Não, não vou lançar o Anjin-san contra Buntaro. Preciso desse imbecil. Mas tenham aqueles dois "travesseirado" ou não, espero que o pensamento nunca ocorra a Buntaro. Caso ocorresse eu teria que eliminá-lo rapidamente, pois força alguma na terra o impediria de matar o Anjin-san e Mariko-san, e eu preciso deles mais do que de Buntaro. Devo eliminar Buntaro agora?
No momento em que Buntaro ficara sóbrio, Toranaga mandara chamá-lo.
- Como se atreve a colocar o seu interesse diante do meu? Quanto tempo Mariko-san permanecerá incapaz de interpretar?
- O médico disse alguns dias, senhor. Peço desculpas por todo o incômodo!
- Deixei bem claro que precisava dos serviços dela por mais vinte dias. Não se lembra?
- Sim. Sinto muito.
- Se ela lhe desagradou, alguns tapas nas nádegas seriam mais que suficientes. Toda mulher precisa disso de vez em quando, mas mais do que isso é grosseria. Egoisticamente você pos em perigo o treinamento e comportou-se como um camponês bovino.
Sem ela não posso conversar com o Anjin-san.
- Sim. Eu sei, senhor. Desculpe. Foi a primeira vez que bati nela. É só que... às vezes ela me põe louco, tanto que... que parece que não consigo enxergar.
- Por que não se divorcia, então? Ou a manda embora? Ou a mata, ou lhe ordena que corte a garganta quando eu não tiver mais uso para ela?
- Não posso. Não posso, senhor - dissera Buntaro. - Ela é... eu a desejei desde o primeiro instante em que a vi. Quando nos casamos, a primeira vez, ela foi tudo o que um homem poderia desejar. Pensei ter sido abençoado... o senhor se lembra de como cada daimio do reino a queria! Depois... depois mandei-a embora para protegê-la, após o vil assassinato, fingindo estar desgostoso com ela pela sua segurança, e depois, quando o taicum me disse que a trouxesse de volta, anos mais tarde, ela me excitava ainda mais. A verdade é que eu esperava que ela fosse grata, e tornei-a como um homem o faz, sem me importar com essas coisinhas que uma mulher quer, como poemas e flores. Mas ela havia mudado. Estava tão fiel como sempre, mas apenas gelo, sempre pedindo a morte, que eu a matasse. Buntaro estava fora de si. - Não posso matá-la nem permitir-lhe que se mate. Ela maculou o meu filho e me fez detestar outras mulheres, mas não consigo me livrar dela. Eu... eu tentei ser gentil, mas o gelo está sempre lá e isso me enlouquece. Quando voltei da Coréia e fui informado de que ela se convertera a essa absurda religião cristã, achei graça, pois o que importa qualquer religião estúpida? Eu ia arreliá-la sobre isso, mas antes que soubesse o que estava acontecendo eu já estava com a faca na garganta dela e jurando que a cortaria se ela não renunciasse à religião. Claro que ela não renunciaria, que samurai o faria sob tal ameaça, neh? Simplesmente olhou-me com aqueles seus olhos e me disse que prosseguisse. "Por favor, corte-me, senhor", disse ela. "Pronto, deixe-me inclinar a cabeça para trás para o senhor. Rezo a Deus para sangrar até a morte." Não a degolei, senhor. Tomei-a. Mas cortei o cabelo e as orelhas de algumas das damas que a haviam encorajado a tornar-se cristã e expulsei-as do castelo. E fiz o mesmo com a mãe adotiva dela, e também cortei o nariz daquela velha bruxa repulsiva! E depois Mariko disse que, como... como eu havia punido as suas damas, na próxima vez em que fosse à sua cama sem ser convidado ela cometeria seppuku, do modo que pudesse, imediatamente... apesar do dever para com o senhor, apesar do dever para com a família, mesmo apesar do... dos mandamentos do Deus cristão dela! - Lágrimas de cólera escorriam-lhe despercebidas pelas faces. - Não posso matá-la, por mais que deseje. Não posso matar a filha de Akechi Jinsai por mais que ela o mereça...
Toranaga deixara Buntaro falar até ficar esgotado, depois dispensara-o, ordenando-lhe que ficasse totalmente longe de Mariko até que ele considerasse o que devia ser feito. Enviou o seu médico pessoal para examiná-la. O relatório foi favoráveclass="underline" escoriações, mas nenhum dano interno.
Pela sua própria segurança, porque esperava traição e a areia do tempo estava correndo, Toranaga resolveu aumentar a pressão sobre todos eles. Ordenou que Mariko fosse para a casa de Omi, que ficasse dentro dos limites da casa e completamente fora do caminho do Anjin-san. Depois convocara o Anjin-san e fingira irritação, quando era claro que os dois mal podiam conversar, dispensando-o peremptoriamente. O treinamento todo foi intensificado. Pelotões foram enviados em marchas forçadas. Naga recebeu ordem de levar junto o Anjin-san e fazê-lo andar até cair. Mas Naga não conseguiu derrubá-lo.
Então ele mesmo tentou. Comandou um batalhão durante onze horas pelas colinas. O Anjin-san agüentou, não com a fileira da frente, mas agüentou. De volta a Anjiro, o Anjin-san dissera na sua algaravia quase incompreensível, quase incapaz de se manter em pé:
- Toranaga-sama, eu andar posso. Eu armas treinamento posso. Sinto muito, não possível dois ao mesmo tempo, neh?
Toranaga sorria agora, deitado sob o céu nublado, esperando pela chuva, animado pelo jogo de domar Blackthorne. Ele é um asas-curtas. Mariko é igualmente vigorosa, igualmente inteligente, mas mais brilhante, e tem uma falta de piedade que ele nunca terá. Ela é como um peregrinus, como Tetsuko. O melhor. Por que será que a fêmea do falcão é sempre maior, mais veloz e mais forte do que o macho, sempre melhor do que o macho?
São todos gaviões - ela, Buntaro, Yabu, Omi, Ochiba, Naga e todos os meus filhos, filhas, mulheres e vassalos, e todos os meus inimigos -, todos gaviões, ou presa para gaviões.
Preciso pôr Naga em posição bem acima da sua presa e deixá-lo se arremessar. Quem deveria ser? Omi ou Yabu?
O que Naga disse sobre Yabu é verdade.
- Então, Yabu-san, o que decidiu? - perguntara ele no segundo dia.
- Não vou a Osaka até que o senhor vá. Ordenei que Izu inteira se mobilizasse.
- Ishido o impedirá.
- Ele o impedirá primeiro, senhor, e se o Kwanto cair, Izu cai. Fiz um acordo solene com o senhor. Estou do seu lado. Os Kasigi honram os seus acordos.
- Fico igualmente honrado em tê-lo como aliado - mentira ele, satisfeito de que Yabu tivesse feito, mais uma vez, o que ele planejara que fizesse.
No dia seguinte Yabu reunira uma tropa e pedira-lhe que a revistasse e então, diante de todos os seus homens, ajoelhara-se formalmente e se oferecera como vassalo.
- Reconhece-me como seu senhor feudal? - perguntara Toranaga.
- Sim. E todos os homens de Izu. E, senhor, por favor, aceite este presente como um símbolo de dever filial. - Ainda de joelhos, Yabu lhe estendera a espada Murasama. - Esta é a espada que assassinou seu avô.
- Não é possível!
Yabu contara-lhe a história da espada, como viera até ele através dos anos e como, apenas recentemente, ele soubera da sua verdadeira identidade. Toranaga mandara chamar Suwo. O velho contara-lhe o que testemunhara quando não era mais que um menino.
- É verdade, senhor - dissera com orgulho. - Nenhum homem viu o pai de Obata quebrar a espada ou atirá-la no mar. E juro, pela minha esperança de renascer samurai, que servi a seu avô, o Senhor Chikitada. Servi a ele fielmente até o dia em que morreu. Eu estava lá, juro.
Toranaga aceitara a espada. Ela pareceu estremecer com malignidade na sua mão. Ele sempre zombara da lenda de que certas espadas possuíam uma urgência própria de matar, que algumas espadas precisavam saltar da bainha para beber sangue, mas agora Toranaga acreditava nisso.
Estremeceu, lembrando-se daquele dia. Por que as lâminas Murasama nos odeiam? Uma matou meu avô. Outra quase me cortou o braço quando eu tinha seis anos, um acidente inexplicado, ninguém por perto, mas ainda assim o meu braço direito foi atingido e quase até a morte. Uma terceira decapitou meu primeiro filho.