Ele se precipitou para levantá-la, mas ela gritou:
- Vá embora, por favor, vá embora, Anjin-san!
Ele viu o fio de sangue no canto da boca.
- Jesus, como a senhora está mal...
- Eu lhe disse que não interferisse. Por favor, vá embora - disse ela na mesma voz calma que a violência em seus olhos desmentia. Depois viu Fujiko, que ficara à soleira da porta. Falou com ela. Fujiko obedientemente pegou o braço de Blackthorne para levá-lo embora, mas ele se soltou com um repelão.
- Não! Iyé!
- Sua presença aqui me tira a dignidade, não me dá paz nem conforto e me envergonha - disse Mariko. - Vá embora!
- Quero ajudar. Não compreende?
- O senhor não compreende? Não tem direitos nisto. Foi uma discussão particular entre marido e mulher.
- Isso não é desculpa para bater...
- Por que não ouve, Anjin-san? Ele pode me espancar até a morte se quiser. Tem o direito e eu gostaria de que... até isso! Então eu não teria que suportar a vergonha. Acha que é fácil viver com a minha vergonha? Não ouviu o que eu disse? Sou filha de Akechi Jinsai!
- Não é culpa sua. A senhora não fez nada!
- É minha culpa e sou filha de meu pai. - Mariko teria parado aí. Mas, vendo a compaixão dele, o interesse, e o amor, e sabendo como ele prezava a verdade, permitiu que alguns dos seus véus tombassem. - Esta noite a culpa foi minha, Anjin-san - disse. - Se eu tivesse chorado como ele quer, implorado perdão como ele quer, bajulado e ficado petrificada e lisonjeado como ele quer, aberto os olhos em terror fingido como ele quer, fizesse todas as coisas próprias de mulher que o meu dever exige, ele seria como uma criança nas minhas mãos. Mas eu não farei.
- Por quê?
- Porque essa é a minha vingança. Para retribuir por me deixar viva depois da traição. Para retribuir por ter me mandado embora por oito anos e ter me deixado viva todo esse tempo. E para retribuir por me ordenar que voltasse à vida e continuasse vivendo. - Ela se sentou penosamente e arrumou o quimono esfarrapado mais junto ao corpo. - Nunca me darei a ele de novo. Uma vez eu fiz isso, voluntariamente, embora o tenha detestado desde o primeiro momento em que o vi.
- Então por que se casou? A senhora disse que as mulheres aqui têm o direito de recusar, que não têm que se casar contra a vontade.
- Casei-me com ele para agradar ao Senhor Goroda, e para agradar a meu pai. Eu era muito jovem e não sabia sobre Goroda então, mas se quer a verdade Goroda era o homem mais cruel e repugnante que jamais nasceu. Ele levou meu pai à traição. É a verdade! Goroda! - Ela cuspiu o nome. - Não fosse ele, estaríamos todos vivos e honrados. Rezo a Deus para que Goroda esteja condenado ao inferno por toda a eternidade! - Moveu-se cuidadosamente, tentando abrandar o sofrimento no flanco. - só existe ódio entre mim e meu marido, esse é o nosso karma. Seria tão fácil para ele permitir-me ascender à morte.
- Por que ele não a deixa ir embora? Não se divorcia da senhora? Ou lhe concede o que a senhora deseja?
- Porque ele é um homem. - Um retesar de dor percorreu-a e ela fez uma careta. Blackthorne estava de joelhos ao seu lado, amparando-a. Ela o empurrou, lutou por recobrar o domínio de si. Fujiko, à soleira, observava estoicamente. - Estou bem, Anjin-san. Por favor, deixe-me sozinha. O senhor deve ser cuidadoso.
- Não tenho medo dele.
Debilmente Mariko afastou o cabelo dos olhos e o encarou inquisitiva. Por que não deixar o Anjin-san ir ao encontro do seu karma, perguntou a si mesma. Ele não é do nosso mundo. Buntaro o matará com toda a facilidade. Apenas a proteção pessoal de Toranaga o protegeu até agora. Yabu, Omi, Naga, Buntaro - qualquer um deles poderia ser facilmente provocado para matá-lo. Ele só causou problemas desde que chegou, neh? Assim como o seu conhecimento. Naga tem razão: o Anjin-san pode destruir o nosso mundo, a menos que seja contido.
E se Buntaro soubesse a verdade? Ou Toranaga? Sobre o "travesseiro"...
- Ficou louca? - dissera Fujiko naquela noite.
- Não.
- Então por que vai tomar o lugar da criada?
- Por causa do saquê e por diversão, Fujiko-san, e por curiosidade - mentira ela, ocultando a verdadeira razão: ele a excitava, ela o desejava, nunca tivera um amante. Se não fosse naquela noite, não seria nunca, e tinha que ser o Anjin-san e apenas o Anjin-san.
Então fora a ele, sentira-se enlevada e depois, quando a galera chegara, Fujiko dissera em particular:
- A senhora teria ido se soubesse que o seu marido estava vivo?
- Não. Claro que não - mentiu ela.
- Mas agora vai contar a Buntaro-sama, neh? Que "travesseirou" com o Anjin-san?
- Por que deveria fazer isso?
- Pensei que talvez fosse o seu plano. Se contar a Buntaro-sama no momento certo, a fúria dele lhe explodirá em cima e a senhora estará agradecidamente morta antes que ele saiba o que fez.
- Não, Fujiko-san, ele nunca me matará. Ele me mandaria para os etas, se tivesse desculpa suficiente, se conseguisse obter a aprovação do Senhor Toranaga, mas nunca me matará.
- Adultério com o Anjin-san... isso seria suficiente?
- Oh, sim.
- O que aconteceria ao seu filho?
- Herdaria a minha desgraça, se eu ficasse desgraçada, neh?
- Por favor, se achar que Buntaro-sama desconfia do que aconteceu, diga-me. Enquanto consorte, é meu dever proteger o Anjin-san.
Sim, é, Fujiko, pensara Mariko então. E isso lhe daria a desculpa para se vingar abertamente do acusador de seu pai, coisa pela qual você anseia. Mas o seu pai era um covarde, sinto muito, pobre Fujiko. Hiromatsu estava lá, do contrário seu pai estaria vivo agora e Buntaro morto, pois Buntaro é muito mais odiado do que seu pai era desprezado. Mesmo as espadas que você tanto preza, nunca lhe foram dadas como uma honra de batalha, foram compradas de um samurai ferido. Sinto muito, mas nunca serei eu quem vai lhe dizer, mesmo que a verdade seja essa.
- Não tenho medo dele - estava dizendo Blackthorne de novo.
- Eu sei - disse ela, a dor dominando-a. - Mas, por favor, imploro-lhe, tenha medo dele por mim.
Blackthorne dirigiu-se para a porta.
Buntaro o esperava a cem passos, no meio do caminho que levava para a aldeia lá embaixo - atarracado, imenso e mortífero. O guarda erguia-se ao seu lado. O amanhecer estava nublado.
Barcos de pesca já estavam contornando os bancos de areia, o mar calmo.
Blackthorne viu o arco frouxo nas mãos de Buntaro, e as espadas, e as espadas do guarda. Buntaro oscilava ligeiramente e isso lhe deu esperança de que a pontaria do homem falhasse, o que lhe daria tempo para se aproximar o suficiente. Não havia cobertura aos lados do caminho. Ele engatilhou as duas pistolas e avançou na direção dos dois homens.
Ao inferno com cobertura, pensou por entre o nevoeiro da sua ânsia por sangue, sabendo ao mesmo tempo que o que estava fazendo era loucura, que não tinha chance contra os dois samurais ou o arco de longo alcance, que não tinha qualquer direito de interferir. E então, enquanto ainda se encontrava fora do alcance da pistola, Buntaro curvou-se profundamente, e o mesmo fez o guarda. Blackthorne parou, pressentindo uma armadilha.
Olhou em torno mas não havia ninguém por perto. Como num sonho, viu Buntaro desabar pesadamente sobre os joelhos, pôr o arco de lado, as mãos estendidas no chão, e curvar-se para ele como um camponês se curvaria diante do seu senhor. O guarda o imitou.
Blackthorne contemplou-os, pasmado. Quando teve certeza de que seus olhos não o estavam enganando, avançou lentamente, a pistola pronta mas não apontada, esperando traição. Atingindo um fácil raio de tiro, parou. Buntaro não se movera. O costume ditava que ele devia se ajoelhar e retribuir a saudação, porque eles eram iguais, ou quase iguais, mas ele não conseguia compreender por que devesse haver aquela inacreditável cerimônia de deferência numa situação como aquela, em que ia jorrar sangue.