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Casquinou consigo mesmo. Eu nunca a pediria porque ela é tudo o que eu não quero numa consorte - com exceção da idade, que é perfeita.

- Senhor? - perguntou ela.

- Estava pensando no seu poema, Mariko-san - disse ele, ainda mais brando. E acrescentou:

"Por que tão hibernal?

O verão ainda

Está por vir, e a queda do

Glorioso outono'.

Ela respondeu:

"Se eu pudesse usar palavras

Como folhas caindo,

Que fogueira

Meus poemas fariam!"

Ele riu e se curvou com humildade zombeteira.

- Concedo-lhe a vitória, Mariko-san. Qual será o favor? Um leque? Ou uma faixa para o cabelo?

- Obrigada, senhor - respondeu ela. - Sim, qualquer coisa que lhe agrade.

- Dez mil kokus por ano para o seu filho.

- Oh, senhor, não merecemos um favor assim!

- Você conquistou uma vitória. A vitória,e o dever devem ser recompensados. Que idade tem Saruji agora?

- Quinze ... quase quinze.

- Ah, sim... ele foi prometido a uma das netas do Senhor Kiyama recentemente, não foi?

- Sim, senhor. No décimo primeiro mês do ano passado, o mês da Geada Branca. Atualmente ele está em Osaka com o Senhor Kiyama.

- Bom. Dez mil kokus, a começar imediatamente. Mandarei a autorização com o correio de amanhã. Agora, basta de poemas, por favor dê-me a sua opinião.

- Minha opinião, senhor, é que estamos todos seguros nas suas mãos, assim como a terra está segura nas suas mãos.

- Quero que você fale a sério.

- Oh, mas estou falando sério, senhor. Agradeço-lhe pelo favor ao meu filho. Isso torna tudo perfeito. Acredito que tudo o que o senhor faça será certo. Por Nossa Senhora... sim, por Nossa Senhora, juro que acredito nisso.

- Ótimo. Mas ainda quero a sua opinião.

Imediatamente ela respondeu, sem qualquer receio, falando de igual para igual.

- Primeiro o senhor devia trazer o Senhor Zataki secretamente de volta para o seu lado. Suponho, aliás, que ou o senhor já sabe como fazer isso ou, mais provavelmente, tem um acordo secreto com o seu meio irmão, e sugeriu a misteriosa "deserção" dele para embalar Ishido numa posição falsa. Depois: o senhor nunca atacará primeiro. Nunca fez isso, sempre aconselhou paciência, e só ataca quando tem certeza de vencer, portanto o fato de estar ordenando Céu Carmesim publicamente é só mais uma manobra diversionista. Depois, tempo! Minha opinião é que o senhor deve fazer o que fará, fingir ordenar Céu Carmesim mas nunca desencadear. Isso lançará Ishido em confusão, porque, obviamente, os espiões aqui e em Yedo relatarão o seu plano, e ele terá que dispersar suas forças como um bando de perdizes, com um tempo péssimo, a fim de se preparar para uma ameaça que nunca se materializará. Enquanto isso o senhor passará os próximos dois meses reunindo aliados, para minar as alianças de Ishido e romper a coalizão dele, coisa que o senhor deve fazer por quaisquer meios. E, naturalmente, deve atrair Ishido para fora do Castelo de Osaka. Se não o fizer, senhor, ele vencerá ou, no mínimo, o senhor perderá o xogunato. O senhor...

- Já deixei minha posição sobre isso bem clara - vociferou Toranaga, já não achando graça. - E você perdeu a cabeça.

Despreocupada e feliz, Mariko continuou:

- Tenho que falar sobre segredos hoje, senhor, por causa dos reféns. O senhor está com uma faca no coração.

- O que pensa sobre eles?

- Seja paciente comigo, por favor, senhor. Pode ser que eu nunca mais seja capaz de falar-lhe no que o Anjin-san chamaria de "em particular num inglês franco", mas o senhor nunca esteve sozinho como estamos agora. Rogo-lhe que perdoe meus maus modos. - Mariko reuniu toda a sua astúcia e, surpreendentemente, continuou a falar de igual para igual. - Minha opinião absoluta é que Naga-san tinha razão. O senhor deve se tornar shogun, ou falhará no seu dever para com o império e para com os Minowara.

- Como se atreve a dizer uma coisa dessas?

Mariko permaneceu absolutamente serena, a cólera declarada dele não a afetando em nada.

- Aconselho-o a se casar com a Senhora Ochiba. Faltam oito anos até que Yaemon tenha idade suficiente para herdar legalmente. Isso é uma eternidade! Quem sabe o que poderia acontecer em oito meses, quanto mais em oito anos?

- Toda a sua família pode ser aniquilada em oito dias!

- Sim, senhor. Mas isso não tem nada a ver com o senhor e o seu dever, nem com o reino. Naga-san tem razão. O senhor deve tomar o poder para conceder poder. - Com uma gravidade zombeteira, acrescentou de modo esbaforido: - E agora a sua fiel conselheira pode cometer seppuku ou devo esperar para fazê-lo mais tarde? - e fingiu desmaiar.

Toranaga olhou apalermado a sua inacreditável insolência, depois explodiu numa gargalhada e martelou com o punho no chão. Quando conseguiu falar, disse:

- Nunca a entenderei, Mariko-san.

- Ah, mas o senhor entende - disse ela, enxugando com tapinhas a transpiração da testa. - O senhor é gentil em deixar esta vassala devotada fazê-lo rir, em ouvir-lhe as solicitações, em dizer o que deve ser dito, tinha que ser dito. Perdoe-me a impertinência, por favor.

- Por que deveria, hein? Por quê? - Toranaga sorriu, cordial de novo.

- Por causa dos reféns, senhor - disse ela simplesmente.

- Ah, eles! - Ele também ficou sério.

- Sim. Preciso ir a Osaka.

- Sim - disse ele. - Eu sei.

CAPÍTULO 38

Acompanhado de Naga, Blackthorne arrastava-se desconsoladamente colina abaixo, na direção das duas figuras sentadas sobre futons no centro do anel de guardas. Para além dos guardas estavam os contrafortes das montanhas que se elevavam para um céu coberto de nuvens. O dia estava sufocante. Sua cabeça doía devido à tristeza dos últimos dias, devido à preocupação com Mariko, e devido a fazer muito tempo que só podia conversar em japonês. Agora a reconhecia e parte da sua infelicidade desapareceu.

Fora muitas vezes à casa de Omi ver Mariko ou se informar sobre ela. Os samurais o fizeram sempre dar meia-volta, polida, mas firmemente. Omi lhe dissera como tomodachi, amigo, que ela estava bem.

— Não se preocupe, Anjin-san. Compreende?

— Sim — dissera ele, compreendendo apenas que não podia vê-la.

Então fora chamado por Toranaga e quisera lhe dizer muita coisa, mas por causa da sua falta de palavras falhara em fazer outra coisa que não irritá-lo. Fujiko fora ver Mariko várias vezes. Quando voltava sempre dizia que Mariko estava bem, acrescentando o inevitável "Shinpai suruna, Anjin-san. Wakarimasu? Não se preocupe, compreende?"

Com Buntaro fora como se nada houvesse jamais acontecido. Esboçavam saudações corteses quando se encontravam durante o dia. Além de usar ocasionalmente a casa de banho, Buntaro era como qualquer outro samurai em Anjiro, nem amistoso, nem inamistoso.

Do amanhecer ao pôr-do-sol Blackthorne fora acossado pelo treinamento acelerado. Tivera que eliminar a própria frustração enquanto tentava ensinar e se esforçava por aprender a língua. Ao crepúsculo estava sempre extenuado. Acalorado, transpirando e encharcado de chuva. E sozinho. Nunca se sentira tão só, tão consciente de não pertencer àquele mundo estranho.