Então ouviu Toranaga dizer:
— Hoje quase fui morto. Hoje o Anjin-san arrancou-me da terra. Esta é a segunda vez, talvez até a terceira, que ele me salva a vida. Minha vida não é nada em relação ao futuro do meu clã, e quem pode dizer se eu teria vivido ou morrido sem a ajuda dele? Mas, embora seja bushido que vassalos nunca devem esperar recompensa por qualquer serviço, é dever de um suserano conceder favores de tempos em tempos.
Entre a aclamação geral, Toranaga disse:
— Anjin-san, sente-se aqui! Mariko-san, você também.
Ciumentamente Omi observou o homem altaneiro se erguer e se ajoelhar no ponto que Toranaga indicara, ao seu lado, e não houve um homem na sala que não desejasse ter tido ele próprio a boa fortuna de fazer o que o bárbaro fizera.
— Ao Anjin-san é concedido um feudo próximo à aldeia pesqueira de Yokohama, ao sul de Yedo, no valor de dois mil kokus anuais, e direito de recrutar duzentos assistentes samurais, direitos absolutos de samurai e hatamoto da casa de Yoshi Toranaga-noh-Chikitada-Minowara. Além disso, receberá dez cavalos, vinte quimonos, junto com equipamento de batalha completo para os seus vassalos. E o posto de almirante-chefe e piloto do Kwanto. — Toranaga esperou até que Mariko tivesse traduzido, depois chamou: — Naga-san!
Obedientemente Naga trouxe a Toranaga o pacote embrulhado em seda. Toranaga atirou longe o envoltório. Havia duas espadas, uma curta, a outra, a espada mortífera.
— Notando que a terra engolira as minhas espadas e que eu estava desarmado, o Anjin-san desceu novamente ao abismo para buscar as suas e me dar. Anjin-san, dou-lhe estas em troca. Foram feitas pelo mestre artesão, Yori-ya. Lembre-se, a espada é a alma do samurai. Se ele a esquece, ou a perde, nunca será perdoado.
Para aclamação ainda maior, e inveja individual igualmente maior, Blackthorne pegou as espadas, curvou-se corretamente, e colocou-as no sash, curvando-se novamente em seguida.
— Obrigado, Toranaga-sama. Concede-me muita honra. Obrigado.
Começou a se afastar, mas Toranaga mandou-o ficar.
— Não, sente-se aqui, ao meu lado, Anjin-san. — Toranaga olhou de novo para o rosto militante e fanático dos seus oficiais.
Imbecis! Tinha ele vontade de gritar. Não compreendem que a guerra, tanto agora como depois das chuvas, só seria desastrosa? Qualquer guerra com Ishido-Ochiba-Yaemon e seus atuais aliados terminaria em massacre de todos os meus aliados, todos vocês, e aniquilação de mim e de toda a minha linhagem? Não compreendem que não tenho chance senão aguardando, e esperando que Ishido se estrangule?
Mas, em vez disso, incitou-os ainda mais, pois era essencial desconcertar o inimigo.
— Ouçam, samurais: logo serão capazes de provar o seu valor, homem a homem, como os nossos antepassados fizeram. Destruirei Ishido e todos os seus traidores, e o primeiro será Ikawa Jikkyu. Por isso dôo todas as terras dele, as duas províncias de Suruga e Totomi, no valor de trezentos mil kokus, ao meu fiel vassalo Kasigi Yabu, e, em Izu, confirmo-o, e à sua descendência, como governantes.
Uma estrondosa aclamação. Yabu ficou rubro de júbilo.
Omi martelava o chão, gritando de modo igualmente exultante. Agora a sua presa era ilimitada, pois por costume o herdeiro de Yabu herdaria todas as suas terras.
Então seus olhos se fixaram no Anjin-san, que aplaudia vigorosamente. Por que não deixar o Anjin-san fazê-lo por você, perguntou-se ele, e riu alto ante o pensamento imbecil. Buntaro inclinou-se para ele e deu-lhe um tapinha no ombro, amavelmente interpretando mal a risada como felicidade por Yabu.
— Logo você terá o feudo que merece, neh? — gritou por sobre o tumulto. — Você também merece reconhecimento. Suas idéias e conselhos são valiosos.
— Obrigado, Buntaro-san.
— Não se preocupe. Podemos atravessar quaisquer montanhas.
— Sim. — Buntaro era um feroz general de batalha e Omi sabia que estavam bem combinados: Omi, o audacioso estrategista, Buntaro, o destemido líder de ataque.
Se há alguém que pode nos fazer atravessar as montanhas, é ele.
Houve uma outra explosão de alegria quando Toranaga ordenou que trouxessem saquê, encerrando a reunião formal.
Omi tomou seu saquê e observou Blackthorne esvaziar outro cálice, seu quimono em ordem, as espadas corretas, Mariko ainda falando. Você mudou muitíssimo, Anjin-san, desde aquele primeiro dia, pensou ele satisfeito. Ainda tem muitas das suas idéias estranhas, mas está quase se tornando civilizado...
— O que há, Omi-san?
— Nada... nada, Buntaro-san...
— Você está com o ar que teria se um eta lhe tivesse esfregado as nádegas no rosto!
— Não é nada disso... em absoluto! Iiiiiih, é exatamente o oposto. Tive o começo de uma idéia. Beba! Ei, Flor de Pêssego, traga mais saquê, o meu Senhor Buntaro está com o cálice vazio!
CAPÍTULO 40
— Tenho instruções de indagar se Kiku-san estaria livre esta noite — disse Mariko.
— Oh, sinto muito, Senhora Toda, mas não estou certa — disse cordialmente Gyoko, a Mama-san. — Posso perguntar se o honrado cliente solicitaria a Senhora Kiku para a noite toda ou parte dela, ou talvez até amanhã, se ela já não estiver comprometida?
A Mama-san era uma mulher alta, elegante, no começo dos cinqüenta, com um sorriso adorável. Mas bebia saquê demais, seu coração era um ábaco, e o nariz podia sentir o cheiro de uma única moeda de prata a cinqüenta ris de distância.
As duas mulheres encontravam-se numa sala de oito esteiras, contíguas aos aposentos privados de Toranaga. Fora destinada a Mariko e dava para um pequeno jardim, fechado pelo primeiro dos muros internos de defesa. Chovia novamente e os pingos faziam archotes faiscarem.
— Isso seria um assunto que caberia ao cliente decidir — disse Mariko delicadamente. — Talvez se pudesse fazer um acordo agora que abrangesse qualquer eventualidade.
— Sinto muito, por favor, desculpe-me por eu não saber da disponibilidade dela imediatamente. Ela é muito procurada, Senhora Toda. Estou certa de que compreende.
— Oh, sim, claro. Somos realmente muito afortunados de ter uma dama da sua qualidade aqui em Anjiro. — Mariko acentuara o "Anjiro". Mandara chamar Gyoko ao invés de ir visitá-la, como poderia ter feito. E quando a mulher chegara, tarde o suficiente para ser distinta, mas não o suficiente para ser rude, Mariko ficara contente com a oportunidade de terçar armas com uma adversária tão à sua altura.
— A casa de chá ficou muito danificada? — perguntou.
— Não, felizmente, com exceção de alguma louça de valor e roupas, embora vá custar uma pequena fortuna para reparar o telhado e pôr ordem no jardim. É sempre tão dispendioso conseguir que as coisas sejam feitas rapidamente, não acha?
— Sim. É muito cansativo. Em Yedo, em Mishima, ou mesmo nesta aldeia.
— É tão importante ter arredores tranqüilos, neh? O cliente nos honraria, talvez, na casa de chá? Ou desejaria que Kiku-san o visitasse aqui, se ela estiver disponível?
Mariko franziu os lábios, pensando.
— Na casa de chá.
— Ah, so desu! — O verdadeiro nome de Mama-san era Heiko-ichi, Primeira Filha do Construtor de Muros. Seu pai e seu avô tinham sido especialistas na construção de muros de jardim. Durante muitos anos ela fora cortesã em Mishima, a capital de Izu, atingindo a categoria de segunda classe. Mas os deuses lhe sorriram e, com presentes do seu protetor, associados a um astuto senso de negócios, juntara dinheiro suficiente para comprar o próprio contrato a bom tempo e assim tornar-se uma empresária de damas, com uma casa de chá própria, quando deixara de ser procurada pelo corpo excelente e o espírito atrevido com que os deuses a haviam dotado. Agora se chamava Gyoko-san, Senhora Sorte. Aos catorze anos, ainda cortesã iniciante, recebera o nome de Tsukaiko — Senhora Encantadora de Cobras. Sua proprietária lhe explicara que aquela parte especial do homem podia ser comparada a uma cobra, que cobras davam sorte, e que se ela conseguisse se tornar uma encantadora de cobras, nesse sentido, teria um êxito imenso. Além disso o nome faria os clientes rirem, e o riso era essencial naquele negócio. Gyoko nunca se esquecera da advertência sobre o riso.