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- Senhor - dissera Yabu -, esta lâmina infame não devia poder viver, neh? Deixe-me atirá-la ao mar, a fim de que pelo menos esta não possa nunca ameaçar o senhor ou os seus descendentes.

- Sim ... sim - resmungara ele, grato por Yabu ter feito a sugestão. - Faça isso agora! - E foi só quando a espada afundou, bem profundamente, testemunhada pelos seus próprios homens, que seu coração recomeçara a bater normalmente. Agradecera a Yabu, ordenara que os impostos fossem estabilizados em sessenta partes para os camponeses, quarenta para os seus senhores, e dera-lhe Izu como feudo. Portanto, continuava tudo como antes, exceto que agora o poder todo em Izu pertencia a Toranaga, se ele desejasse torná-lo de volta.

Toranaga virou-se para abrandar a dor no braço da espada e se acomodou mais confortavelmente, saboreando o contato com a terra, ganhando forças dela, como sempre.

Aquela lâmina se foi, para nunca mais voltar. Ótimo, mas lembre-se do que o velho adivinho chinês predisse, pensou ele: que você morreria pela espada. Mas espada de quem, e seria pela minha própria mão ou pela de outro?

Saberei quando souber, disse-se ele, sem medo.

Agora durma. Karma é karma. Seja de Zen. Lembre-se, em tranqüilidade, de que o Absoluto, o Tao, está dentro de você, que nenhum padre, culto, dogma, livro, dito, ensino ou professor se ergue entre você e ele. Saiba que o Bem e o Mal são irrelevantes, e Eu e Você irrelevantes, Dentro e Fora irrelevantes, assim como a Vida e a Morte. Entre na Esfera onde não há medo da morte nem esperança de pós-vida, onde você é livre dos obstáculos da vida ou de necessidades de salvação. Você é, em si mesmo, o Tao. Seja você, agora, uma rocha contra a qual as ondas da vida se lançam em vão...

O grito débil trouxe Toranaga de volta da sua meditação e ele se pôs de pé com um salto. Naga apontava excitadamente para oeste. Todos os olhos seguiram-lhe a indicação.

O pombo-correio voava em linha reta para Anjiro, vindo do oeste. Pousou esvoaçando numa árvore distante para descansar um momento, depois levantou vôo de novo quando a chuva começou a cair.

Longe a oeste, no rastro do pombo, ficava Osaka.

CAPÍTULO 37

O tratador dos pombos segurou o pássaro gentilmente, mas com firmeza, enquanto Toranaga despia as roupas encharcadas. Galopara de volta sob o aguaceiro. Naga e outros samurais ansiosamente se aglomeravam junto à pequena porta, sem se preocupar com a chuva quente que ainda caía torrencialmente, tamborilando sobre o telhado de telhas.

Cuidadosamente Toranaga enxugou as mãos. O homem estendeu o pombo. Dois cilindros minúsculos, de prata, estavam presos a cada uma de suas pernas. O normal teria sido um. Toranaga teve que se esforçar muito para que os dedos não tremessem nervosamente. Desamarrou os cilindros e levou-os à luz da janela, abrindo para examinar os lacres diminutos. Reconheceu o código secreto de Kiri. Naga e os outros observavam tensos. Seu rosto não revelou nada.

Toranaga não rompeu os lacres imediatamente, embora tivesse muita vontade. Pacientemente esperou até que lhe trouxessem um quimono seco. Um criado segurou um grande guarda-chuva de papel oleado para ele, que se dirigiu para os seus aposentos na fortaleza. Havia sopa e chá à sua espera. Tomou-os e ouviu a chuva. Quando se sentiu calmo, postou guardas e se dirigiu para um aposento interno. Sozinho, quebrou os lacres. O papel dos quatro rolos era muito fino, os caracteres minúsculos, a mensagem longa e em código. A decodificação foi laboriosa. Quando ficou completa, ele leu a mensagem e releu-a duas vezes. Depois deixou a mente vagar.

A noite chegou. A chuva parou. Oh, Buda, deixe a colheita ser boa, orou ele. Aquela era a estação em que os campos férteis estavam sendo irrigados e, por todo o país, as mudas verde pálidas de arroz estavam sendo plantadas nos campos livres de ervas daninhas, quase líquidos, para serem colhidas nos meses seguintes, dependendo do tempo. E, por todo o país, o pobre e o rico, eta e imperador, criado e samurai, todos oravam para que houvesse apenas a quantidade certa de chuva, de sol, de umidade, corretamente, na estação. E cada homem, mulher e criada contava os dias que faltavam para a colheita.

Precisaremos de uma grande colheita este ano, pensou Toranaga.

- Naga! Naga-san!

O filho veio correndo.

- Sim, Pai?

- À primeira hora após o amanhecer, leve Yabu-san e seus conselheiros ao planalto. Buntaro também, e nossos três capitães mais velhos. E Mariko-san. Leve-os todos ao amanhecer. Marikosan pode servir chá. Sim. E quero o Anjin-san de prontidão no acampamento. Os guardas devem nos cercar a duzentos passos de distância.

- Sim, Pai. - Naga deu-lhe as costas para obedecer. Incapaz de se conter, falou sem pensar: - É a guerra? É?

Como Toranaga precisava de um arauto de otimismo pela fortaleza, não repreendeu o filho pela impertinência indisciplinada.

- Sim - disse ele. - Sim... mas nos meus termos.

Naga fechou a shoji e saiu em disparada. Toranaga sabia que, embora o rosto e os modos de Naga agora estivessem externamente compostos, nada dissimularia a animação no seu caminhar, nem o fogo por trás dos seus olhos. Então o boato atravessaria Anjiro, para se espalhar rapidamente por toda Izu e além dela, se os fogos fossem adequadamente alimentados.

- Estou comprometido agora - disse alto para as flores que se erguiam serenas no takonoma, as sombras esvoaçando à agradável luz de vela.

Kiri tinha escrito:

Senhor, rezo a Buda para que esteja bem e seguro. Este é o nosso último pombo-correio, por isso também rezo a Buda para que o guie até o senhor - traidores mataram todos os outros na noite passada, incendiando o viveiro, e este escapou apenas porque esteve doente e eu vinha cuidando dele separadamente.

Ontem de manhã o Senhor Sugiyama repentinamente renunciou, exatamente conforme o planejado. Mas antes que pudesse completar a sua fuga, foi emboscado nos arredores de Osaka pelos ronins de Ishido. Infelizmente alguns membros da família de Sugiyama também foram apanhados com ele - ouvi dizer que ele foi traído por um dos seus. Corre o boato de que Ishido ofereceu-lhe um compromisso: se o Senhor Sugiyama retardasse a renúncia até depois de o conselho de regentes se reunir (amanhã), de modo que o senhor pudesse ser legalmente impedido, em troca Ishido garantia que o conselho daria formalmente a Sugiyama o Kwanto inteiro e, como mostra de boa fé, Ishido soltaria a ele e à família imediatamente. Sugiyama recusou traí-lo. Imediatamente Ishido ordenou aos etas que o convencessem. Torturaram-lhe os filhos, depois a consorte, na sua frente, mas ele resistiu. Tiveram todos mortes ruins. A dele, a última, foi péssima.

Naturalmente não houve testemunhas dessa traição e é tudo boato, mas eu acredito. Claro que Ishido nega qualquer conhecimento dos assassinatos ou participação nos crimes, jurando que vai dar caça aos “assassinos”. Primeiro Ishido alegou que Sugiyama nunca renunciara realmente, portanto, na sua opinião, o conselho ainda podia se reunir. Mandei cópias da renúncia de Sugiyama aos outros regentes, Kiyama, Ito e Onoshi, e mandei outra, abertamente, a Ishido, e fiz circular mais quatro cópias entre os daimios. (Que inteligente de sua parte, Tora-chan, saber que cópias extras seriam necessárias.) Assim, desde ontem, exatamente como o senhor planejou com Sugiyama, o conselho legalmente não existe mais - nisso o senhor teve êxito completo.

Boas notícias: o Senhor Mogami deixou a cidade em segurança, com toda a família e samurais. Agora é abertamente aliado seu, portanto o seu flanco a extremo-nordeste está seguro. Os senhores Maeda, Kukushima, Asano, Ikeda e Okudiara escaparam todos de Osaka na noite passada, para a segurança - o senhor cristão, Oda, também.