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Então houvera o horror que começara três dias atrás. Fora um longo dia úmido. Ao pôr-do-sol ele cavalgara exausto para casa e imediatamente sentira que havia algum problema permeando pela casa. Fujiko o saudara nervosamente.

— Nan desu ka?

Ela respondera em voz baixa, longamente, de olhos baixos.

— Wakarimasen. Nan desu ka? — perguntou ele de novo, impaciente, a fadiga deixando-o irritável.

Ela o chamara com um gesto para o jardim. Apontou para os beirais do telhado, mas a armação lhe pareceu sólida o bastante. Mais palavras e sinais, e finalmente lhe ficara claro que ela estava apontando para o local onde ele pendurara o faisão.

— Oh, esqueci disso! Watashi... — Mas não conseguiu se lembrar de como dizer, então se limitou a dar de ombros, exausto. — Wakarimasu. Nan desu kiji ka? Compreendo. Que tal o faisão?

Os criados o espiavam de portas e janelas, visivelmente petrificados. Ela falou de novo. Ele se concentrou, mas as suas palavras não fizeram sentido algum.

— Wakarimasen, Fujiko-san. Não compreendo.

Ela tomou fôlego profundamente, depois, trêmula, imitou alguém removendo o faisão, levando-o embora e enterrando-o.

— Ahhhh! Wakarimasu, Fujiko-san. Wakarimasu! Estava ficando estragado? — perguntou. Como não sabia as palavras em japonês, apertou o nariz e fez como se estivesse sentindo mau cheiro.

— Hai, hai, Anjin-san. Dozo gomen nasal, gomen nasai. — Ela emitiu o som de moscas e, com as mãos, pintou o quadro de uma nuvem zumbindo.

— Ah so desu! Wakarimasu. — Em outra ocasião ele se teria desculpado e, se conhecesse as palavras, teria dito: sinto muito pelo inconveniente. Em vez disso sacudiu os ombros, aliviou a dor nas costas, e resmungou: — Shikata ga nai — querendo apenas mergulhar no êxtase do banho e da massagem, a única alegria que tornava a vida possível. — Que vá para o inferno — disse em inglês, voltando-se. — Se eu tivesse estado aqui durante o dia, teria notado isso. Que vá para o inferno!

— Dozo, Anjin-san?

— Shikata ga nai — repetiu mais alto.

— Ah so desu, arigato goziemashita.

— Dare toru desu ka? Quem o pegou?

— Ueki-ya.

— Oh, aquele velho sodomita!  — Ueki-ya, o jardineiro, o velho gentil e sem dentes que cuidava das plantas com as mãos amorosas e embelezava o jardim.

— Yoi. Motte kuru Ueki-ya. Ótimo, vá buscá-lo.

Fujiko meneou a cabeça. Seu rosto se tornara branco como giz.

— Ueki-ya shinda desu, shinda desu! — sussurrou ela.

— Ueki-ya ga shindato? Donoyoni? Doshité? Doshité shindanoda? Como? Por quê? Como ele morreu?

A mão dela apontou para o lugar onde o faisão estivera e falou muitas palavras gentis e incompreensíveis. Depois imitou o corte de uma espada.

— Jesus Cristo! Deus! Você condenou aquele velho à morte por causa de um maldito faisão fedorento?

Imediatamente todos os criados se precipitaram para o jardim e caíram de joelhos. Colocaram a cabeça no pó e se imobilizaram, até os filhos do cozinheiro.

— Que diabos está acontecendo? — Blackthorne estava quase encolerizado.

Fujiko esperou estoicamente até que estivessem todos lá, então também se ajoelhou e se curvou, como samurai, não como camponesa. — Gomen nasai, doto gomen na...

— Sífilis nos seus gomen nasai! Que direito tinha você de fazer isso? Hein? — e começou a cobri-la de impropérios, odiosamente. — Por que, em nome de Cristo, não me perguntou antes? Hein?

Ele lutou para recobrar o controle, cônscio de que todos os seus criados sabiam que legalmente ele podia retalhar Fujiko e todos eles em pedaços ali no jardim por terem lhe causado tanto dissabor, ou por nenhuma razão em absoluto, e que nem o próprio Toranaga poderia interferir no modo como ele conduzia a sua casa.

Viu que uma das crianças tremia de terror e pânico.

— Jesus Cristo do paraíso, dê-me forças... — Agarrou-se a um dos pilares para se firmar. — A culpa não é sua — exclamou, a voz estrangulada, sem perceber que não estava falando japonês. — É dela! É você! Sua cadela assassina!

Fujiko levantou os olhos lentamente. Viu o dedo acusador e o ódio no rosto dele. Sussurrou uma ordem à criada, Nigatsu.

Nigatsu balançou a cabeça e começou a suplicar.

— Ima!

A criada saiu correndo. Voltou com a espada mortífera, lágrimas escorrendo-lhe pela face. Fujiko pegou a espada e estendeu-a a Blackthorne com as duas mãos. Falou e, embora ele não conhecesse todas as palavras, sabia o que ela estava dizendo. — Sou responsável, por favor, tire-me a vida porque eu o desagradei.

— IYÉ! — Ele agarrou a espada e atirou-a longe. — Acha que isso vai trazer Ueki-ya de volta à vida?

Então, de repente, percebeu o que tinha feito e o que estava fazendo agora. — Oh, Jesus...

Foi embora. Em desespero dirigiu-se para o penhasco acima da aldeia, perto do santuário que ficava ao lado do velho cipreste, chorou.

Chorou porque um homem morrera desnecessariamente e porque sabia agora que fora ele quem o assassinara. — Senhor Deus, perdoe-me. Sou o responsável, não Fujiko. Eu o matei. Ordenei que ninguém tocasse no faisão além de mim. Perguntei-lhe se todos haviam compreendido e ela disse que sim. Dei a ordem com seriedade zombeteira, mas isso não importa agora. Eu dei as ordens, conhecendo a lei deles e sabendo qual era o costume. O velho desrespeitou a minha ordem estúpida, então o que mais Fujiko-san podia fazer? Sou eu quem deve ser acusado.

Com o tempo as lágrimas foram se esgotando. Era noite alta quando ele retornou à casa.

Fujiko o esperava como sempre, mas sozinha. A espada estava atravessada no colo dela. Ofereceu-a a ele.

— Dozo... dozo, Anjin-san.

— Iyé — disse ele, pegando a espada do modo como se devia pegar uma espada. — Iyé, Fujiko-san. Shikata ga nai, neh? Karma, neh? — Tocou-a com a mão como desculpas. Sabia que ela tivera que suportar o pior pela estupidez dele.

As lágrimas dela jorraram.

— Arigato, arigato go-gozaimashita, Anjin-san — disse ela entrecortadamente. — Gomen nasai...

O coração dele enterneceu-se.

Sim, pensou Blackthorne com grande tristeza, sim, mas isso não o desculpa nem elimina a humilhação dela, ou traz Ueki-ya de volta à vida. Você deve ser acusado. Devia ter pensado melhor...

— Anjin-san! — disse Naga.

— Sim? Sim, Naga-san? — Ele se arrancou do seu remorso, olhou para o jovem que caminhava ao seu lado. — Desculpe, que disse?

— Eu disse que esperava ser seu amigo.

— Ah, obrigado.

— Sim, e talvez o senhor... — Houve uma confusão de palavras que Blackthorne não compreendeu.

— Por favor?

— Ensinar, neh? Compreende "ensinar"? Ensinar sobre o mundo?

— Ah, sim, desculpe. Ensinar o quê, por favor?

— Sobre terras estrangeiras... terras lá de fora. O mundo, neh?

— Ah, compreendo agora. Sim, tentar.

Estavam perto dos guardas agora.

— Começar amanhã, Anjin-san. Amigos, neh?

— Sim, Naga-san. Tentar.

— Ótimo. — Muito satisfeito, Naga assentiu. Quando chegaram junto aos samurais, Naga ordenou-lhes que saíssem do caminho, fazendo sinal a Blackthorne que prosseguisse sozinho. Ele obedeceu, sentindo-se muito só no círculo de homens.

— Ohayo, Toranaga-sama.

— Ohayo, Mariko-san — disse, juntando-se a eles.

— Ohayo, Anjin-san. Dozo suwatte. Bom dia, Anjin-san, por favor, sente-se.

Mariko sorriu-lhe.

— Ohayo, Anjin-san. Ikaga desu ka?

— Yoi, domo. — Blackthorne retribuiu-lhe o olhar, muito contente de que ela estivesse ali. — A sua presença enche-me de alegria, de grande alegria — disse em latim.

— E a sua a mim... é muito bom vê-lo. Mas há uma sombra no senhor. Por quê?

— Nan ja? — perguntou Toranaga.

Ela lhe contou o que fora dito. Toranaga grunhiu, depois falou.