- É a sua única chance, Yabu-sama - instara Omi. - O único meio de evitar a armadilha de Toranaga e conseguir espaço para manobrar...
Igurashi interrompera furiosamente.
- É melhor cair em cima de Toranaga hoje, enquanto ele tem poucos homens aqui! É melhor matá-lo e levar-lhe a cabeça a Ishido enquanto há tempo.
- É melhor esperar, é melhor ser paciente...
- O que acontece se Toranaga ordenar ao nosso amo que entregue Izu? - gritara Igurashi. - De suserano a vassalo, Toranaga tem esse direito!
- Ele nunca fará isso. Precisa do nosso amo mais do que nunca agora. Izu protegê-lhe a porta sudeste. Ele não pode ter lzu hostil! Tem que ter o nosso amo do Ia...
- E se ele ordenar ao Senhor Yabu que saia?
- Revoltamo-nos! Matamos Toranaga, se estiver aqui, ou combatemos com qualquer exército que ele envie contra nós. Mas ele nunca fará isso, não vê? Sendo ele seu vassalo, Toranaga deve proteger...
Yabu deixara-os discutir e depois, finalmente, vira a sabedoria de Omi.
- Muito bem. Concordo! E ofereço-lhe minha lâmina Murasama para firmar a cordialidade do acordo, Omisan - regozijara-se ele, tomado sinceramente pela astúcia do plano. - Sim. Cordialidade. A lâmina Yoshimoto a substitui mais do que bem. E naturalmente, sou mais valioso para Toranaga agora do que nunca. Omi tem razão, Igurashi! Não tenho escolha. Estou comprometido com Toranaga daqui em diante. Um vassalo!
- Até que a guerra chegue - dissera Omi deliberadamente.
- Claro. Claro, só até que a guerra chegue! Aí posso mudar de lado - ou fazer uma dúzia de coisas. Tem razão, Omi-san, novamente!
Omi é o melhor conselheiro que já tive, disse-se ele. Mas o mais perigoso. É inteligente o bastante para tomar Izu se eu morrer. Mas o que importa isso? Estamos todos mortos.
- O senhor está completamente bloqueado - disse ele a Toranaga. - Está isolado.
- Há alguma alternativa? - perguntou Toranaga.
- Desculpe-me, senhor - disse Omi -, mas quanto tempo levaria para preparar esse ataque?
- Está pronto agora.
- Izu também está pronta, senhor - disse Yabu. - Os seus cem mil e os meus dezesseis mil, e o Regimento de Mosquetes. Isso basta?
- Não. Céu Carmesim é um plano de desespero... tudo arriscado num único ataque.
- O senhor tem que arriscar, assim que a chuva cesse e possamos guerrear - insistiu Yabu. - Que escolha o senhor tem?
Ishido formará um novo conselho imediatamente, eles ainda têm o mandato. Então o senhor será impedido, hoje ou amanhã ou no dia seguinte. Por que esperar para ser devorado? Ouça, talvez o regimento pudesse abrir um caminho através das montanhas! Que seja Céu Carmesim! Todos os homens lançados num grande ataque. É o Caminho do Guerreiro, digno de samurai, Toranagasama. Os atiradores, os nossos atiradores vão mandar Zataki pelos ares, para fora do nosso caminho, e, tenha o senhor êxito ou não, que importa? A tentativa viverá para sempre!
- Sim - disse Naga. - Mas nós venceremos... venceremos! - Alguns capitães assentiram em aquiescência, aliviados de que a guerra tivesse chegado. Omi não disse nada.
Toranaga estava olhando para Buntaro.
- Bem?
- Senhor, rogo-lhe que me dispense de lhe dar uma opinião. Meus homens e eu faremos qualquer coisa que o senhor decida. Esse é o meu único dever. A minha opinião não tem valor para o senhor, porque faço o que o senhor decidir sozinho.
- Normalmente eu aceitaria isso, mas hoje não!
- Guerra, então. O que Yabu-san diz está certo. Vamos para Kyoto. Hoje, amanhã, ou quando a chuva parar. Céu Carmesim! Estou cansado de esperar.
- Omi-san? - perguntou Toranaga.
- Yabu-sama está certo, senhor. Ishido contornará a vontade do taicum para designar um novo conselho muito em breve. O novo conselho terá o mandato do imperador. Seus inimigos aplaudirão e muitos dos seus amigos hesitarão e por isso o trairão. O novo conselho o impedirá imediatamente. Então...
- Então é Céu Carmesim? - interrompeu Yabu.
- Se o Senhor Toranaga ordenar, será. Mas não acho que a ordem de impedimento tenha qualquer valor em absoluto. O senhor pode esquecê-la.
- Por quê? - perguntou Toranaga, enquanto todas as atenções se voltavam para Omi.
- Concordo com o senhor. Ishido é mau, neh? Todos os daimios que concordam em servir a ele são igualmente maus. Homens de verdade conhecem Ishido pelo que ele é, e também sabem que o imperador foi novamente logrado. - Prudentemente Omi estava avançando por sobre areias movediças que ele sabia que podiam engoli-lo. - Acho que ele cometeu um engano duradouro assassinando o Senhor Sugiyama. Por causa desses assassinatos abomináveis, acho que agora todos os daimios suspeitarão de traição por parte de Ishido, e muito poucos fora da influência imediata de Ishido se curvarão às ordens do "conselho" dele. O senhor está a salvo. Por um tempo.
- Por quanto tempo?
- As chuvas estão conosco por dois meses, mais ou menos. Quando as chuvas cessarem, Ishido planejará lançar Ikawa Jikkyu e o Senhor Zataki simultaneamente contra o senhor, para pegá-lo numa manobra de torques, e o exército principal de Ishido os apoiará pela estrada Tokaido. Enquanto isso, até que as chuvas cessem, cada daimio que tenha algum rancor contra outro daimio só prestará serviços a Ishido aparentemente até que ele faça o primeiro movimento, então acho que eles o esquecerão e todos tomarão vingança ou se apoderarão de território, conforme o capricho de cada um. O império será dilacerado, como foi antes do taicum. Mas o senhor, juntamente com Yabu-sama, com sorte terá força suficiente para defender as passagens para o Kwanto e para Izu contra a primeira onda e rechaçá-la. Não creio que Ishido poderia organizar outro ataque, não um grande ataque. Quando Ishido e os outros tiverem gastado as energias, o senhor e o Senhor Yabu podem cautelosamente surgir por detrás das nossas montanhas e gradualmente tomar o império nas próprias mãos.
- Quando será isso?
- Quando seu filho nascer, senhor.
- Você está dizendo empreender uma batalha defensiva?
- perguntou Yabu desdenhosamente.
- Penso que, juntos, os senhores estão seguros atrás das montanhas. O senhor espera, Toranaga-sama. Espera até ter mais aliados. Defende as passagens. Isso pode ser feito! O General Ishido é mau, mas não estúpido para empenhar toda a força numa única batalha. Ficará escondido dentro de Osaka. Portanto, por enquanto não devemos usar o nosso regimento. Devemos reforçar a segurança e mantê-lo como uma arma secreta, apontada e sempre preparada, até que o senhor surja por detrás das suas montanhas. Mas agora acho que eu não chegaria sequer a vê-los utilizados. - Omi estava consciente dos olhos que o observavam. Curvou-se para Toranaga. - Por favor, desculpe-me por ter me estendido tanto, senhor.
Toranaga estudou-o, depois deu uma olhada no filho. Viu a excitação contida do jovem e soube que era tempo de lançá-lo contra a presa.
- Naga-san?
- O que Omi-san disse é verdade - disse Naga imediatamente, exultante. - Na maior parte. Mas digo que usemos os dois meses para reunir aliados, para isolar Ishido mais ainda, e quando as chuvas cessarem, atacar sem aviso - Céu Carmesim.
- Discorda da opinião de Omi-san sobre uma guerra prolongada? - perguntou Toranaga.
- Não. Mas isso não é... - Naga parou.
- Continue, Naga-san. Fale abertamente!
Naga calou a boca, o rosto branco.
- Ordeno-lhe que continue!
- Bem, senhor, ocorreu-me que... - Parou de novo, depois disse num jato só: - Essa não é a sua grande oportunidade de se tornar shogun? Se fosse bem sucedido tomando Kyoto e obtivesse o mandato, por que formar um conselho? Por que não requerer ao imperador que o fizesse shogun? Seria melhor para o senhor e melhor para o reino. - Naga tentou não deixar o medo transparecer na voz, pois estava falando em traição contra Yaemon o muitos samurais ali - Yabu, Omi, Igurashi e particularmente Buntaro - eram legalistas confessos. - Digo que o senhor devia ser shogun! - Voltou-se defensivamente para os outros: - Se esta oportunidade for perdida... Omi-san, tem razão quanto a uma longa guerra, mas digo que o Senhor Toranaga deve tomar o poder, dar poder! Uma longa guerra arruinará o império, vai quebrá-lo em mil fragmentos de novo! Quem deseja isso? O Senhor Toranaga deve ser shogun. Para se entregar o império a Yaemon, ao Senhor Yaemon, o reino precisa ser garantido antes! Nunca haverá outra oportunidade... - Suas palavras se arrastaram. Endireitou as costas, assustado porque dissera, mas contente por ter dito em público o que pensara sempre.