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— Sempre?

— Sempre.

— Que acontece se o filho se recusa?

— Isso não é possível. Todo mundo tem que obedecer ao cabeça da casa. O primeiro dever de um filho é para com os pais. Naturalmente. Os filhos recebem tudo das mães: vida, alimento, ternura, proteção. Ela os socorre a vida toda. Portanto, é claro que um filho deva atender aos desejos de sua mãe. A nora... tem que obedecer. É dever dela.

— Conosco não acontece o mesmo.

— É difícil ser uma boa nora, muito difícil. Tem-se apenas que esperar viver o bastante para se ter filhos e se tornar uma a gente mesma.

— E a sua sogra?

— Ah, morreu, Anjin-san. Morreu há muitos anos. Nunca a conheci. O Senhor Hiromatsu, na sua sabedoria, nunca tomou outra esposa.

— Buntaro-san é o único filho?

— Sim. Meu marido tem cinco irmãs vivas, mas não tem irmãos. — Ela brincara. — De certo modo somos aparentados agora, Anjin-san. Fujiko é sobrinha do meu marido. O que há?

— Estou surpreso de que a senhora nunca me tenha dito, é tudo.

— Bem, é complicado, Anjin-san. — Então Mariko explicara que Fujiko na realidade era uma filha adotiva de Numara Akinori, que se casara com a irmã mais nova de Buntaro, e que o verdadeiro pai de Fujiko era um neto do ditador Goroda pela sua oitava consorte, que Fujiko fora adotada por Numata ainda recém-nascida a unia ordem do táicum, porque o táicum desejava laços mais estreitos entre os descendentes de Hiromatsu e Goroda...

— O quê?

Mariko rira, dizendo-lhe que sim, os relacionamentos de família no Japão eram muito complicados porque a adoção era normal, os casais trocavam-se filhos e filhas com freqüência, e se divorciavam, casavam-se de novo, casavam-se entre si o tempo todo. Com tantas consortes legais e a facilidade do divórcio — particularmente se por uma ordem de um suserano — todas as famílias logo se tornavam inacreditavelmente entrelaçadas.

— Deslindar com precisão os elos de família do Senhor Toranaga levaria dias, Anjin-san. Pense apenas na complicação: atualmente ele tem sete consortes oficiais vivas, que lhe deram cinco filhos e três filhas. Algumas consortes eram viúvas ou já tinham sido casadas, com outros filhos e filhas — alguns desses Toranaga adotou, outros não. No Japão não se pergunta se uma pessoa é adotada ou natural. Na verdade, o que importa? A herança depende sempre do cabeça da casa, portanto, adotado ou não, dá na mesma, neh? Até a mãe de Toranaga era divorciada. Mais tarde tornou a se casar e teve três filhos e duas filhas do segundo marido, todos, agora, casados! O filho mais velho do segundo casamento é Zakati, senhor de Shinano.

Blackthorne ponderara sobre isso. Depois dissera:

— O divórcio não é possível para nós. Não é possível.

— Assim nos dizem os santos padres. Sinto muito, mas isso não é muito sensato, Anjin-san. Os enganos acontecem, as pessoas mudam, isso é karrna, neh? Por que um homem deveria suportar uma esposa abominável, ou uma esposa um homem abominável? É tolice ficar amarrado para sempre, homem ou mulher, neh?

— Sim.

— Nisso somos muito sábios e os santos padres não. Essa foi uma das duas grandes razões pelas quais o táicum não abraçou o cristianismo, essa tolice sobre o divórcio. E o sexto mandamento, "Não matarás". O padre-inspetor foi até Roma solicitar dispensa para o Japão com relação ao divórcio. Mas Sua Santidade, o Papa, na sua sabedoria, negou. Se Sua Santidade tivesse consentido, acredito que o táicum se teria convertido, os daimios estariam seguindo a verdadeira fé agora, e o país seria cristão. O aspecto de "matar" não teria tido importância, porque na realidade ninguém presta atenção alguma a isso, os cristãos menos que todos. Uma concessão tão pequena portanto, neh?

— Sim — dissera Blackthorne. Como o divórcio parecia razoável! Por que era um pecado mortal lá em casa, atacado por cada padre da cristandade, católico ou protestante, em nome de Deus?

— Como era a esposa de Toranaga? — perguntara, querendo fazê-la continuar falando. A maior parte do tempo ela evitara o tema de Toranaga e a história de sua família, e era importante para Blackthorne saber tudo.

Uma sombra atravessara o rosto de Mariko. — Morreu. Era a segunda esposa dele e morreu há uns dez ou onze anos. Era filha do padrasto do táicum. O Senhor Toranaga nunca teve êxito com as esposas, Anjin-san.

— Por quê?

— Oh, a segunda era velha, cansada, avarenta, idolatrando o ouro, embora fingisse o contrário, como o irmão, o próprio táicum. Estúpida e de mau temperamento. Foi um casamento político, naturalmente. Tive que ser uma das suas damas de companhia durante um tempo. Nada lhe agradava, e nenhum dos jovens ou homens conseguia desatar o nó no seu Pavilhão Dourado.

— O quê?

— O seu Portão de Jade, Anjin-san. Com a Cabeça de Tartaruga — a Seta Aquecida. Não compreende? A... coisa dela.

— Oh! Compreendo. Sim.

— Ninguém conseguia desatar-lhe o nó... satisfazê-la.

— Nem Toranaga?

— Ele nunca "travesseirou" com ela, Anjin-san — dissera ela, completamente chocada. — Claro, depois do casamento ele não tinha mais nada que ver com ela, além de dar-lhe um castelo, assistentes e as chaves da sua casa do tesouro. Por que deveria ter? Ela era muito velha, fora casada duas vezes antes, mas o irmão, o táicum, dissolvera os casamentos. Uma mulher muito desagradável. Todos ficaram muito aliviados quando ela foi para o Grande Vazio, até o táicum, e todas as suas noras e todas as consortes de Toranaga secretamente queimaram incenso com grande alegria.

— E a primeira esposa de Toranaga?

— Ah, a Senhora Tachibana. Esse foi outro casamento político. O Senhor Toranaga tinha dezoito anos, ela quinze. Cresceu para ser uma mulher terrível. Há vinte anos Toranaga condenou-a à morte porque descobriu que ela estava secretamente tramando o assassinato do suserano deles, o ditador Goroda, a quem ela odiava. Meu pai sempre me dizia que achava que todos eles tiveram sorte em conservar a cabeça — ele, Toranaga, Nakamura, e todos os generais —, porque Goroda era inclemente, implacável, e particularmente desconfiado dos que lhe eram mais chegados. Aquela mulher poderia tê-los arruinado a todos, por mais inocentes que fossem. Devido à sua conspiração contra o Senhor Goroda, o seu único filho, Nobunaga, também foi condenado à morte, Anjin-san. Ela matou o próprio filho. Pense nisso, tão triste, tão terrível. Pobre Nobunaga, era o filho favorito de Toranaga e seu herdeiro oficial, bravo, um general totalmente leal. Era inocente, mas ela o envolveu na trama. Tinha só dezenove anos quando Toranaga lhe ordenou que cometesse seppuku.

— Toranaga matou o próprio filho? E a esposa?

— Sim, ordenou-lhes que fizessem isso, mas não teve escolha, Anjin-san. Se não tivesse feito isso, o Senhor Goroda, acertadamente, teria presumido que Toranaga fazia parte da conspiração e lhe teria ordenado instantaneamente que cortasse o ventre. Oh, sim, Toranaga teve sorte de escapar à cólera de Goroda e foi sábio em mandá-la matar-se rapidamente. Quando ela morreu, sua nora e todas as consortes de Toranaga ficaram em êxtase. O filho dela tivera que mandar a primeira esposa de volta para casa, em desgraça, por ordem dela, devido a algum descuido imaginário — depois de lhe gerar dois filhos. A garota cometeu seppuku — eu lhe disse, Anjin-san, que as senhoras cometem seppuku cortando a garganta e não o estômago, como os homens? —, mas morreu agradecida, contente por se libertar de uma vida de lágrimas, exatamente como a próxima esposa orava pela morte, já que sua vida foi tornada igualmente miserável pela sogra...

Agora, olhando para a sogra de Midori, o chá escorrendo-lhe pelo queixo, Blackthorne sabia que aquela velha bruxa tinha poder de vida ou morte, divórcio ou degradação sobre Midori, desde que o marido, o cabeça da casa, concordasse. E, decidissem eles o que decidissem, Omi obedeceria. Que terrível, disse-se ele.