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— Os cristãos são meus inimigos?

— Não, senhor. Embora alguns dos seus inimigos possam ser cristãos — católicos ou protestantes.

— Ah, acha que o Anjin-san é meu inimigo?

— Não, senhor. Não. Acredito que ele o honra e, com o tempo, se tornará um vassalo autêntico.

— Quanto aos nossos cristãos? Quem é inimigo?

— Os senhores Harima, Kiyama, Onoshi, e qualquer outro samurai que se volte contra o senhor.

Toranaga riu.

— Sim, mas os padres os controlam, conforme Anjin-san insinua?

— Não creio.

— Esses três vão se colocar contra mim?

— Não sei, senhor. No passado foram tanto hostis quanto amistosos em relação ao senhor. Mas se se puserem do lado de Ishido, será muito mau.

— Concordo. Sim. Você é uma conselheira de valor. É difícil para você, sendo cristã católica, ser amiga de um inimigo, ouvir idéias inimigas.

— Sim, senhor.

— Ele a pegou numa armadilha, neh?

— Sim. Mas na verdade ele tinha o direito. Eu não estava fazendo o que o senhor ordenara. Estava me colocando entre os pensamentos dele e o senhor. Por favor, aceite as minhas desculpas.

— Continuará a ser difícil. Talvez até mais.

— Sim, senhor. Mas é melhor conhecer os dois lados da moeda. Muito do que ele disse comprovou-se verdadeiro. Por exemplo, sobre o mundo sendo dividido por espanhóis e portugueses, sobre os padres contrabandeando armas, por mais impossível de crer que seja. Não deve nunca recear pela minha lealdade, senhor. Por mais grave que se torne a situação, sempre cumprirei o meu dever para com o senhor.

— Obrigado. Bem, foi muito interessante o que o Anjin-san disse, neh? Interessante, mas absurdo. Sim, obrigado, Mariko-san, você é uma conselheira valiosa. Devo ordenar que você se divorcie de Buntaro?

— Senhor?

— Bem?

Oh, ser livre, cantou o espírito dela. Oh, minha Nossa Senhora, ser livre!

Lembre-se de quem você é, Mariko, lembre-se do que é. E lembre-se de que "amor" é uma palavra bárbara.

Toranaga a observava em meio ao grande silêncio. Mosquitos vindos de fora vagavam até as espirais de incenso para disparar imediatamente para a segurança. Sim, ponderou ele, ela é um falcão. Mas contra que presa eu a lanço?

— Não, senhor — disse Mariko, finalmente. — Obrigada, senhor, mas não.

— O Anjin-san é um homem estranho, neh? Tem a cabeça cheia de sonhos. Ridículo considerar a idéia de atacar os nossos amigos portugueses, ou o Navio Negro deles. Absurdo acreditar no que ele fala sobre quatro navios, ou vinte.

Mariko hesitou.

— Se ele diz que uma marinha é possível, senhor, então acredito que seja.

— Não concordo — disse Toranaga enfaticamente. — Mas você tem razão em que ele serve de equilíbrio contra os outros, ele e o seu navio de combate. Que curioso — mas que esclarecedor! É como disse Omi no momento necessitamos dos bárbaros, para aprender com eles. E ainda há muito o que aprender, particularmente com ele, neh?

— Sim.

— É tempo de abrir o império, Mariko-san. Ishido o fechará tão apertado quanto uma ostra. Se eu fosse presidente dos regentes novamente, faria tratados com qualquer nação, desde que amistosa. Enviaria homens para aprender com as outras nações, sim, e enviaria embaixadores. A rainha deste homem seria um bom começo. Para uma rainha talvez eu devesse enviar uma embaixadora, se ela fosse inteligente o bastante.

— Ela teria que ser muito inteligente e muito forte, senhor.

— Sim. Seria uma viagem perigosa.

— Todas as viagens são perigosas, senhor — disse Mariko.

— Sim. — Novamente Toranaga se desviou sem avisar.

— Se o Anjin-san partisse com o seu navio carregado será que retornaria? Ele mesmo?

Após um longo tempo, ela disse:

— Não sei.

Toranaga resolveu não pressioná-la agora.

— Obrigado, Mariko-san — disse numa dispensa cordial. — Quero que esteja presente à reunião, para traduzir ao Anjin-san o que eu disser.

— Tudo, senhor?

— Sim. E esta noite, quando for à casa de chá para comprar o contrato de Kiku, leve o Anjin-san com você. Diga à consorte dele que tome as providências. Ele necessita de uma recompensa, neh?

— Hai.

Quando ela se encontrava junto à shoji, Toranaga disse:

— Uma vez que a questão entre mim e Ishido esteja resolvida, ordenarei que você se divorcie.

A mão dela se crispou sobre a tela. Assentiu ligeiramente em agradecimento. Mas não olhou para trás. A porta fechou-se. Toranaga observou a fumaça um instante, depois se levantou, encaminhou-se para o jardim, até a latrina, e se acocorou. Quando terminou e usou o papel, ouviu um criado puxar o recipiente de sob o buraco para substituí-lo por outro limpo. Os mosquitos zumbiam e ele os afastou distraidamente. Estava pensando em falcões e gaviões, sabendo que até os maiores falcões cometem erros, como Ishido, e Kiri, e Mariko, e Omi, e até o Anjin-san.

Os cento e cinqüenta oficiais estavam alinhados em fileiras, Yabu, Omi e Buntaro à frente. Mariko estava ajoelhada perto de Blackthorne, ao lado. Toranaga marchou sala adentro com a sua de ouro, guarda pessoal, e sentou-se sobre a almofada solitária, encarando-os.

Agradeceu-lhes a mesura, depois informou-os resumidamente sobre a essência do despacho e expôs diante deles, pela primeira vez publicamente, seu plano de batalha definitivo. Novamente omitiu a parte que se relacionava com as secretas e cuidadosamente planejadas insurreições, e também o fato de que o ataque tomaria a estrada nordeste e não a estrada costeira de sudeste. E, para aclamação geral — pois todos os seus guerreiros ficaram contentes de que finalmente a incerteza chegasse ao fim —, disse-lhes que quando as chuvas cessassem, ele pronunciaria as palavras em código "Céu Carmesim", o que os lançaria ao ataque. — Nesse meio tempo, espero que Ishido ilegalmente reúna um novo conselho de regentes. Espero ser falsamente impedido. Espero que a guerra seja declarada contra mim, contra a lei. — Inclinou-se para a frente, o punho esquerdo caracteristicamente apoiado na coxa, o outro apertado à espada.

— Ouçam. Eu apóio o testamento do táicum e reconheço meu sobrinho Yaemon como kwampaku e herdeiro do táicum. Não desejo outras honras. Mas se for atacado por traidores, devo me defender. Se traidores iludirem Sua Alteza Imperial e tentarem assumir o poder, é meu dever defender o imperador e banir o mal. Neh?

Um troar de aprovação saudou o comentário. Gritos de batalha de "Kasigi" e "Toranaga" se derramaram pela sala, para ecoarem por toda a fortaleza.

— O regimento de ataque será preparado para embarcar dentro de cinco dias em galeras com destino a Yedo, Toda Buntaro-san comandando, Kasigi Omi-san como segundo em comando. O Senhor Kasigi Yabu, por favor, mobilizará Izu e ordenará que seis mil homens se postem nas passagens da fronteira, para o caso de o traidor Ikawa Jikkyu atacar o sul para cortar as nossas linhas de comunicação. Quando as chuvas cessarem, Ishido atacará o Kwanto...

Omi, Yabu e Buntaro silenciosamente concordaram com a sabedoria de Toranaga em omitir a informação sobre a decisão daquela tarde de deslanchar o ataque na estação chuvosa, imediatamente.

Isso causará um impacto, disse-se Omi, os intestinos se contorcendo ante o pensamento de combater sob a chuva através das montanhas de Shinano.

— Nossos atiradores romperão caminho à força — dissera Yabu entusiasticamente àquela tarde.

— Sim — concordara Omi, não confiando no plano, mas não tendo alternativa para oferecer. É loucura, disse a si mesmo, embora estivesse encantado com a promoção a segundo em comando. Não compreendo como Toranaga pode conceber que haja qualquer chance de êxito na estrada nordeste.

Não há chance alguma, disse-se ele novamente, e semicerrou os ouvidos à estimulante exortação de Toranaga, a fim de se permitir concentrar-se mais uma vez no problema da sua vingança. Certamente o ataque em Shinano dará a você dezenas de oportunidades para manipular Yabu na linha de frente, sem risco para você mesmo. Guerra, qualquer guerra lhe será vantajosa, desde que não seja perdida...