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— Nosso amo pergunta por que o senhor está fazendo tantas perguntas — ou tantas afirmações — sobre o Senhor Harima e Nagasaki.

— Só para mostrar que o porto de Nagasaki de fato é controlado por estrangeiros. Pelos portugueses. E pela minha lei, tenho o direito legal de atacar o inimigo em qualquer lugar.

— Mas isto não é "qualquer lugar", diz ele. Esta é a Terra dos Deuses e tal ataque é impensável.

— Concordo inteiramente. Mas se o Senhor Harima se tornasse hostil, ou os jesuítas que comandam os portugueses se tornassem hostis, seria esse o modo de atingi-los.

— O Senhor Toranaga diz que nem ele, nem qualquer daimio jamais permitiria um ataque de qualquer nação estrangeira contra outra em solo japonês, ou que elas matassem qualquer um dos nossos. Contra inimigos do imperador, o caso é diferente. Quanto a conseguir combatentes e uma tripulação, seria fácil um homem conseguir qualquer quantidade desde que falasse japonês. Há muitos wakos em Kyushu.

— Wakos, Mariko-san?

— Oh, desculpe. Chamamos os corsários de "wakos", Anjin-san. Costumavam ter muitos covis em torno de Kyushu, mas foram destruídos, na maioria, pelo táicum. Infelizmente ainda se podem encontrar sobreviventes. Os wakos aterrorizaram as costas da China durante séculos. Foi por causa deles que a China fechou seus portos para nós. — Explicou a Toranaga o que fora dito. Ele falou de novo, mais enfaticamente. — Ele diz que nunca permitirá, planejará ou lhe permitirá realizar um ataque por terra, embora fosse correto que o senhor pilhasse o inimigo da sua rainha em alto-mar. Ele repete que isto não é qualquer lugar. Esta é a Terra dos Deuses. O senhor deve ser paciente, conforme ele lhe disse.

— Sim. Pretendo tentar ser paciente à maneira dele. Só quero atingir o inimigo porque eles são o inimigo. Acredito de todo o coração que são inimigos dele também.

— O Senhor Toranaga diz que os portugueses lhe dizem que o senhor é o inimigo dele, e Tsukku-san e o padre-inspetor têm certeza absoluta disso.

— Se eu fosse capaz de capturar o Navio Negro no mar e trazê-lo como presa legal para Yedo, sob a bandeira da Inglaterra, teria autorização para vende-lo e tudo o que contém, em Yedo, de acordo com o nosso costume?

— O Senhor Toranaga diz que isso depende.

— Se a guerra vier, posso ser autorizado a atacar o inimigo, o inimigo do Senhor Toranaga, da melhor maneira que eu puder?

— Ele diz que esse é o dever de um hatamoto. Um hatamoto, naturalmente, está sob as ordens pessoais dele o tempo todo. Meu amo deseja que eu deixe claro que as coisas no Japão nunca serão resolvidas por outro método que não seja o japonês.

— Sim. Compreendo perfeitamente. Com a devida humildade, eu gostaria de assinalar que quanto mais eu souber sobre os problemas dele, mais eu poderei ajudar.

— Ele diz que o dever de um hatamoto é sempre ajudar seu senhor, Anjin-san. Diz que devo responder a quaisquer perguntas razoáveis que o senhor queira me fazer mais tarde.

— Obrigado. Posso perguntar-lhe se ele gostaria de ter uma marinha? Conforme sugeri na galera?

— Ele já disse que gostaria de ter uma marinha, uma marinha moderna, Anjin-san, manejada pelos seus próprios homens. Que daimio não gostaria?

— Então consideremos isto: se eu tivesse sorte o bastante para tomar o navio inimigo, eu o levaria a Yedo para ser reparado e para avaliar a presa. Depois baldearia a minha metade do butim para o Erasmus e venderia o Navio Negro aos portugueses, ou o ofereceria a Toranaga-sama como presente, ou o queimaria, o que ele desejasse. Aí eu voltaria para casa. Dentro de um ano retornaria e traria quatro belonaves, como um presente da rainha da Inglaterra ao Senhor Toranaga.

— Ele pergunta onde estaria o seu lucro nisso.

— A honto é que sobraria muito para mim, Mariko-san, depois que os navios fossem pagos, dado por Sua Majestade. Depois eu gostaria de levar um dos conselheiros dele mais dignos de confiança, como embaixador junto à minha rainha. Um tratado de amizade entre os nossos países poderia ser do interesse dele.

— O Senhor Toranaga diz que isso seria muita generosidade da sua rainha. Ele pergunta, porém, no caso de tal coisa miraculosamente acontecer e o senhor voltar com os novos navios, quem treinaria os marinheiros, os samurais e os capitães para equipá-los.

— Inicialmente eu mesmo, se isso lhe aprouvesse. Eu ficaria honrado, depois outros poderiam se seguir.

— Ele pergunta o que é "inicialmente".

— Dois anos.

Toranaga sorriu fugazmente.

— Nosso amo diz que dois anos não seria "inicialmente" suficiente. Entretanto, acrescenta, é tudo uma ilusão. Ele não está em guerra com os portugueses nem com o Senhor Hirama de Nagasaki. Repete que o que o senhor fizer fora de águas japonesas, no seu próprio navio, com a sua própria tripulação, é o seu karma. — Mariko parecia perturbada. — Fora das nossas águas o senhor é estrangeiro, diz ele. Mas aqui é samurai.

— Sim. Sei da honra que ele me concedeu. Posso perguntar como um samurai consegue dinheiro emprestado, Mariko-san?

— De um prestamista, Anjin-san. Onde mais? De um imundo mercador prestamista. — Traduziu para Toranaga. — Por que o senhor precisaria de dinheiro?

— Existem prestamistas em Yedo?

— Oh, sim. Os prestamistas estão por toda parte, neh? Não ocorre o mesmo no seu país? Pergunte à sua consorte, Anjin-san, talvez ela possa ajudá-lo. Isso faz parte do dever dela.

— A senhora disse que partimos para Yedo amanhã?

— Sim, amanhã.

— Infelizmente Fujiko-san não será capaz de viajar amanhã. Mariko conversou com Toranaga.

— O Senhor Toranaga diz que a mandará de galera, quando o navio partir. Ele pergunta por que o senhor precisa de dinheiro emprestado.

— Terei que arrumar uma nova tripulação, Mariko-san, para zarpar a qualquer parte, a fim de servir o Senhor Toranaga, caso ele o deseje. Isso é permitido?

— Uma tripulação de Nagasaki?

— Sim.

— Ele lhe dará uma resposta quando o senhor chegar a Yedo.

— Domo, Toranaga-sama. Mariko-san, quando eu chegar a Yedo, para onde vou? Haverá alguém para me orientar?

— Oh, o senhor não deve jamais se preocupar com coisas assim, Anjin-san. É um hatamoto do Senhor Toranaga. Houve uma batida na porta interna.

— Entre.

Naga abriu a shoji e curvou-se.

— Desculpe-me, Pai, mas o senhor queria ser avisado do momento cm que todos os oficiais estivessem presentes.

— Obrigado, estarei lá dentro em pouco. — Toranaga pensou um instante, depois fez sinal a Blackthorne, amistosamente. — Anjin-san, vá com Naga-san. Ele lhe mostrará o seu lugar. Obrigado pelas suas opiniões.

— Sim, senhor. Obrigado por ter escutado. Obrigado pelas suas palavras. Sim. Tento arduamente ser paciente e perfeito.

— Obrigado, Anjin-san. — Toranaga observou-o se curvar e se afastar. Quando ficaram a sós, voltou-se para Mariko: — Bem, o que pensa?

— Duas coisas, senhor. Primeiro, o ódio dele pelos jesuítas é incomensurável, superando até a aversão que tem pelos portugueses, portanto ele é um flagelo que o senhor pode usar contra qualquer um deles ou contra ambos, se o desejar. Sabemos que ele é corajoso, portanto rechaçaria arrojadamente qualquer ataque vindo do mar. Segundo, o objetivo dele ainda é dinheiro. Em sua defesa, pelo que aprendi, devo dizer que o dinheiro é o único meio real de que os bárbaros dispõem para tornar duradouro o poder. Compram terras e posição — até a rainha é uma mercadora, que "vende" terra aos seus lordes, e compra navios e terras, provavelmente. Eles não são muito diferentes de nós, senhor, exceto nisso. E também no fato de não compreenderem o poder, nem que a guerra é a vida e a vida é a morte.

— Os jesuítas são meus inimigos?

— Não acredito nisso.

— Os portugueses?

— Acredito que estejam interessados apenas em lucros, terra e a difusão da palavra de Deus.