- Levante-se, seu filho da puta! - Blackthorne preparou os dois gatilhos.
Buntaro não disse nada, não fez nada. Manteve a cabeça baixa, as mãos estendidas. As costas do seu quimono estavam ensopadas de suor.
- Nan ja? - Deliberadamente Blackthorne usou o modo mais insultante de perguntar, "O que e?", esperando induzir Buntaro a se levantar, a começar, sabendo que não podia alvejá-lo daquele jeito, com a cabeça baixa e quase no pó.
Então, consciente de que era rude permanecer em pé enquanto eles estavam ajoelhados, e que o "nan ja" era um insulto intolerável e certamente desnecessário, Blackthorne se ajoelhou e, agarrado às pistolas, pousou as duas mãos no chão e retribuiu a reverência.
Sentou-se sobre os calcanhares.
- Hai? - perguntou, com uma polidez forçada.
Imediatamente Buntaro começou a resmungar. Abjetamente. Desculpando-se. De quê e exatamente por quê, Blackthorne não sabia. Só conseguia apreender uma palavra aqui outra ali, e "saquê" muitas vezes, mas tratava-se de um pedido de desculpas e uma humilde súplica por perdão. Buntaro continuava interminavelmente. Depois parou e encostou a cabeça no chão novamente.
Nessa altura a cólera ofuscante de Blackthorne já desaparecera.
- Shigata ga nai - disse ele, rouco, o que significava "não se pode evitar", ou "não há nada a ser feito", ou "o que o senhor podia fazer?", sem saber ainda se o pedido de desculpas era meramente ritual, precedendo o ataque. - Shigata ga nai. Hakkiri wakaranu ga shinpai surukotowanai. Não pode ser evitado. Não compreendo exatamente, mas não se preocupe.
Buntaro levantou os olhos e sentou-se.
- Arigato ... arigato, Anjin-sama. Domo gomen nasai.
- Shigata ga nai - repetiu Blackthorne e, agora que ficara claro que o pedido de desculpas era genuíno, agradeceu a Deus por lhe dar aquela miraculosa oportunidade de cancelar o duelo.
Ele sabia que não tinha direitos, que agira como um louco, e que o único meio de resolver a crise com Buntaro era de acordo com as regras. E isso queria dizer Toranaga.
Mas por que as desculpas? perguntava-se ele freneticamente.
Pense! Você tem que aprender a pensar como eles.
Então a solução precipitou-sê-lhe no cérebro. Deve ser porque sou hatamoto e Buntaro, meu hóspede, perturbou a wa, a harmonia da minha casa. Tendo uma violenta discussão com a esposa na minha casa, insultou-me, portanto ele está totalmente errado e tem que se desculpar, com sinceridade ou não. Desculpas obrigatórias de um samurai a outro, de um hóspede ao anfit...
Espere! Não se esqueça de que, pelo costume deles, todos, os homens podem se embebedar, espera-se que se embebedem às vezes, e quando bêbados não são, legitimamente, responsáveis pelos próprios atos. Não se esqueça de que não há perda de dignidade se se fica fedendo de bêbado. Lembre-se de como Mariko e Toranaga nem se preocuparam no navio, quando você ficou totalmente entorpecido. Acharam engraçado e não repugnante, como nós acharíamos.
E você tem realmente alguma coisa a censurar? Não foi você quem começou a rodada de bebida? O desafio não foi seu?
- Sim - disse alto.
- Nan desu ka, Anjin-san? - perguntou Buntaro, os olhos injetados.
- Nani-mo. Watashi no kashitsu desu. Nada. A culpa foi minha.
Buntaro levantou a cabeça e disse que não, que a culpa era só dele, e curvou-se e desculpou-se de novo.
- Saquê - disse Blackthorne com determinação, e encolheu os ombros. - Shigata ga nai. Saquê!
Buntaro curvou-se e agradeceu-lhe de novo. Blackthorne retribuiu e levantou-se. Buntaro imitou-o, e o guarda. Ambos se curvaram mais uma vez. E mais uma vez foram correspondidos.
Finalmente Buntaro deu-lhe as costas e se afastou cambaleante. Blackthorne esperou até estar fora do alcance da seta, perguntando-se se o homem estava tão bêbado quanto aparentava. Depois voltou para dentro da casa.
Fujiko encontrava-se na varanda, novamente dentro do seu escudo polido e sorridente. O que é que você está realmente pensando? perguntou-se Blackthorne ao saudá-la e ser correspondido.
A porta de Mariko estava fechada. Sua criada encontrava-se em pé do lado de fora.
- Mariko-san?
- Sim, Anjin-san?
Ele esperou mas a porta continuou fechada.
- Está bem?
- Sim, obrigada. - Ele a ouviu pigarrear, depois a voz débil continuou: - Fujiko mandou avisar a Yabu-san e ao Senhor Toranaga que estou indisposta hoje e não poderei interpretar.
- Seria melhor que a senhora visse um médico.
- Oh, obrigada, mas Suwo será excelente. Mandei chamá-lo. Eu... só torci o lado. Estou bem, realmente. Não há necessidade de o senhor se preocupar.
- Olhe, conheço alguma coisa sobre cuidados médicos. Não está tossindo sangue, está?
- Oh, não. Quando escorreguei só bati com o rosto. Verdade. Estou absolutamente bem.
Após uma pausa, ele disse:
- Buntaro desculpou-se.
- Sim. Fujiko observou do portão. Agradeço-lhe humildemente por ter aceitado o pedido de desculpas. Obrigada, Anjin-san, sinto muito que tenha sido perturbado... é imperdoável que a sua harmonia... por favor, aceite minhas desculpas também. Eu nunca deveria ter perdido o controle sobre a minha boca. Foi muito descortês. Por favor, perdoe-me também. A culpa da discussão foi minha. Por favor, aceite minhas desculpas.
- Por ter sido espancada?
- Por ter falhado em obedecer ao meu marido, por ter falhado em ajudá-lo a dormir satisfeito, por ter falhado a ele e ao meu anfitrião. E também pelo que eu disse.
- Tem certeza de que não há nada que eu possa fazer?
- Não... não, obrigada, Anjin-san. É só por hoje.
Mas Blackthorne não a viu durante oito dias.
CAPÍTULO 36
- Convidei-o para caçar, Naga-san, não para repetir opiniões que já ouvi - disse Toranaga.
- Imploro-lhe, Pai, pela última vez: pare o treinamento, proscreva as armas, destrua o bárbaro, declare a experiência um fracasso e ponha um fim a essa obscenidade.
- Não. Pela última vez. - O falcão encapuzado sobre a mão enluvada de Toranaga agitou-se, inquieto com a ameaça inabitual na voz do amo, e sibilou, irritado. Estavam no bosque, com batedores e guardas bem longe do raio de audição, o dia mormacento, úmido e nublado.
- Muito bem. Mas ainda é meu dever lembrá-lo de que está em perigo aqui, e solicitar-lhe novamente, com a devida polidez, agora pela última vez, que deixe Anjiro hoje.
- Não. Também pela última vez.
- Então tome a minha cabeça!
- Já tenho a sua cabeça!
- Então torne-a hoje, agora, ou deixe-me pôr fim à vida, já que o senhor não aceitará bons conselhos.
- Aprenda a ser paciente, jovenzinho enfatuado!
- Como posso ser paciente quando o vejo se destruindo? É meu dever chamar-lhe a atenção para isso. O senhor fica aqui caçando e desperdiçando tempo, enquanto os seus inimigos fazem o mundo inteiro desabar em cima do senhor. Os regentes reúnem-se amanhã. Quatro quintos de todos os daimios do Japão já se encontram em Osaka ou estão a caminho de lá. O senhor foi o único daimio importante a recusar. Agora será impedido. Depois nada poderá salvá-lo. Pelo menos devia estar em casa, em Yedo, rodeado pelas suas legiões. Aqui está desprotegido. Não podemos protegê-lo. Mal e mal temos mil homens, e Yabu não mobilizou Izu inteira? Tem mais de oito mil homens no raio de vinte ris, mais seis fechando as fronteiras. O senhor sabe que os espiões dizem que ele tem uma esquadra esperando ao norte para pô-lo a pique se o senhor tentar escapar de galera! É prisioneiro dele novamente, não vê? Um pombo-correio de Ishido a Yabu pode destruí-lo, no momento que quiser. Como sabe que ele não está planejando traição com Ishido?