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Ele sentiu o vômito elevando-se, sua mente incrédula guinchando que aquilo era terra, onde era firme e seguro, não o mar, onde o mundo balançava a cada momento. Cuspiu para limpar o gosto repugnante na boca, agarrando-se à terra trêmula, com ânsias de vômitos cada vez mais fortes.

Uma avalanche de rocha começou a despencar da montanha ao norte, inundando o vale com o estrondo e aumentando o tumulto. Parte do acampamento dos samurais desapareceu. Blackthorne tateou o chão com as mãos e joelhos, Toranaga e Mariko fazendo o mesmo. Ouviu a si mesmo gritando, mas nenhum som pareceu sair dos seus lábios ou dos deles.

O tremor parou.

A terra estava firme de novo, firme como sempre estivera, firme como sempre deveria estar. As mãos e joelhos dele, e o corpo, tremiam descontroladamente. Ele tentou imobilizá-los e recuperar o fôlego.

Então novamente a terra se pôs a rugir. O segundo abalo começou. Foi mais violento. A terra rasgou-se na extremidade do altiplano. A fenda escancarou-se na direção deles a uma velocidade inacreditável, passou a cinco passos de distância, e seguiu em frente. Os olhos incrédulos de Blackthorne viram Toranaga e Mariko cambaleando à beira da fissura onde deveria haver chão sólido. Como que num pesadelo, ele viu Toranaga, mais próximo da goela, começar a perder o equilíbrio. Saiu do seu estupor, deu um pulo para a frente. Sua mão direita agarrou o sash de Toranaga, a terra tremendo como uma folha ao vento.

A fenda tinha vinte passos de profundidade e dez de largura, tresandava a morte. Lama e rochas se precipitavam para o fundo, arrastando Toranaga e ele consigo. Blackthorne lutou para se agarrar com pés e mãos, aflito por ajudar Toranaga, quase puxado para baixo, para o abismo. Ainda parcialmente atordoado, Toranaga cravou os artelhos na face da parede e, meio arrastado meio carregado por Blackthorne, arrancou-se para fora. Ambos caíram deitados ofegantes, em segurança.

Nesse momento houve outro abalo.

A terra fendeu-se de novo. Mariko gritou. Tentou se arrastar para fora do caminho, mas essa nova racha engoliu-a. Desesperado Blackthorne rastejou até a borda, os abalos subseqüentes fazendo-o perder o equilíbrio. Na beirada, olhou para baixo. Ela tiritava sobre uma saliência alguns pés abaixo enquanto o chão balançava o céu parecia vir abaixo. O abismo tinha trinta pés de profundidade, dez de largura. A borda desintegrou-se sob os pés dele.

Ele se deixou deslizar, lama e pedras quase o cegando, e agarrou Mariko, puxando-a para a segurança de outra saliência. Juntos lutaram para se equilibrar. Um novo choque. A saliência cedeu quase totalmente e eles se viram perdidos. Então a mão de ferro de Toranaga agarrou-o pelo sash, detendo-lhes o escorregão para o inferno.

— Pelo amor de Cristo... — gritou Blackthorne, os braços quase arrancados das articulações enquanto segurava Mariko e lutava com os pés e a mão livre à procura de pontos de apoio. Toranaga o manteve firme até se encontrarem numa estreita saliência de novo, depois o sash se rompeu. A pausa de um momento no tremor deu tempo a Blackthorne de trazer Mariko para a saliência, detritos chovendo sobre eles. Toranaga saltou para a segurança, gritando-lhe que se apressasse. O abismo soltou um lamento e começou a se fechar, Blackthorne e Mariko ainda no fundo de sua goela. Toranaga já não podia ajudar. O terror de Blackthorne emprestou-lhe uma força inumana e de algum modo ele conseguiu arrancar Mariko do túmulo e empurrá-la para cima. Toranaga agarrou-a pelo pulso e içou-a para a borda. Blackthorne arrastou-se atrás dela, mas cambaleou para trás quando parte de sua parede desabou. A parede oposta rangia aproximando-se. Lama e pedras despencavam dela. Por um instante ele pensou estar liquidado, mas conseguiu rastejar às apalpadelas para fora da sua sepultura. Deitou-se na borda que estremecia, os pulmões tragando ar, incapaz de rastejar para fora, as pernas dentro da fenda. A brecha estava se fechando. E parou - com uma boca de seis passos e oito de profundidade.

O ribombar cessou totalmente. A terra firmou-se. Fez-se silêncio.

De quatro, indefesos, eles esperaram que o horror recomeçasse. Blackthorne começou a se levantar, o suor pingando.

— Iyé — Toranaga fez-lhe sinal que ficasse no chão, seu rosto uma sujeira só, um corte cruel na têmpora, no ponto onde sua cabeça se chocara com uma rocha.

Estavam todos resfolegando, o peito arfando, bile na boca. Os guardas estavam se recobrando. Alguns começaram a correr na direção de Toranaga.

— Iyé! — gritou ele. — Maté! Esperem!

Obedeceram e se puseram de quatro novamente. A espera pareceu se prolongar para sempre. Então um pássaro piou numa árvore e lançou-se ao ar, guinchando. Outro pássaro o seguiu. Blackthorne sacudiu a cabeça para limpar o suor dos olhos. Viu suas unhas quebradas, as pontas dos dedos sangrando, agarrando os tufos de grama. Então, na grama, uma formiga se moveu. E outra e outra. Começaram a cata de alimento.

Ainda assustado, ele se sentou sobre os calcanhares. Quando estará seguro?

Mariko não respondeu. Estava hipnotizada pela fenda no chão. Ele se arrastou para junto dela.

— Está se sentindo bem?

— Sim... sim — disse ela, sem fôlego. Tinha o rosto borrado de lama. O quimono estava rasgado e imundo. Perdera as duas sandálias e um tabi. E a sombrinha. Ele a ajudou a se afastar da borda, ainda aturdida.

Depois olhou para Toranaga.

— Ikaga desu ka?

Toranaga não tinha condições de falar, o peito opresso, os braços e as pernas cobertos de escoriações. Apontou. A fenda que quase o engolira agora não era mais que uma vala no solo. Ao norte a vala abria-se numa ribanceira novamente, mas não tão larga quanto fora, nem tão profunda. Blackthorne sacudiu os ombros.

— Karma.

Toranaga arrotou sonoramente, depois pigarreou, cuspiu e arrotou de novo. Isso ajudou a voz a sair e uma torrente de insultos derramou-se por sobre a vala, seus dedos ásperos apontando para ela. Embora Blackthorne não conseguisse compreender todas as palavras, Toranaga estava claramente dizendo conforme um japonês o faria:

— A sífilis no karma, a sífilis no terremoto, a sífilis na vala! Perdi as minhas espadas e a sífilis nisso!

Blackthorne explodiu numa gargalhada, consumido pelo alívio de estar vivo e pela estupidez de tudo aquilo. Um instante, e Toranaga riu também, e sua hilaridade contagiou Mariko.

Toranaga pôs-se de pé. Cautelosamente. Depois, aquecido pela alegria de viver, começou a fazer micagens para a vala, ridicularizando a si mesmo e ao abalo. Parou, fez sinal a Blackthorne que se juntasse a ele e se pôs de pernas abertas sobre a vala; abriu a tanga e, ainda dominado pelo riso, disse a Blackthorne que fizesse o mesmo. Blackthorne obedeceu e os dois homens tentaram urinar na vala. Mas não saiu nada, nem uma gota. Tentaram intensamente, o que lhes aumentou o riso e os bloqueou ainda mais. Finalmente tiveram êxito e Blackthorne sentou-se para recobrar forças, reclinando-se e apoiando-se nas mãos. Quando se recuperou um pouco, voltou-se para Mariko.

— O terremoto terminou definitivamente, Mariko-san?

— Até o próximo abalo, sim. — Ela continuou a limpar a lama das mãos e do quimono.

— É sempre assim?

— Não. Às vezes é bem leve. Às vezes há uma série de abalos após um bastão de tempo ou um dia, ou meio bastão ou meio dia. Às vezes há apenas um abalo — nunca se sabe, Anjin-san. Terminou até que comece de novo. Karma, neh?

Os guardas os observaram sem se mover, esperando pela ordem de Toranaga. Ao norte havia incêndio assolando a rústica coberta do acampamento. Samurais combatiam o fogo e escavavam as rochas da avalanche para encontrar os soterrados. Ao leste, Yabu, Omi e Buntaro encontravam-se com outros guardas ao lado da extremidade oposta da fenda, intactos com exceção de algumas contusões, também à espera de serem chamados. Igurashi desaparecera. A terra o tragara.