O tempo todo Toranaga a elogiou e, quando ela terminou o bocado, acariciou-a gentilmente e cumprimentou-a prodigamente. A ave balançou-se e sibilou o seu contentamento, alegre por estar de volta em segurança ao punho mais uma vez, onde podia comer, pois, naturalmente, desde que fora tirada do ninho, o punho era o único lugar onde jamais fora autorizada a comer, e a comida fora sempre dada por Toranaga pessoalmente. Começou a se alisar com o bico, pronta para outra morte.
Como Tetsuko voara tão bem, Toranaga resolveu não a deixar empanturrar-se nem voar mais naquele dia. Deu-lhe um pequeno pássaro que já havia depenado e aberto para ela. Quando sua refeição ia a meio caminho, ele lhe enfiou o capuz. A ave continuou a se alimentar satisfeita, através do capuz. Quando terminou de comer e começou a se alisar de novo, ele pegou o faisão, enfiou-o na sacola e chamou seu falcoeiro, que esperara com os batedores. Joviais, comentaram a glória da matança e contaram o conteúdo da sacola. Havia uma lebre, um par de codornizes e o faisão. Toranaga dispensou o falcoeiro e os batedores, mandou-os de volta ao acampamento com todos os falcões. Seus guardas esperavam.
Então voltou a atenção para Naga.
- E então?
Naga ajoelhou-se ao lado do cavalo dele, curvou-se.
- O senhor está completamente correto... no que disse a meu respeito. Peço desculpas por tê-lo ofendido.
- Mas não por me dar mau conselho?
- Eu... eu lhe imploro que me ponha com alguém que possa me ensinar, de modo que eu nunca faça isso. Não quero nunca dar-lhe mau conselho, nunca.
- Ótimo. Você passará uma parte do dia, todos os dias, com o Anjin-san, aprendendo o que ele sabe. Ele pode ser um dos seus professores.
- Ele?
- Sim. Isso pode ensinar-lhe um pouco de disciplina. E se conseguir enfiá-la nessa rocha que tem entre as orelhas para ouvir, certamente aprenderá coisas de valor para si mesmo. Poderia até aprender alguma coisa de valor para mim.
Naga fitava o chão sombriamente.
- Quero que você saiba tudo o que ele sabe sobre armas, canhões e a arte da guerra. Você se tornará o meu especialista. Sim. E quero que seja um bom especialista.
Naga não disse nada.
- E quero que se torne amigo dele.
- Como posso fazer isso, senhor?
- Por que você não pensa num modo? Por que não usa a sua cabeça?
- Tentarei. Juro que tentarei.
- Quero que faça melhor do que isso. Ordeno-lhe que seja bem sucedido. Use um pouco de "caridade cristã". Deve ter aprendido o suficiente para fazer isso. Neh?
Naga carregou o sobrolho.
- Isso é impossível de aprender, por mais que eu tenha tentado. É verdade! Tudo o que Tsukkusan falou foi dogma e absurdos que fariam qualquer homem vomitar. Cristianismo é para camponeses, não para samurais. Não mate, não tome mais de uma mulher, e cinqüenta outras tolices! Obedeci ao senhor então e obedecerei agora. Eu sempre obedeço! Por que não me deixar fazer as coisas que eu posso, senhor? Torno-me cristão se é isso o que o senhor deseja, mas não posso acreditar nisso... é tudo um monte de... peço desculpas. Vou me tornar amigo do Anjin-san.
- Ótimo. E lembre-se de que ele vale vinte mil vezes o próprio peso em seda crua, e tem mais conhecimento do que você jamais terá em vinte vidas.
Naga se mantinha sob controle e assentiu respeitoso, aquiescendo.
- Ótimo. Você comandará dois batalhões, Omi-san mais dois, e um ficará de reserva, com Buntaro.
- E os outros quatro, senhor?
- Não temos armas suficientes para eles. Foi um estratagema para confundir o faro de Yabu - disse Toranaga, atirando um bocado ao filho.
- Senhor?
- Foi só uma desculpa para trazer mais mil homens para cá. Não vão chegar amanhã? Com dois mil homens, posso defender Anjiro e escapar, se for necessário. Neh?
- Mas Yabu-san ainda pode... - Naga engoliu o comentário, sabendo que mais uma vez ia fazer um julgamento errado.
- Por que é que sou, tão estúpido? - perguntou amargurado.
- Por que não consigo ver as coisas como o senhor? Ou como Sudara-san? Quero ajudar, ser de valor. Não quero provocá-lo o tempo todo.
- Então aprenda paciência, meu filho, e refreie o seu temperamento. O seu tempo virá logo.
- Senhor?
Toranaga ficou subitamente cansado de ser paciente. Olhou para o céu.
- Acho que vou dormir um pouco.
Imediatamente Naga tirou a sela e a manta do cavalo, e estendeu-as no chão como cama de samurai. Toranaga agradeceulhe e observou suas sentinelas. Quando se certificou de que estava tudo correto e seguro, deitou-se e fechou os olhos.
Mas não queria dormir, apenas pensar. Sabia que era um sinal extremamente mau ele ter perdido a calma. Você tem sorte de ter sido apenas diante de Naga, que não entende nada de nada, disse a si mesmo. Se isso tivesse acontecido perto de Omi, ou de Yabu, eles teriam percebido imediatamente que você está quase louco de preocupação. E tal conhecimento poderia facilmente induzi-los à traição. Você teve sorte desta vez. Tetsu-ko ajudou a colocar tudo nas devidas proporções. Não fosse ela, você poderia ter deixado outros presenciarem a sua cólera e isso teria sido insanidade.
Que belo vôo! Aprenda com ela. Naga tem que ser tratado como um falcão. Ele não guincha e se debate como o melhor dos falcões? O único problema de Naga é que está sendo lançado contra a caça errada. Sua caça é o combate e a morte repentina, o ele terá isso dentro de muito breve.
A ansiedade de Toranaga começou a voltar. O que estará acontecendo em Osaka? Calculei pessimamente o comportamento dos daimios - quem aceitaria e quem rejeitaria a convocação. Por que não fui informado? Estou sendo traído? Tantos perigos ao meu redor...
E o Anjin-san? É um falcão também. Mas ainda não está domado, como alegam Yabu e Mariko. Qual é a presa dele? É o Navio Negro, o anjin Rodrigues, o feio e arrogante capitãozinho-mor que não vai durar muito tempo, todos os padres de hábito preto, todos os padres peludos e fedorentos, todos os portugueses, espanhóis e turcos, sejam estes quem forem, e islamitas, sejam quem forem, não esquecendo Omi, Yabu, Buntaro, Ishido e eu.
Toranaga virou-se para se pôr mais confortável e sorriu consigo mesmo. Mas o Anjin-san não é um falcão de asas longas, um gavião de engodo, que você faz voar acima de você para mergulhar sobre uma presa particular. É mais como um gavião de asas curtas, um gavião de punho, que você faz voar diretamente do punho para matar qualquer coisa que se mova, digamos um milhafre que pegará uma perdiz ou uma lebre com três vezes o próprio peso, ratos, gatos, cães, galinholas, estorninhos, gralhas-calvas, alcançando-os com pequenas arremetidas de uma velocidade fantástica para matar com uma única compressão das garras; o gavião que detesta o capuz e não o aceita; apenas se senta sobre o pulso, arrogante, perigoso, auto-suficiente, impiedoso, de olhos amarelos, um excelente amigo ou de um traiçoeiro mau humor, dependendo do momento.
Sim, o Anjin-san é um asas-curtas. Contra quem eu o lanço?
Omi? Ainda não.
Yabu? Ainda não.
Buntaro?
Por que será, na realidade, que o Anjin-san foi atrás de Buntaro com pistolas? Por causa de Mariko, claro. Mas será que "travesseiraram"? Tiveram muitas oportunidades. Acho que sim. "Pródigo", disse ela naquele dia. Nada de errado no "travesseiro" deles - Buntaro era tido como morto -, desde que seja um segredo perpétuo. Mas o Anjin-san foi estúpido de se arriscar tanto pela mulher de outro homem. Não há sempre mil outras, livres e intocadas, igualmente bonitas, igualmente pequenas ou grandes, excelentes ou raras, ou bem-nascidas ou seja o que for, sem o risco de pertencerem a mais alguém? Agiu como um bárbaro estúpido e ciumento. Lembra-se do anjin Rodrigues? Não duelou e matou outro bárbaro, de acordo com o costume deles, só para tomar a filha de um mercador de classe baixa, com quem depois se casou em Nagasaki? O taicum não deixou esse assassinato impune, contra o meu conselho, porque era apenas a morte de um bárbaro e não de um dos nossos? Estupidez ter duas leis, uma para nós, outra para eles. Devia haver apenas uma. Tem que haver apenas uma lei.