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— Meu amo diz que o senhor parece preocupado, Anjin-san. Devo concordar com ele. Ele pergunta o que o está perturbando.

— Não é nada. Domo, Toranaga-sama. Nani-mo. Não é nada.

— Nan ja? — perguntou Toranaga diretamente. — Nan ja?

Obedientemente Blackthorne respondeu de imediato:

— Ueki-ya — disse. — Hai, Ueki-ya.

— Ah so desu! — Toranaga falou longamente a Mariko.

— Meu amo diz que não há necessidade de se preocupar com o Velho Jardineiro. Ele me pede que lhe diga que oficialmente está tudo resolvido. O Velho Jardineiro compreendeu perfeitamente o que estava fazendo.

— Eu não compreendo.

— Sim, seria muito difícil para o senhor, mas, veja, Anjin-san, o faisão estava apodrecendo ao sol. As moscas estavam enxameando terrivelmente. A sua saúde, a saúde da sua consorte e a de toda a sua casa estavam sendo ameaçadas. Além disso, sinto muito, tinha havido algumas queixas muito cautelosas e particulares do criado-chefe de Omi-san, e de outros. Uma das nossas regras mais importantes é que o indivíduo não pode nunca perturbar a wa, a harmonia, do grupo, lembra-se? Por isso alguma coisa tinha que ser feita. Veja, a decomposição, o mau cheiro da decomposição, é revoltante para nós. É o pior odor do mundo para nós, sinto muito. Tentei lhe dizer, mas... bem, é uma das coisas que nos deixam a todos um pouco malucos. O seu criado chefe...

— Por que alguém não me procurou imediatamente? Por que alguém simplesmente não me disse? — perguntou Blackthorne. — O faisão não tinha importância alguma para mim.

— O que havia a dizer? O senhor tinha dado ordens. É o cabeça da sua casa. Eles não conheciam os seus costumes nem o que fazer, senão isso, procure entender o dilema de acordo com os nossos costumes. — Ela falou um instante a Toranaga, explicando o que Blackthorne dissera, depois voltou-se para ele de novo. — Isso o está afligindo? Quer que eu continue?

— Sim, por favor, Mariko-san.

— Tem certeza?

— Sim.

— Bem, então, o seu criado-chefe, o Pequeno Cozinheiro Dentuço, convocou uma reunião dos seus criados, Anjin-san. Mura, o chefe da aldeia, foi convidado a participar oficialmente. Decidiu-se que os etas da aldeia não podiam ser solicitados a levá-lo embora. Tratava-se apenas de um problema doméstico. Um dos criados tinha que pegá-lo e enterrá-lo, apesar de o senhor ter dado ordens absolutas de não mexerem no faisão. Obviamente a sua consorte era forçada pelo dever a providenciar que suas ordens fossem obedecidas. O Velho Jardineiro pediu para ter permissão de levá-lo embora. Ultimamente ele vinha vivendo e dormindo com grande sofrimento por causa do abdome, e achava muito fatigante ajoelhar-se, carpir e plantar, e não conseguia fazer esse trabalho de modo satisfatório para si mesmo. O Terceiro Cozinheiro Assistente também se ofereceu, dizendo que era muito jovem e estúpido, e que tinha certeza de que a vida não contava nada diante de um assunto tão grave. Finalmente, e o Velho Jardineiro recebeu a honra. Realmente foi uma grande honra, Anjin-san. Com grande solenidade, todos se curvaram para ele, que retribuiu a reverência, e alegremente levou a coisa embora e enterrou-a para grande alívio de todos.

"Quando voltou, dirigiu-se diretamente a Fujiko-san e disse-lhe o que fizera, que desobedecera à sua lei, neh? Ela lhe agradeceu por remover o perigo, depois disse-lhe que esperasse. Procurou-me para pedir conselho e perguntou-me o que devia fazer. O assunto fora resolvido formalmente, portanto teria que ser tratado formalmente. Eu lhe disse que não sabia, Anjin-san. Perguntei a Buntaro-san, mas ele também não sabia. Era complicado, por sua causa. Então ele perguntou ao Senhor Toranaga. O Senhor Toranaga viu a sua consorte pessoalmente."

Mariko voltou-se para Toranaga e contou-lhe em que ponto da história se encontrava, conforme ele solicitara. Toranaga falou rapidamente. Blackthorne observava-os, a mulher tão pequena, amável e atenta, o homem compacto, pétreo, o sash apertado em torno da grande cintura. Toranaga não falava com as mãos como muitos faziam, mas mantinha-as imóveis, a esquerda apoiada na coxa, a outra sempre no punho da espada.

— Hai, Toranaga-sarna. Hai. — Mariko olhou para Blackthorne e continuou. — Nosso amo pede-me que lhe explique, sinto muito, que se o senhor fosse japonês não teria havido dificuldade, Anjin-san. O Velho Jardineiro simplesmente teria se dirigido ao cemitério para receber sua libertação. Mas, por favor, perdoe-me, o senhor é um estrangeiro, embora o Senhor Toranaga o tenha feito hatamoto, um dos seus vassalos pessoais, e era uma questão de decidir se o senhor era legalmente samurai ou não. Fico honrada em lhe dizer que ele estabeleceu que o senhor é samurai e tem direitos de samurai. Portanto foi tudo resolvido imediatamente e simplificado. Um crime tinha sido cometido. Suas ordens tinham sido deliberadamente desobedecidas. A lei é clara. Não há opção. — Ela estava séria agora. — Mas o Senhor Toranaga conhece a sua suscetibilidade a matanças, então, para poupar-lhe o sofrimento, ordenou pessoalmente a um de seus samurais que enviasse o Velho Jardineiro para o Vazio.

— Por que alguém não me perguntou antes? Aquele faisão não significava nada para mim.

— O faisão não tem nada a ver, Anjin-san — explicou ela. — O senhor é o cabeça da casa. A lei diz que nenhum membro da sua casa pode desobedecer-lhe. O Velho Jardineiro deliberadamente infringiu a lei. O mundo todo cairia em pedaços se as pessoas fossem autorizadas a desconsiderar a lei. O seu...

Toranaga interrompeu e falou com ela. Ela ouviu, respondeu a algumas perguntas, depois ele lhe fez sinal que continuasse.

— Hai. O Senhor Toranaga quer que eu lhe assegure que providenciou pessoalmente para que o Velho Jardineiro tivesse a morte rápida, indolor e honrada que merecia. Até emprestou ao samurai a sua própria espada, que é muito afiada. E devo dizer-lhe que o Velho Jardineiro ficou muito orgulhoso de, em seus dias de outono, ser capaz de ajudar a sua casa, Anjin-san, orgulhoso por ter ajudado a estabelecer o seu status de samurai diante de todos. Acima de tudo ficou orgulhoso com a honra que lhe foi prestada. Os executores públicos não foram utilizados, Anjin-san. O Senhor Toranaga quer que eu deixe isso bem claro para o senhor.

— Obrigado, Mariko-san. Obrigado por deixar claro. — Blackthorne voltou-se para Toranaga, curvou-se muito corretamente. — Domo, Toranaga-sama, domo arigato. Wakarimasu. Domo.

Toranaga retribuiu a mesura adequadamente.

— Yoi, Anjin-san. Shinpai suru mono wa nai, neh? Shikata ga nai, neh? Ótimo. Agora não se preocupe, hein? O que poderia fazer, hein?

— Nannimo. Nada.

Blackthorne respondeu às perguntas que Toranaga lhe fez sobre o treinamento dos mosquetes, mas nada do que disseram o atingiu. Sua mente vacilava sob o impacto do que lhe haviam informado. Ele insultara Fujiko diante de todos os criados e ofendera a confiança da criadagem, quando Fujiko fizera apenas o que era certo e o mesmo fizeram os criados.

Fujiko era irrepreensível. São todos irrepreensíveis. Menos eu.

Não posso desfazer o que foi feito. Nem a Ueki-ya nem a ela. Ou a eles.

Como posso viver com essa vergonha?

Sentou-se de pernas cruzadas diante de Toranaga, a leve brisa do mar batendo-lhe no quimono, espadas ao sash. Entorpecido, ouvia e respondia e nada tinha importância. A guerra se aproxima, dizia ela. Quando? Perguntava ele. Muito em breve, dizia ela, portanto o senhor deve partir comigo imediatamente, deve acompanhar-me parte do trajeto, Anjin-san, porque vou para Osaka, mas o senhor vai seguir para Yedo, por terra, a fim de preparar o seu navio para a guerra.

Repentinamente o silêncio foi colossal. Então a terra começou a tremer.

Blackthorne sentiu os pulmões prestes a explodir, e cada fibra do seu ser gritando em pânico. Tentou se levantar, mas não conseguiu, e viu que todos os guardas estavam igualmente indefesos. Toranaga e Mariko desesperadamente se agarravam ao chão com as mãos e pés. O estrondo retumbante, catastrófico, vinha da terra e do céu. Rodeou-os, crescendo sempre mais, até seus tímpanos estarem prestes a se fender. Eles se tornaram parte do delírio. Por um instante o troar cessou, o abalo continuando.