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— Não tem importância — disse ele a ninguém. — As rochas não estão mortas.

Ueki-ya lhe dissera que um jardim deve ser formado em torno das suas rochas, que sem elas um jardim está vazio, meramente um lugar de crescimento.

Uma das pedras era denteada e comum, mas Ueki-ya a plantara de modo tal que se se olhasse longa e intensamente para ela, ao crepúsculo, o brilho avermelhado, o reflexo dos veios e do cristal enterrado nela, podia-se ver toda uma cadeia de montanhas com vales indolentes, lagos profundos e, à distância, um horizonte verdejante, a noite formando-se lá.

Blackthorne tocou a rocha.

— Dou-lhe o nome de Ueki-yasama — disse ele. Isso o deixou satisfeito e ele sabia que se o velho estivesse vivo, também teria ficado muito contente. Embora esteja morto, talvez ele saiba, disse-se Blackthorne, talvez o seu kami se encontre aqui agora. Os xintoístas acreditam que quando morrem tornam-se um kami...

— O que é um kami, Mariko-san?

— Kami é inexplicável, Anjin-san. É como um espírito, mas não é, é como uma alma, mas não é. Talvez seja a parte insubstancial de uma coisa ou de uma pessoa... o senhor deve saber que um ser humano se torna um kami após a morte, mas uma árvore, uma rocha ou uma planta, ou uma pintura, são kamis igualmente. Os kamis são venerados, nunca idolatrados. Existem entre o céu e a terra e visitam esta Terra dos Deuses ou a deixam, tudo ao mesmo tempo.

— E Xintó? O que é Xintó?

— Ah, isso também é inexplicável, sinto muito. É como uma religião, mas não é. No começo não tinha nem nome. Simplesmente chamávamos de Xintó, o Caminho do Kami, mil anos atrás, para distingui-lo do Butsudo, o Caminho de Buda. Mas embora indefinível, o Xintó é a essência do Japão e dos japoneses, e embora não possua nem teologia nem divindade, fé ou sistema ético, é a nossa justificação para a existência. O Xintó é um culto natural de mitos e lendas nas quais ninguém acredita sinceramente, embora todo mundo venere totalmente. Uma pessoa é xintoísta do mesmo modo como nasceu japonesa.

— A senhora também é xintoísta... assim como cristã? — Oh, sim, muito, naturalmente...

Blackthorne tocou a pedra de novo.

— Por favor, kami de Ueki-ya, por favor, fique no meu jardim.

Depois, sem se importar com a chuva, deixou os olhos levarem-no pela pedra, passando pelos vales viçosos, o lago sereno e o horizonte verdejante, a escuridão formando-se lá.

Seus ouvidos lhe disseram que voltasse. Levantou os olhos. Omi o observava, pacientemente acocorado. Ainda chovia e Omi estava usando uma capa de palha de arroz, e um largo chapéu cônico de bambu. O cabelo fora lavado recentemente.

— Karma, Anjin-san — disse ele, apontando para as ruínas fumegantes.

— Hai. Ikaga desu ka? — Blackthorne enxugou a chuva do rosto.

— Yoi. — Omi apontou para a sua casa. — Watakushi no yuya wa hakaisarete imasen ostukai ni narimasen-ka? Minha casa de banho não foi danificada. Importa-se em usá-la?

— Ah so desu! Domo, Omi-san, hai, domo. — Agradecido, Blackthorne acompanhou Omi pelo caminho sinuoso, dirigindo-se para o pátio da casa dele. Os criados e alguns artesãos da aldeia, sob a supervisão de Mura, já estavam martelando e serrando e reparando. Os pilares centrais já tinham sido recolocados no lugar e o telhado estava quase reparado.

Por meio de sinais e palavras simples, e muita paciência, Omi explicou que seus criados haviam conseguido extinguir as chamas em tempo. Dentro de um ou dois dias, disse ele a Blackthorne, a casa estaria em pé novamente, tão boa como antes, portanto não havia nada com que se preocupar. A sua levará mais tempo, uma semana, Anjin-san. Não se preocupe, Fujiko-san é uma excelente administradora. Combinará todos os custos com Mura e sua casa ficará melhor do que nunca. Ela se queimou, ouvi dizer. Bem, isso acontece às vezes, mas não se preocupe, nossos médicos são bons especialistas em queimaduras, têm que ser, neh? Sim, Anjin-san, foi um terremoto sério, mas não muito. Os campos de arroz quase não foram tocados e o sistema de irrigação, tão essencial, permaneceu incólume. E os barcos não se danificaram, e isso é muito importante também. Apenas cento e cinqüenta e quatro samurais foram mortos pela avalanche, o que não é muito, neh? Quanto à aldeia, uma semana e o senhor mal saberá que houve um abalo. Cinco camponeses foram mortos e algumas crianças — nada! Anjiro teve muita sorte, neh? Ouvi dizer que o senhor arrancou Toranaga-sama da morte. Somos-lhe todos gratos, Anjin-san. Muito. Se o perdêssemos... o Senhor Toranaga disse que aceitava a sua espada — o senhor tem sorte, isso é uma grande honra. Sim. O seu karma é forte, muito rico. Sim, agradeço-lhe muitíssimo. Ouça, conversaremos mais depois que o senhor tiver tomado banho. Estou contente por ser seu amigo.

Omi chamou as criadas de banho.

— Isogi! Rápido!

As criadas escoltaram Blackthorne até a casa de banho, que se erguia dentro de um minúsculo bosque de bordos e se unia à casa principal por um caminho sinuoso, em condições normais coberto por um telhado. Era muito mais suntuosa do que a sua. Uma parede estava seriamente rachada, mas já havia aldeãos a rebocá-la. O telhado estava firme, embora faltassem algumas telhas e a chuva vazasse aqui e ali, mas isso não tinha importância.

Blackthorne despiu-se e se sentou no minúsculo assento. As criadas o esfregaram e o ensaboaram à chuva. Quando estava limpo, entrou na casa e mergulhou no banho fumegante. Todos os seus problemas se dissiparam.

Fujiko vai ficar boa. Sou um homem de sorte. Foi sorte eu estar lá para puxar Toranaga, sorte ter salvado Mariko, e sorte que ele estivesse lá para nos puxar para fora.

A mágica de Suwo revigorou-o como de hábito. Mais tarde ele deixou-o cuidar-lhe das escoriações e cortes, e vestiu a tanga limpa e o quimono e os tabis que tinham sido trazidos para ele, e saiu. A chuva parara.

Um abrigo provisório fora erguido num canto do jardim. Tinha um caprichoso soalho elevado e estava mobiliado com futons limpos e um pequeno vaso com um arranjo de flores. Omi o esperava com uma velha sem dentes, de rosto duro.

— Por favor, sente-se, Anjin-san — disse Omi.

— Obrigado, e obrigado pela roupa — respondeu ele em japonês vacilante.

— Por favor, esqueça isso. Aceitaria chá? Ou saque?

— Chá — decidiu Blackthorne, pensando que era melhor conservar as idéias claras para a entrevista com Toranaga. — Obrigado.

— Esta é minha mãe — disse Omi com formalidade, claramente a idolatrando.

Blackthorne curvou-se. A velha sorriu com afetação.

— A honra é minha, Anjin-san — disse ela.

— Obrigado, mas sou eu quem fica honrado. — Blackthorne repetiu automaticamente a sucessão de cortesias formais que Mariko lhe ensinara.

— Anjin-san, sentimos muito ver sua casa em chamas.

— O que se poderia fazer? Foi karma, neh?

— Sim, karma. — A velha desviou o olhar e carregou o sobrolho. — Depressa! O Anjin-san deseja o seu chá quente!

A garota em pé ao lado da criada que carregava a bandeja deixou Blackthorne sem fôlego. Então se lembrou dela. Não fora aquela garota que vira com Omi, na primeira vez, quando atravessava a praça da aldeia a caminho da galera?

— Esta é minha esposa — disse Omi sucintamente.

— Estou honrado — disse Blackthorne, enquanto ela tomava seu lugar, ajoelhava-se e se curvava.

— O senhor deve perdoar-lhe a lentidão — disse a mãe de Omi. — O chá está quente o suficiente para o senhor?

— Obrigado, está muito bom. — Blackthorne notara que a velha não usara o nome da esposa conforme devia. Mas não se surpreendeu, porque Mariko já lhe falara sobre a posição dominante da sogra de uma garota na sociedade japonesa.

— Graças a Deus que o mesmo não acontece na Europa — dissera-lhe ele.

— A sogra de uma esposa não erra. Afinal de contas, Anjin-san, os pais escolhem a esposa em primeiro lugar, e que pai escolheria sem antes consultar a própria esposa? Claro, a nora tem que obedecer, e o filho sempre faz o que a mãe e o pai desejam.