfume demorou-se no ar.
- Saquê! - disse Buntaro, e sorriu malignamente.
Fujiko encheu a xícara de chá.
- Saúde - disse Blackthorne, confuso.
Por mais de uma hora ele brindou a Buntaro, até sentir a própria cabeça girando. Então Buntaro tomou a última xícara e caiu deitado por entre xícaras despedaçadas. A shoji abriu-se instantaneamente. O guarda entrou com Mariko. Levantaram Buntaro, ajudados por criados que pareciam ter surgido do nada, e carregaram-no para o aposento oposto. O quarto de Mariko. Ajudada por Koi, a criada, ela começou a despi-lo. O guarda cerrou a shoji e sentou do lado de fora, a mão no punho da espada solta.
Fujiko esperava, olhando Blackthorne. Vieram criadas e arrumaram a desordem. Exausto, Blackthorne correu as mãos pelo longo cabelo e amarrou de novo a fita que prendia a cauda. Depois levantou-se oscilante e saiu para a varanda, seguido da consorte.