O ar cheirava bem e limpou-o. Mas não o suficiente. Ele se sentou pesadamente na varanda e sorveu a noite.
Fujiko ajoelhou-se atrás dele e inclinou-se para a frente.
- Gomen nasai, Anjin-san - sussurrou, movendo a cabeça na direção da casa. - Wakarimasu ka?
- Wakarimasu, shigata ga na!. - Depois, vendo-lhe o medo aparente, afagou-lhe o cabelo.
- Arigato, arigato, Anjin-sama.
- Anata wa suimin ima, Fujiko-san - disse ele, encontrando as palavras com dificuldade. Você dormir agora.
- Dozo gomen nasai, Anjin-san, suimin, neh? - disse ela, gesticulando na direção do quarto dele, os olhos suplicando.
- Iyé. Watashi oyogu ima. Não, vou nadar.
- Hai, Anjin-sama. - Obedientemente ela se voltou e chamou. Dois criados vieram correndo. Eram ambos jovens da aldeia, fortes e conhecidos como bons nadadores.
Blackthorne não fez objeção. Naquela noite sabia que as suas objeções seriam sem sentido.
- Bem, de qualquer jeito - disse alto, enquanto seguia oscilante colina abaixo, os homens atrás, o cérebro entorpecido pela bebida, - consegui pô-lo para dormir. Não pode machucá-la agora.
Blackthorne nadou durante uma hora e sentiu-se melhor. Quando voltou, Fujiko o esperava na varanda com um bule de chá. Ele aceitou um pouco, depois foi para a cama e pegou no sono imediatamente.
O som da voz de Buntaro, transbordante de maldade, despertou-o. Sua mão direita automaticamente agarrou a coronha da pistola que mantinha sempre embaixo do futon, o coração ribombando no peito devido ao inesperado despertar.
A voz de Buntaro cessou. Mariko começou a falar. Blackthorne só conseguia apreender algumas palavras, mas podia sentir os argumentos razoáveis e a súplica, não abjeta, lamentosa ou mesmo perto das lágrimas, apenas a firme serenidade habitual dela. Novamente Buntaro explodiu.
Blackthorne tentou não ouvir.
- Não interfira - dissera-lhe ela, e ela era prudente. Ele não tinha direitos, mas Buntaro tinha muitos. - Rogo-lhe que seja cuidadoso, Anjin-san. Lembre-se do que eu lhe disse de ouvidos para ouvir e a Cerca Óctupla.
Obedientemente deitou-se, a pele gelada de suor, e forçou-se a pensar no que ela dissera.
- Veja, Anjin-san - dissera-lhe naquela noite muito especial, quando terminavam a última de muitas últimas garrafas de saquê e ele brincara sobre a falta de privacidade por toda parte: gente sempre por perto, paredes de papel, ouvidos e olhos sempre espreitando -, aqui o senhor tem que aprender a criar a sua própria privacidade. Somos ensinados desde a infância a desaparecer dentro de nós mesmos, a erguer paredes impenetráveis, por trás das quais vivemos. Se não pudéssemos fazer isso, com certeza ficaríamos todos loucos e mataríamos uns aos outros e a nós mesmos.
- Que paredes?
- Oh, temos um labirinto ilimitado onde nos esconder, Anjin-san. Rituais e costumes, tabus de toda espécie, oh, sim. Até a nossa língua tem nuanças que a sua não tem, as quais nos permitem evitar, polidamente, uma pergunta se não queremos responder.
- Mas como cerrar os ouvidos, Mariko-san? Isso é impossível.
- Oh, muito fácil, com treinamento. Claro, o treinamento começa assim que a criança aprende a falar, portanto isso bem cedo se torna uma segunda natureza para nós. De que outro modo poderíamos sobreviver? Primeiro se começa purificando a mente de gente, colocando-se num plano diferente. A observação do pôrdo-sol é uma grande ajuda, ou a escuta da chuva. Anjin-san, já notou os diferentes sons da chuva? Se o senhor realmente ouvir, então o presente desaparece, neh? Ouvir flores caindo e rochas crescendo são exercícios excepcionalmente bons. Claro que não se espera que o senhor veja as coisas, elas são apenas sinais, mensagens ao seu hara, o seu centro, para lembrá-lo da transitoriedade da vida, para ajudá-lo a atingir a wa, a harmonia, Anjin-san, a harmonia perfeita, que é a qualidade mais visada em toda a vida do Japão, toda a arte, toda... - Ela rira. - Pronto, veja o que o excesso de saquê faz comigo. - A ponta da língua tocara-lhe os lábios sedutoramente. - Vou lhe cochichar um segredo: não se deixe enganar pelos nossos sorrisos e gentilezas, nosso cerimonial, nossas mesuras, delicadezas e atenções. Por trás disso tudo, podemos estar a um milhão de ris de distância, seguros e sozinhos. Pois é isso o que procuramos: esquecimento. Um dos nossos primeiros poemas jamais escritos - está no Kojiko, nosso primeiro livro de história, que foi escrito há cerca de mil anos - talvez explique o que estou dizendo:
“Oito cúmulos se erguem
Para os amantes se esconderem
A Cerca óctupla da província de Izumo
Encerra aquelas nuvens óctuplas Oh, que maravilhosa, essa Cerca Óctupla!"
- Nós certamente enlouqueceríamos se não tivéssemos uma Cerca Óctupla, oh, sim!
Lembre-se da Cerca Óctupla, disse ele a si mesmo, enquanto a fúria sibilante de Buntaro continuava. Não sei nada sobre ela. Nem sobre ele, na realidade. Pense no Regimento de Mosquetes, ou na sua casa, em Felicity, ou em como recuperar o navio, em Baccus, em Toranaga ou em Omi-san. Que tal Omi? Preciso de vingança? Ele quer ser meu amigo e tem sido bom e gentil desde o caso das pistolas e...
O som da pancada feriu-o dentro da cabeça. Depois a voz de Mariko começou de novo, e houve uma segunda pancada e Blackthorne se pôs de pé num instante e escancarou a shoji. O guarda erguia-se no corredor, junto à porta de Mariko, encarando-o maldosamente, a espada pronta.
Blackthorne estava se preparando para se atirar contra o samurai quando a porta na extremidade do corredor se abriu. Fujiko, o cabelo solto e flutuando sobre o quimono de dormir, aproximou-se, o som do pano rasgando e outro golpe aparentemente não a afetando em absoluto. Ela se curvou polidamente para o guarda e se postou entre eles, depois se curvou meigamente para Blackthorne e pegou-lhe o braço, guiando-o de volta ao quarto. Ele viu a tensa prontidão do samurai. Tinha apenas uma pistola e uma bala no momento, por isso recuou. Fujiko seguiu-o e fechou a shoji atrás de si. Depois, muito assustada, balançou a cabeça advertindo-o, pôs um dedo sobre os lábios, e balançou a cabeça de novo, os olhos suplicando.
- Gomen nasai, wakarimasu ka? - sussurrou ela.
Mas ele estava concentrado na parede do quarto contíguo, que poderia ser despedaçada com muita facilidade.
Fujiko também olhou para a parede, depois se colocou entre ele e a parede, e sentou-se, fazendo-lhe sinal que a imitasse.
Mas ele não podia. Continuou de pé, preparando-se para o ataque que os destruiria a todos, aguilhoado por um soluço que seguiu outra pancada.
- Iyé! - Fujiko estremeceu aterrorizada.
Ele fez-lhe sinal para sair do caminho.
- Iyé, iyé - implorou ela novamente.
- IMA!
Imediatamente Fujiko se levantou e fez-lhe sinal que esperasse enquanto corria sem ruído algum para as espadas que jaziam diante do takonoma, a pequena alcova de honra. Pegou a espada comprida, de mãos trêmulas, tirou-a da bainha, e preparou-se para segui-lo através da parede. Nesse instante houve um tapa final e uma exaltada torrente de fúria. A outra shoji abriu-se com estrondo e Buntaro se afastou com passos pesados, seguido pelo guarda.
Houve silêncio na casa por um momento, depois o som do portão
do jardim batendo.
Blackthorne dirigiu-se para a porta. Fujiko arremessou-se à sua frente, mas ele a empurrou para o lado e a escancarou.
Mariko ainda estava ajoelhada no canto do quarto ao lado, um vergão lívido no rosto, o cabelo desgrenhado, o quimono em farrapos, contusões graves nas coxas e na base das costas.