Toranaga suspirou.
- Nunca visei a tornar-me shogun. Quantas vezes tenho que dizer? Apóio o meu sobrinho Yaemon e a vontade do taicum. - Olhou para todos, um por um. Por último para Naga. O jovem estremeceu. Mas Toranaga disse gentilmente, chamando-o de volta à isca: - Apenas o seu zelo e a sua juventude desculpam isso. Infelizmente, muitas pessoas, mais velhas e mais sábias do que você, pensam que essa é a minha ambição. Não é. Há apenas um meio de solucionar esse absurdo, que é colocar o Senhor Yaemon no poder. E isso eu pretendo fazer.
- Sim, Pai. Obrigado. Obrigado - retrucou Naga em desespero.
Toranaga desviou os olhos para Igurashi.
- Qual é o seu conselho?
O samurai de um olho só coçou-se.
- Sou apenas um soldado, não um conselheiro, mas não aconselharia Céu Carmesim, não se podemos lutar nos nossos termos, como diz Omi-san. Combati em Shinano anos atrás. É uma região ruim, e naquela época o Senhor Zataki estava conosco. Eu não gostaria de combater em Shinano de novo, e nunca se Zataki fosse hostil. E se o Senhor Maeda é suspeito, bem, como o senhor pode planejar uma batalha se o seu maior aliado pode traí-lo? O Senhor Ishido colocará duzentos, trezentos mil homens contra o senhor e ainda manterá cem mil defendendo Osaka. Mesmo com os atiradores, não temos homens suficientes para atacar. Mas atrás das montanhas, usando as armas, o senhor poderia agüentar para sempre se acontecesse conforme Omi-san diz. Poderíamos defender os desfiladeiros. O senhor tem arroz suficiente - o Kwanto não abastece metade do império? Bem, um terço no mínimo - e poderíamos enviar-lhe todo o peixe de que necessitasse. O senhor estaria a salvo. Deixe o Senhor Íshido e o demônio Jikkyu virem a nós, se é para acontecer como Omi-san disse, que logo o inimigo estará se devorando entre si. Caso contrário, mantenha Céu Carmesim preparado. Um homem pode morrer pelo seu senhor apenas uma vez na vida.
- Alguém tem alguma coisa a acrescentar? - perguntou Toranaga. Ninguém respondeu. - Mariko-san?
- Não cabe a mim falar aqui, senhor - replicou ela. - Estou certa de que tudo o que devia ter sido dito foi dito. Mas posso ser autorizada a perguntar, por todos os conselheiros aqui, o que o senhor pensa que acontecerá?
Toranaga escolheu as palavras deliberadamente.
- Acho que o que Omi-san prognosticou acontecerá. Com uma exceção: o conselho não será impotente. O conselho exercerá influência suficiente para reunir uma invencível força aliada. Quando as chuvas cessarem, essa força será atirada contra o Kwanto, flanqueando Izu. O Kwanto será engolido, depois Izu. Só depois de eu estar morto é que os daimios lutarão entre si.
- Mas por quê, senhor? - arriscou Omi.
- Porque tenho inimigos em excesso, sou dono do Kwanto, combati por mais de quarenta anos e nunca perdi uma batalha. Todos têm medo de mim. Eu sei que primeiro os abutres se reunirão para me destruir. Depois se destruirão mutuamente, mas primeiro se juntarão para me destruir, se puderem. Saibam todos vocês, claramente, que eu sou a única ameaça a Yaemon, embora não seja ameaça em absoluto. Essa é a ironia da história. Todos acreditam que quero ser shogun. Não quero. Esta é outra guerra completamente desnecessária!
Naga rompeu o silêncio.
- Então o que vai fazer, senhor?
- Hein?
- O que vai fazer?
- Obviamente, Céu Carmesim - disse Toranaga.
- Mas o senhor disse que eles nos devorariam.
- Eles fariam isso... se eu lhes desse tempo. Mas não vou lhes dar tempo algum. Vamos à guerra imediatamente!
- Mas as chuvas... e'as chuvas?
- Chegaremos a Kyoto molhados. Acalorados, fedendo e molhados. Surpresa, mobilidade, audácia e tempo vencem guerras, neh? Yabu-san estava certo. Os atiradores abrirão um caminho através das montanhas.
Durante uma hora eles discutiram planos e a exeqüibilidade da guerra em larga escala na estação chuvosa - uma estratégia inaudita. Depois Toranaga mandou-os embora, exceto Mariko, dizendo a Naga que mandasse o Anjin-san para lá. Observou-os se afastando. Tinham ficado aparentemente entusiasmados, depois de anunciada a decisão, particularmente Naga e Buntaro. Apenas Omi ficara reservado, pensativo e não convencido. Toranaga descontou Igurashi pois sabia que o soldado faria apenas o que Yabu ordenasse, e dispensou Yabu como um fantoche, traiçoeiro certamente, mas ainda um fantoche. Omi é o único que vale alguma coisa, pensou. Pergunto a mim mesmo se ele já não adivinhou o que vou realmente fazer.
- Mariko-san. Descubra, com tato, quanto custaria o contrato da cortesã.
Ela piscou.
- Kiku-san, senhor?
- Sim.
- Agora, senhor? Imediatamente?
- Esta noite seria excelente. - Olhou-a, meigo. - O contrato dela não é necessariamente para mim, talvez para um dos meus oficiais.
- Imagino que o preço dependeria de quem, senhor.
- Imagino que sim, também. Mas estabeleça um preço. A garota naturalmente tem o direito de recusar, se quiser, quando o samurai for identificado, mas diga à sua proprietária que não espero que a garota tenha a má educação de desconfiar de minha escolha para ela. Diga também que Kiku é uma dama de primeira classe de Mishima, e não de Yedo ou Osaka ou Kyoto - acrescentou Toranaga cordialmente -, portanto espero pagar um preço de Mishima, e não preços de Yedo, Osaka ou Kyoto.
- Sim, senhor, naturalmente.
Toranaga moveu o ombro para abrandar a dor, mudando as espadas de posição.
- Posso fazer-lhe uma massagem, senhor? Ou mandar buscar Suwo?
- Não, obrigado. Verei Suwo mais tarde. - Toranaga levantou-se e aliviou-se com grande prazer, depois se sentou de novo. Estava usando um quimono de seda leve, azul-estampado, e as sandálias simples, de palha. O leque era azul e decorado com o seu emblema.
O sol estava baixo, nuvens de chuva formando-se pesadamente.
- É ótimo estar vivo - disse ele, feliz. - Quase posso ouvir a chuva esperando para nascer.
- Sim - disse ela.
Toranaga pensou um instante, depois disse um poema:
"O céu
Chamuscado pelo sol
Chora
Lágrimas fecundas".
Mariko obedientemente pôs a cabeça a funcionar para jogar com ele o jogo dos poemas, muito popular entre a maioria dos samurais, torcendo espontaneamente as palavras do poema que ele fizera, fazendo outro a partir do dele. Depois de um momento, disse:
"Mas a floresta
Ferida pelo vento
Chora
Folhas mortas".
- Bem dito! Sim, muito bem dito! - Toranaga olhou para ela contente, apreciando o que via. Ela estava vestida com um quimono verde-claro, com estampas de bambu, um obi verde-escuro e uma sombrinha laranja. Havia um reflexo maravilhoso no cabelo preto-azulado, que estava puxado para cima, sob o chapéu de aba larga. Ele se lembrou nostalgicamente de como todos eles - até o próprio ditador Goroda - a haviam desejado quando ela tinha treze anos e o pai, Akechi Jinsai, a apresentara pela primeira vez, a filha mais velha, na corte de Goroda. E como Nakamura, o futuro taicum, implorara ao ditador que a desse a ele, e depois como Goroda rira, e publicamente o chamara de "general macaquinho pernalonga", e lhe dissera: "Aferre-se à luta nas batalhas, camponês, não lute para feriar buracos patrícios!" Akechi Jinsai zombara abertamente de Nakamura, seu rival no favor de Goroda, a principal razão de Nakamura ter-se deliciado em destruí-lo. E a razão também de Nakamura ter-se deliciado de ver Buntaro sofrer durante anos, Buntaro, a quem a garota fora dada para cimentar uma aliança entre Goroda e Toda Hiromatsu. Será, perguntou-se Toranaga por travessura, olhando-a, que se Buntaro estivesse morto ela consentiria em ser uma das minhas consortes? Toranaga sempre preferira mulheres experientes, viúvas ou divorciadas, mas nunca bonitas demais, ou sábias, jovens ou bem-nascidas demais, de modo a nunca causarem problemas demais e serem sempre gratas.