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- Tenho certeza de que ele está considerando isso. Eu estaria se fosse ele. Você não?

- Não, não estaria.

- Então você logo estaria morto, o que seria absolutamente merecido, mas o mesmo aconteceria com toda a sua família, todo o seu clã e todos os seus vassalos, o que seria absolutamente imperdoável. Você é um imbecil, estúpido e truculento! Nunca vai usar a mente, ouvir, aprender, nunca vai frear a língua ou o temperamento! Deixou-se manipular do modo mais infantil e acredita que tudo pode ser resolvido com a ponta da sua espada. A única razão por que não lhe tiro essa cabeça estúpida nem o deixo pôr fim à sua vida atual sem valor é que você é jovem, e eu costumava pensar que você tinha algumas possibilidades, seus erros não são maliciosos, não há astúcia em você e a sua lealdade é inquestionável. Mas se não aprender rapidamente paciência e autodisciplina, suprimo-lhe o status de samurai e o rebaixo, junto com todas as suas gerações, para a classe camponesa! - O punho direito de Toranaga chocou-se contra a sela e o falcão soltou um guincho penetrante, nervoso. - Compreendeu?

Naga estava em choque. Em toda a vida, nunca vira o pai gritar de raiva nem perder a calma, ou sequer ouvira falar que ele tivesse feito isso. Muitas vezes sentira a ferroada da língua dele, mas com justificação. Naga sabia que cometia muitos erros, mas o pai sempre dava um jeito de que o que ele fizera deixasse de parecer tão estúpido quanto parecera de imediato. Por exemplo, quando Toranaga mostrara como ele caíra na armadilha de Orni - ou de Yabu - com relação a Jozen, ele tivera que ser fisicamente impedido de atacar e assassinar os dois. Toranaga ordenara aos seus guardas particulares que jogassem água fria em Naga até que este voltasse à razão, e calmamente explicara que ele, Naga, o ajudara incomensuravelmente eliminando a ameaça de Jozen.

- Mas teria sido melhor se você soubesse que estava sendo manipulado para agir. Seja paciente, meu filho, tudo vem com a paciência - aconselhara Toranaga. - Logo você será capaz de manipulá-los. O que você fez foi muito bom. Mas deve aprender a raciocinar sobre o que está na mente de um homem se pretende ser de valia para si mesmo, ou para o seu senhor. Preciso de líderes. Tenho fanáticos suficientes.

O pai sempre fora razoável e pronto a perdoar, mas hoje...

Naga pulou do cavalo e ajoelhou-se abjetamente:

- Por favor, perdoe-me, Pai. Nunca pretendi deixá-lo zangado... é só porque estou desesperado de preocupação pela sua segurança. Por favor, desculpe-me por perturbar-lhe a harmonia...

- Cale a boca! - vociferou Toranaga, assustando o cavalo.

Furiosamente Toranaga firmou-se com os joelhos e puxou os freios com a mão direita, o cavalo escorregando. Desequilibrado, o falcão começou a se debater - saltando do punho, as asas adejando descontroladamente, guinchando o seu hic-lc-lc-lc-lc de rebentar os tímpanos - enfurecido pela agitação inabitual e inconveniente ao seu redor.

- Pronto, minha belezinha, pronto... - Desesperadamente Toranaga tentava fazê-lo pousar e recuperar o controle sobre a montaria, quando Naga saltou para a cabeça do cavalo. Agarrou a rédea e conseguiu impedir o animal de disparar. O falcão guinchava furiosamente. Afinal, relutante, pousou de novo sobre a luva de Toranaga, presa firmemente pelos pioses. Mas as asas pulsavam nervosamente, os sinos nos seus pés soando estridentemente.

- Hic-lc-lc-lc-lc-liiiiicc! - guinchou a ave uma última vez.

- Pronto, pronto, minha belezinha. Pronto, está tudo bem - disse Toranaga, apaziguador, o rosto ainda avermelhado de cólera, depois voltou-se para Naga, tentando não deixar a animosidade transparecer na voz por causa do falcão. - Se você tiver arruinado o estado dele hoje, eu... eu...

Nesse instante um dos batedores chamou. Imediatamente Toranaga tirou o capuz do falcão com a mão direita, deu-lhe um momento para se adaptar aos seus arredores, e soltou-o.

Era um falcão de asas longas, um peregrinus. Seu nome era Tetsuko - Senhora de Aço. A ave disparou para o céu, circulando seiscentos pés acima de Toranaga, esperando que a presa fosse afugentada, esquecida do nervosismo. Então, viu os cães atiçados contra o bando de faisões, que dispersaram numa confusão frenética de batidas de asas. Marcou a presa, girou sobre si mesma e se atirou - fechou as asas e mergulhou implacável -, as garras prontas para dilacerar.

Desceu zunindo, mas o velho faisão, com duas vezes o tamanho do falcão, derrapou e, em pânico, arremeteu como uma flecha para a segurança de um conjunto de árvores, a duzentos passos de distância. Tetsu-ko retomou a posição inicial, abriu as asas, investindo de cabeça atrás da caça. Ganhou altitude, colocouse mais uma vez verticalmente acima do faisão, novamente investiu, e novamente falhou. Toranaga excitadamente gritava encorajamentos, prevenindo do perigo à frente, esquecido de Naga.

Com um frenético bater de asas, o faisão movia-se velozmente para a proteção das árvores. O peregrinos, novamente girando bem acima, mergulhou e veio cortando o ar. Mas era tarde demais. O manhoso faisão desapareceu. Sem se preocupar com a própria segurança, o falcão colidiu com folhas e galhos, ferozmente procurando a vítima, depois retomou posição e disparou para o vazio mais uma vez, guinchando de raiva, impelindo-se para bem acima do matagal.

Nesse momento um bando de perdizes foi localizado e espantado, pondo-se alvoroçadas à procura de segurança, lançando-se de um lado para o outro, astuciosamente seguindo os contornos da terra. Tetsu-ko marcou uma, dobrou as asas, e caiu como uma pedra. Desta vez não errou. Um golpe malévolo de suas garras posteriores quebrou o pescoço da perdiz. O pássaro estatelou-se no chão numa nuvem de penas. Mas ao invés de seguir a presa até o solo e pousar com ela, o falcão ganhou altura guinchando, subindo mais e mais.

Ansiosamente Toranaga sacou a isca, um pequeno pássaro morto amarrado a uma cordinha, e fê-la zunir em torno da cabeça. Mas Tetsu-ko não ficou tentado a voltar. Agora era uma minúscula mancha no firmamento, e Toranaga teve certeza de que o perdera, de que a ave resolvera deixá-lo, voltar às matas, matar conforme o próprio capricho e não conforme o capricho dele, comer quando quisesse e não quando ele decidisse, e voar para onde os ventos ou a fantasia a levassem, sem amo e livre para sempre.

Toranaga observou-o, não triste, mas só um pouco solitário. Tratava-se de uma criatura selvagem e Toranaga, como todos os falcoeiros, sabia que era um dono terrestre apenas temporário. Sozinho subira ao ninho do falcão nas montanhas Hakoné, tirara-o do ninho filhote, treinara-o, criara-o e dera-lhe a primeira matança. Agora mal conseguia vê-lo circulando lá em cima, cavalgando as nuvens gloriosamente, e desejou, ansiosamente, também poder flutuar no empíreo, longe das iniqüidades da terra.

Então o velho faisão casualmente surgiu de sob as árvores para se alimentar mais uma vez. No mesmo momento Tetsuko mergulhou, atirando-se dos céus, uma minúscula arma mortífera, as garras prontas para o coup de grâce.

O faisão morreu instantaneamente, o impacto causando uma explosão de penas, mas o falcão continuou, as asas cortando o ar, para frear violentamente no último segundo. Então fechou as asas e pousou sobre a presa.

Segurou-o nas garras e começou a depená-lo com o bico antes de comer. Mas antes que pudesse comer, Toranaga se aproximou a cavalo. A ave parou, distraída. Seus inclementes olhos castanhos, contornados de amarelo, observaram quando ele desmontou, seus ouvidos escutando o elogio murmurado suavemente pela sua habilidade e bravura, e depois, porque estava com fome e era ele quem dava comida e também porque foi paciente e não fez movimento súbito, mas ajoelhou-se suavemente, o falcão permitiulhe chegar mais perto.

Toranaga elogiou-o docemente. Puxou a faca de caça e cortou a cabeça do faisão, para permitir a Tetsuko alimentar-se com o cérebro da presa. Quando a ave começou a se regalar com o petisco, ele decepou a cabeça e ela veio facilmente para o seu punho, onde estava acostumada a se alimentar.