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Blackthorne deixou-se devanear. Seu auto-desdém desaparecera e ele se sentiu totalmente sereno e inteiro. Agora sua mente demorava-se orgulhosamente no fato de ele ser samurai, e em ir para Yedo, no seu navio, na guerra, no Navio Negro, e de novo na sua condição de samurai. Deu uma olhada em Toranaga e teria gostado de lhe fazer muitas perguntas, mas notou que o daimio estava perdido em seus próprios pensamentos, e sabia que seria descortês perturbá-lo. Há muito tempo, pensou ele contente, e olhou para Mariko. Estava arrumando o cabelo e o rosto, por isso ele desviou o olhar. Deitou-se de comprido e olhou para o céu, sentindo a terra cálida às costas, esperando pacientemente.

Toranaga falou, sério agora.

— Domo, Anjin-san, neh? Domo.

— Dozo, Toranaga-sama. Nani-mo. Hombun, neh? Por favor, Toranaga-sama, não foi nada. Dever.

Então, sem saber muitas palavras e querendo ser preciso, disse:

— Mariko-san, quer explicar por mim? Acho que compreendo agora o que a senhora e o Senhor Toranaga querem dizer com karma e a estupidez de se preocupar com o que é. Muita coisa parece mais clara. Não sei porquê, talvez seja porque nunca me senti tão aterrorizado, talvez isso me tenha limpado a cabeça, mas parece que estou pensando mais claro. É... bem, como o Velho Jardineiro. Sim, a culpa foi toda minha e sinto muitíssimo, realmente, mas aquilo foi um engano, não foi uma escolha deliberada de minha parte. É. Portanto nada pode ser feito a respeito. Há um momento atrás estávamos todos quase perdidos. Portanto toda aquela preocupação e mágoa foi um desperdício, não foi? Karma. Sim, sei o que é karma agora. Compreende?

— Sim. — E traduziu para Toranaga. — Ele disse: "Ótimo, Anjin-san. Karma é o começo do conhecimento. Depois é a paciência. A paciência é muito importante. Os fortes são os pacientes, Anjin-san. Paciência quer dizer conter a própria inclinação para as sete emoções: ódio, adoração, alegria, ansiedade, cólera, pesar, medo. Se você não dá passagem aos sete, você é paciente, depois você logo compreenderá todo tipo de coisas e estará em harmonia com a Eternidade".

— Acredita nisso, Mariko-san?

— Sim. Muitíssimo. Tento, também, ser paciente, mas é difícil.

— Concordo. Isso também é wa, harmonia, a sua "tranqüilidade", neh?

— Sim.

— Diga a ele que lhe agradeço realmente pelo que fez ao Velho Jardineiro. Antes eu não agradeci, não de coração. Diga-lhe isso.

— Não é preciso, Anjin-san. Ele já sabia que o senhor ia apenas ser polido.

— Como sabia?

— Eu lhe disse que ele é o homem mais sábio do mundo.

Ele sorriu.

— Aí está — disse ela — a sua idade desapareceu de novo. — E acrescentou em latim: — O senhor é o senhor mesmo de novo, e melhor do que antes!

— Mas a senhora é linda, como sempre.

Os olhos dela animaram-se e ela os desviou de Toranaga. Blackthorne viu isso e notou-lhe a cautela. Pôs-se de pé e olhou dentro da fenda recortada. Cuidadosamente saltou dentro dela e desapareceu.

Mariko levantou-se com dificuldade, momentaneamente temerosa, mas Blackthorne logo voltou à superfície. Nas mãos trazia a espada de Fujiko. Estava embainhada, embora coberta de lama e arranhada. A espada curta desaparecera.

Ajoelhou-se diante de Toranaga e ofereceu a espada do modo como uma espada devia ser oferecida.

— Dozo, Toranaga-sama — disse simplesmente. — Samurai kara samurai he, neh? Por favor, Senhor Toranaga, de um samurai para o outro, hein?

— Domo, Anjin-san. — O senhor do Kwanto aceitou a espada e enfiou-a no sash. Depois sorriu, inclinou-se para a frente, e deu um tapinha no ombro de Blackthorne. — Tomo, neh? Amigo, hein?

— Domo. — Blackthorne olhou a distância. Seu sorriso extinguiu-se. Uma nuvem de fumaça erguia-se por sobre a elevação, acima de onde a aldeia devia estar. Imediatamente perguntou a Toranaga se podia partir, para se certificar de que Fujiko estava bem.

— Ele diz que sim, Anjin-san. E devemos vê-lo ao pôr-do-sol na fortaleza, para a refeição noturna. Há algumas coisas que ele deseja discutir com o senhor.

Blackthorne voltou à aldeia. Estava devastada, o curso da estrada estava irreconhecível, a superfície despedaçada. Mas os botes estavam ilesos. Muitos incêndios ainda ardiam. Aldeãos carregavam baldes de areia e de água. Ele dobrou a esquina. A casa de Omi oscilava como bêbada no seu lado da colina. A sua era uma ruína fumegante.

CAPÍTULO 39

Fujiko se ferira. Nigatsu, a criada, estava morta. O primeiro abalo fizera desabar os pilares centrais da casa, espalhando as brasas do fogo da cozinha, Fujiko e Nigatsu tinham sido atingidas por uma das vigas caídas e as chamas transformaram Nigatsu numa tocha. Fujiko fora arrancada de sob a trave. Um dos filhos do cozinheiro também fora morto, mas o resto dos criados sofrera apenas escoriações e alguns membros torcidos. Ficaram todos exultantes ao descobrir que Blackthorne estava vivo e incólume.

Fujiko estava deitada sobre um futon poupado às chamas, perto da cerca do jardim intacta, semi-consciente. Quando também ela viu que Blackthorne estava incólume, quase chorou.

— Agradeço a Buda que o senhor não esteja ferido, Anjin-san — disse debilmente. Ainda parcialmente em choque, tentou se levantar, mas ele ordenou que não se movesse. As pernas e a base das costas dela estavam com sérias queimaduras. Um médico já a estava tratando, enrolando bandagens embebidas de chá e outras ervas em torno dos membros para aliviá-los. Blackthorne dissimulou a preocupação e esperou até que o médico tivesse acabado, então, em particular, disse: — Fujiko-san, yoi ka? A Senhora Fujiko ficará bem?

O doutor encolheu os ombros.

— Hai. — Seus lábios repuxaram-se em cima dos dentes protuberantes de novo. — Karma, neh?

— Hai. — Blackthorne vira morrer marujos queimados em quantidade suficiente para saber que qualquer queimadura séria era perigosa, a ferida aberta quase sempre arruinando em poucos dias e nada podendo impedir a infecção de se alastrar. — Não quero que ela morra.

— Dozo?

Repetiu em japonês e o médico meneou a cabeça e disse, que a senhora certamente ficaria bem. Era jovem e forte.

— Shikata ga nai — disse o médico, e ordenou às criadas que mantivessem as bandagens úmidas, deu a Blackthorne ervas para as suas próprias esfoladuras, disse que voltaria logo, depois subiu às pressas a colina em direção à casa danificada de Omi lá em cima.

Blackthorne manteve-se ao portão principal da sua casa, que permanecera intacto. As setas de Buntaro ainda estavam cravadas no batente esquerdo. Distraidamente, tocou uma delas. Karma que ela tenha se queimado, pensou tristemente.

Voltou para junto de Fujiko e ordenou a uma criada que trouxesse chá. Ajudou-a a beber e segurou-lhe a mão até que adormecesse, ou parecesse dormir. Os criados estavam salvando tudo o que podiam, trabalhando rapidamente, ajudados por alguns aldeãos. Sabiam que as chuvas logo chegariam. Quatro homens tentavam erguer um abrigo provisório.

— Dozo, Anjin-san. — O cozinheiro lhe oferecia chá fresco, tentando não demonstrar o sofrimento. A garotinha era a sua filha favorita.

— Domo — retrucou Blackthorne. — Sumimasen. Sinto muito.

— Arigato, Anjin-san. Karma, neh?

Blackthorne assentiu, aceitou o chá e fingiu não notar o pesar do cozinheiro, para não envergonhá-lo. Mais tarde um samurai subiu a colina trazendo um recado de Toranaga de que Blackthorne e Fujiko deviam dormir na fortaleza até a casa ser reconstruída. Chegaram dois palanquins. Blackthorne ergueu-a suavemente, colocou-a num deles e enviou-a com algumas criadas. Dispensou o seu palanquim, dizendo a ela que a seguiria logo.

A chuva começou, mas ele não prestou atenção. Sentou-se sobre uma pedra do jardim que lhe dera tanto prazer. Agora era um campo devastado. A pequena ponte estava quebrada, o lago destruído e o riacho desaparecera.