— Meu amo diz que qualquer comandante que confie em tal imundície num ataque seria louco.
— Concordo — Blackthorne —, mas preciso de uma tripulação para zarpar.
— Ele pergunta se seria possível treinar samurais e nossos marujos para serem atiradores e marinheiros.
— Facilmente. Com tempo. Mas isso poderia levar meses. Com certeza estariam prontos no próximo ano. Não haveria chance de ir contra o Navio Negro este ano.
— O Senhor Toranaga diz: "Não planejo atacar o Navio Negro dos portugueses, neste ano ou no próximo. Não são meus inimigos e não estou em guerra com eles".
— Eu sei. Mas eu estou em guerra com eles. Por favor, desculpe-me. Naturalmente isto é apenas uma discussão, mas precisarei ter alguns homens para zarpar, para estar ao serviço do Senhor Toranaga se ele desejar.
Estavam sentados nos aposentos privados de Toranaga, que davam para o jardim. A fortaleza mal fora tocada pelo terremoto. A noite estava úmida e sem ar, e a fumaça que vinha das espirais de incenso subia preguiçosamente para expulsar os mosquitos.
— Meu amo quer saber — estava dizendo Mariko — se o senhor, caso tivesse o seu navio agora, e os poucos membros da tripulação que chegaram com o senhor, iria a Nagasaki para encontrar esses homens suplementares que solicita.
— Não. Isso seria perigoso demais. Eu estaria tão insuficientemente tripulado, que os portugueses me capturariam. Seria muito melhor conseguir os homens primeiro, trazê-los para águas domésticas, para Yedo, neh? Uma vez que eu esteja com a tripulação completa, o inimigo não tem nada nestes mares com que consiga me tocar.
— Ele não acha que o senhor e noventa homens pudessem tomar o Navio Negro.
— Posso velejar melhor que ele e afundá-lo com o Erasmus. Naturalmente, Mariko-san, sei que tudo isso são conjecturas; mas se eu fosse autorizado a atacar o meu inimigo, no momento em que tivesse uma tripulação, navegaria imediatamente para Nagasaki. Se o Navio Negro já estivesse atracado, eu mostraria as minhas bandeiras de guerra e o bloquearia no mar. Eu o deixaria terminar o comércio e aí, quando o vento estivesse propício para a viagem para casa, fingiria precisar de suprimentos e o deixaria sair do porto. Depois o capturaria a algumas léguas, porque temos mais velocidade e meus canhões fariam o resto. Uma vez que ele tenha arriado suas bandeiras, eu ponho uma tripulação a bordo e trago-o para Yedo. Ele deve ter mais de trezentas, quase quatrocentas toneladas de ouro a bordo.
— Mas por que o capitão do Navio Negro não afundaria o navio uma vez que o senhor o tivesse derrotado, se o derrotar, antes que o senhor possa ir a bordo?
— Geralmente... — Blackthorne ia dizer: "Geralmente a tripulação se amotina se o capitão é um fanático, mas nunca conheci nenhum tão louco. Na maioria das vezes faz-se um acordo com o capitão: poupa-se a vida dele, dá-se-lhe uma pequena parte da carga e transporte até o porto mais próximo. Mas desta vez terei que lidar com Rodrigues e eu o conheço e sei o que ele fará". Mas pensou melhor nisso e decidiu não revelar todo o plano. É melhor deixar os métodos bárbaros aos bárbaros, disse a si mesmo. — Geralmente o navio derrotado capitula, Mariko-san. É uni costume, um dos nossos costumes de guerra no mar, poupar a perda desnecessária de vidas.
— O Senhor Toranaga diz, sinto muito, Anjin-san, que isso é um costume repulsivo. Se ele tivesse navios, não haveria rendição. — Mariko tomou um gole de chá, depois continuou: — E se o navio não estiver no porto?
— Aí eu corro as rotas marítimas para capturá-lo a algumas léguas, em águas internacionais. Será mais fácil pegá-lo pesado de carga e chafurdando, mas mais difícil de trazer para Yedo. Quando se espera que atraque?
— Meu amo não sabe. Talvez dentro de trinta dias, diz ele. O navio virá mais cedo este ano.
Blackthorne sabia que estava muito perto da presa, muito perto. — Então é bloqueá-lo e torná-lo no fim da estação. — Ela traduziu e Blackthorne pensou ver um desapontamento momentâneo perpassar o rosto de Toranaga. Fez uma pausa, como se estivesse considerando alternativas, e disse: — Se estivéssemos na Europa, haveria outro modo. Poderíamos navegar à noite e torná-lo a força. Um ataque de surpresa.
Toranaga apertou com força o punho da espada.
— Ele pergunta se o senhor ousaria atacar os seus inimigos na nossa terra.
Os lábios de Blackthorne estavam secos. — Não. Claro que isto ainda é uma suposição, mas se existisse um estado de guerra entre ele e os portugueses, e o Senhor Toranaga os quisesse prejudicar, seria esse o modo de fazê-lo. Se eu tivesse duzentos ou trezentos combatentes bem disciplinados, uma boa tripulação e o Erasmus, seria fácil emparelhar com o Navio Negro e abordá-lo, arrastá-lo para o largo. Ele poderia escolher a época do ataque de surpresa... se estivéssemos na Europa.
Houve um longo silêncio.
— O Senhor Toranaga diz que isto não é a Europa e que não existe, nem jamais existirá, um estado de guerra entre ele e os portugueses.
— Claro. Um último ponto, Mariko-san: Nagasaki não está sob controle do Senhor Toranaga, está?
— Não, Anjin-san. O Senhor Harima é dono do porto e de toda a região.
— Mas na prática não são os jesuítas que controlam o porto e todo o comércio? — Blackthorne reparou na relutância dela em traduzir, mas pressionou-a mais ainda. — Não é essa a honto, Mariko-san? E o Senhor Harima não é católico? A maior parte de Kyushu não é católica? E por conseguinte os jesuítas, em certa medida, não controlam a ilha toda?
— O cristianismo é uma religião. Os daimios controlam suas terras, Anjin-san — disse Mariko por si mesma.
— Mas fui informado de que Nagasaki na realidade é solo português. Fui informado de que eles agem como se o fosse. O pai do Senhor Harima não vendeu a terra aos jesuítas?
A voz de Mariko excitou-se.
— Sim. Mas o táicum tomou-a de volta. Nenhum estrangeiro tem autorização para possuir terra aqui, agora.
— Mas o táicum não permitiu que seus editos caducassem, de modo que hoje nada acontece lá sem a aprovação dos jesuítas? Os jesuítas não controlam toda a navegação em Nagasaki, e todo o comércio? Não negociam todo o comércio para vocês e não agem como intermediários?
— O senhor está muito bem informado sobre Nagasaki, Anjin-san — disse ela enfaticamente.
— Talvez o Senhor Toranaga devesse tomar do inimigo o controle do porto. Talvez...
— Eles são seus inimigos, Anjin-san, não nossos — disse ela, mordendo a isca finalmente. — Os jesuítas são...
— Nan ja?
Ela se voltou para Toranaga desculpando-se, e explicou o que fora dito entre eles. Quando terminou ele falou severamente, uma reprimenda evidente.
— Hai — disse ela várias vezes, e curvou-se, disciplinada.
— O Senhor Toranaga me lembra — disse ela — de que as minhas opiniões não têm valor e que um intérprete deve apenas interpretar, neh? Por favor, desculpe-me.
Em outra oportunidade Blackthorne se teria desculpado por ter-lhe armado uma cilada. Agora isso não lhe ocorreu. Mas como atingira o alvo, riu e disse:
— Hai, kawaii Tsukkuko-sama! Sim, linda Senhora Intérprete!
Mariko sorriu atravessado, furiosa consigo mesma por ter caído na armadilha, a mente em conflito com suas lealdades divididas.
— Yoi, Anjin-san — disse Toranaga, mais uma vez cordial.
— Mariko-san kawaii desu yori! Tsukku-san anamsu ka nori masen, neh? E Mariko-san é muito mais bonita do que o velho Sr. Tsukku, não é, e também muito mais perfumada?
Toranaga riu.
— Hai.
Mariko corou e serviu chá, um pouco abrandada. Depois Toranaga falou. Seriamente.