Midori tinha toda a graça e juventude que a velha não tinha, o rosto oval, o cabelo abundante. Era mais bonita do que Mariko, mas sem o ardor e a força da outra, flexível como uma samambaia e frágil como uma teia de aranha.
— Onde está a comida? Naturalmente o Anjin-san deve estar com fome — disse a velha.
— Oh, sinto muito — replicou Midori imediatamente. — Vá buscar — disse ela à criada. — Depressa! Sinto muito, Anjin-san!
— Sinto muito, Anjin-san — disse a velha.
— Por favor, não se desculpe — disse Blackthorne a Midori, e imediatamente percebeu que isso fora um erro. As boas maneiras decretavam que ele devia dirigir-se apenas à sogra, particularmente se ela tivesse uma má reputação. — Sinto muito — disse ele. — Eu não fome. Esta noite eu comer devo com o Senhor Toranaga.
— Ah so desu! Ouvimos dizer que o senhor lhe salvou a vida. O senhor deve saber como lhe estamos gratos, nós, todos os seus vassalos! — disse a velha.
— Foi dever. Não fiz nada.
— O senhor fez tudo, Anjin-san. Omi-san e o Senhor Yabu apreciam o seu ato tanto quanto todos nós.
Blackthorne viu a velha olhar de relance para o filho. Gostaria de poder sondá-la, sua cadela velha, pensou ele. Será que você é tão má quanto a outra, Tachibana?
— Mãe — disse Omi, — sou feliz por ter o Anjin-san como amigo.
— Todos nós somos felizes — disse ela.
— Não, sou eu quem se sente feliz — replicou Blackthorne. — Eu afortunado ter amigos como família de Kasigi Omi-san. — Estamos todos mentindo, pensou Blackthorne, mas não sei por que vocês mentem. Eu minto por auto-proteção e porque é hábito. Mas nunca me esqueci... espere um instante. Com toda a honestidade, isso não foi karma? Você não teria feito o que Omi fez? Isso foi há muito tempo, numa vida anterior, neh? Não tem mais sentido agora.
Um grupo de cavaleiros subiu a colina com estrépito, Naga à frente. Desmontou e avançou pelo jardim. Todos os aldeãos pararam de trabalhar e puseram-se de joelhos. Ele lhes fez sinal que continuassem.
— Sinto muito perturbá-lo, Omi-san, mas o Senhor Toranaga me mandou.
— Por favor, não está me incomodando. Por favor, junte-se a nós — disse Omi. Imediatamente Midori cedeu a sua almofada, curvando-se profundamente. — Aceita chá, ou saquê, Naga-sama?
Naga sentou-se.
— Nada, obrigado. Não estou com sede.
Omi insistiu polidamente, passando pelo interminável e necessário ritual, embora fosse óbvio que Naga estava com pressa.
— Como está o Senhor Toranaga?
— Muito bem. Anjin-san, o senhor nos prestou um grande serviço. Sim. Agradeço-lhe pessoalmente.
— Foi dever, Naga-san. Mas fiz pouco. O Senhor Toranaga puxou-me da... puxou-me da terra também.
— Sim. Mas isso foi depois. Agradeço-lhe muitíssimo.
— Naga-san, há algo que eu possa fazer pelo Senhor Toranaga? — perguntou Omi, já que a etiqueta finalmente lhe autorizava ir ao ponto.
— Ele gostaria de vê-lo após a refeição noturna. Haverá uma reunião de todos os oficiais.
— Ficarei honrado.
— Anjin-san, deve vir comigo agora, se lhe aprouver. — Naturalmente. A honra é minha.
Mais mesuras e saudações e depois Blackthorne estava sobre um cavalo, descendo a colina a trote. Quando a falange de samurais atingiu a praça, Naga puxou as rédeas.
— Anjin-san!
— Hai?
— Agradeço-lhe de todo o coração por haver salvado o Senhor Toranaga. Permita-me ser seu amigo... — e algumas palavras que Blackthorne não assimilou.
— Desculpe, não compreendo. "Karite iru"?
— Ah, desculpe, "Karite iru": um homem karite iru coisas a outro, como "dívida". O senhor entende "dívida"?
"Dever" surgiu na cabeça de Blackthorne.
— Ah so desu! Wakarimasu.
— Ótimo. Disse apenas que lhe devo uma vida.
— Era o meu dever, neh?
— Sim. Ainda assim, devo-lhe uma vida.
— Toranaga-sama diz que toda a pólvora de canhão e a munição foram postos de volta no seu navio, Anjin-san, aqui em Anjiro, antes de partir para Yedo. Ele pergunta quanto tempo o senhor levaria para se preparar para zarpar.
— Isso depende do estado do navio, se os homens o querenaram e cuidaram dele, se o mastro foi substituído, e assim por diante. O Senhor Toranaga sabe como se encontra o navio?
— O navio parece em ordem, diz ele, mas não é um marujo, por isso não poderia ter certeza. Não subiu a bordo desde que o navio foi rebocado para a enseada de Yedo, quando deu instruções para que cuidassem dele. Presumindo-se que o navio esteja em condições, neh, ele pergunta quanto tempo o senhor levaria para se preparar para a guerra.
O coração de Blackthorne perdeu uma batida.
— Contra quem combatemos, Mariko-san?
— Ele pergunta contra quem o senhor gostaria de combater.
— Contra o Navio Negro deste ano — respondeu Blackthorne imediatamente, tomando uma decisão repentina, esperando desesperadamente que aquele fosse o momento correto para expor diante de Toranaga o plano que elaborara secretamente ao longo dos dias. Estava especulando com o fato de que ter salvo a vida de Toranaga naquela manhã talvez lhe desse um privilégio especial que o ajudaria a superar os obstáculos.
Mariko foi dominada pela surpresa.
— O quê?
— O Navio Negro. Diga ao Senhor Toranaga que tudo o que ele tem a fazer é dar-me as suas cartas de corso. Farei o resto. Com o meu navio e uma ajudazinha... dividimos a carga, toda a seda e o dinheiro.
Ela riu. Toranaga não.
— Meu amo... diz que isso seria um imperdoável ato de guerra contra uma nação amiga. Os portugueses são essenciais para o Japão.
— Sim, são... no momento. Mas acredito que sejam inimigos dele tanto quanto meus, e seja qual for o serviço que ofereçam, podemos fazer melhor. A um custo menor.
— Ele diz que talvez. Mas não acredita que a China faça comércio com o senhor. Nem os ingleses nem os neerlandeses estão maciçamente na Ásia ainda, e necessitamos das sedas agora e de um fornecimento contínuo.
— Ele tem razão, claro. Mas num ou dois anos isso mudará e ele terá a prova. Por isso, eis outra sugestão. Já estou em guerra com os portugueses. Além do limite de três milhas, as águas são internacionais. Legalmente, com as minhas atuais cartas de corso, posso tomar o navio e, na qualidade de presa, posso levá-lo para qualquer porto e vendê-lo, assim como a carga. Com o meu navio e uma tripulação, será fácil. Em poucas semanas ou meses, eu poderia entregar o Navio Negro e tudo o que contém em Yedo. Eu poderia vendê-lo em Yedo. Metade do valor será o seu... a taxa de porto.
— Ele diz que o que acontece no mar entre o senhor e os seus inimigos é de pouco interesse para ele. O mar pertence a todos. Mas esta terra é nossa, e aqui nossas leis governam e não podem ser infringidas.
— Sim — Blackthorne sabia que seu curso era perigoso, mas sua intuição lhe dizia que o momento era perfeito e que Toranaga morderia a isca. E Mariko. — Foi só uma sugestão. Ele me perguntou contra quem eu gostaria de combater. Por favor, desculpe-me, mas às vezes é bom planejar para qualquer eventualidade. Nisso acredito que os interesses do Senhor Toranaga são os meus.
Mariko traduziu. Toranaga grunhiu e falou brevemente.
— O Senhor Toranaga dá valor a sugestões sensatas, Anjin-san, como a sua idéia sobre a marinha, mas isto é ridículo. Ainda que os interesses de ambos fossem os mesmos, coisa que não são, como o senhor poderia, com nove homens, atacar um vaso tão imenso com quase mil pessoas a bordo?
— Eu não faria isso. Preciso de uma nova tripulação, Mariko-san. Oitenta ou noventa homens, marujos e atiradores treinados. Encontro-os em Nagasaki, em navios portugueses. — Blackthorne fingiu não notar que ela tomou fôlego, nem o modo como o leque parou. — Deve haver alguns franceses, um inglês ou dois se eu tiver sorte, alguns alemães e holandeses, serão renegados na maioria, ou gente que foi levada à força para bordo. Eu necessitaria de um salvo-conduto para Nagasaki, alguma proteção, e um pouco de prata ou ouro. Há sempre marinheiros em frotas inimigas que se engajarão por dinheiro vivo e uma parte do dinheiro da presa.