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— Saquê, Gyoko-san?

— Sim, obrigada, Senhora Toda, obrigada.

A criada serviu. Depois Mariko dispensou-a.

Beberam silenciosamente um momento. Mariko tornou a encher os cálices.

— Que louça adorável. Tão elegante — disse Gyoko.

— É muito pobre. Sinto muito que tenhamos que usá-la.

— Se eu conseguisse deixá-la disponível, cinco kobans seriam uma soma aceitável? — Um koban era uma moeda de ouro que pesava dezoito gramas. Equivalia a três kokus de arroz.

— Desculpe, talvez eu não me tenha feito clara. Não desejava comprar toda a casa de chá de Mishima, apenas os serviços da dama por uma noite.

Gyoko riu. — Ah, Senhora Toda, sua reputação é bem merecida. Mas posso assinalar que Kiku-san é de primeira categoria? A corporação concedeu-lhe essa honra no ano passado.

— Estou certa de que a classificação é merecida. Mas isso foi em Mishima. Mesmo em Kyoto... mas é claro que a senhora estava fazendo pilhéria, desculpe.

Gyoko engoliu a vulgaridade que lhe estava na ponta da língua e sorriu benevolamente.

— Infelizmente eu teria que reembolsar os clientes que, se bem me lembro, já reservaram. Pobre criança, quatro dos seus quimonos ficaram arruinados quando a água extinguiu as chamas. Tempos difíceis se aproximam, senhora. Tenho certeza de que compreende. Cinco não seria irrazoável.

— Claro que não. Cinco seria justo em Kyoto, para uma semana de orgia, com duas damas de primeira classe. Mas os tempos não são normais e é preciso fazer economias. Meio koban. Saquê, Gyoko-san?

— Obrigada, obrigada. O saque é muito bom, a qualidade é excelente, excelente. Só mais um, por favor, depois tenho que ir. Se Kiku-san não estiver livre esta noite, ficaria encantada em combinar com uma das outras damas. Akeko, talvez. Ou talvez outro dia seria satisfatório? Depois de amanhã, talvez?

Mariko não respondeu por um instante. Cinco kobans eram um ultraje — tanto quanto se pagaria por uma famosa cortesã de primeira classe em Yedo. Meio koban seria mais que razoável para Kiku. Mariko conhecia os preços das cortesãs porque Buntaro as usava de tempos em tempos, chegara até a comprar o contrato de uma, e ela tivera que pagar as contas, as quais, como era natural e correto, tinham-lhe sido encaminhadas. Seus olhos avaliaram Gyoko. A mulher sorvia seu saquê calmamente, a mão firme.

— Talvez — disse Mariko. — Mas não creio, nem outra dama nem outra noite... Não, se não puder combinar para esta noite, receio que depois de amanhã seria tarde demais, sinto muito. E quanto a uma outra dama... — Mariko sorriu e deu de ombros.

Gyoko pousou o cálice tristemente.

— Ouvi dizer, realmente, que os nossos gloriosos samurais estão de partida. Que pena! As noites são tão agradáveis aqui. Em Mishima não se tem a brisa do mar como aqui. Também sentirei muito partir daqui.

— Talvez um koban. Se este acordo for satisfatório, depois eu gostaria de discutir quanto custaria o contrato dela.

— O contrato dela!

— Sim. Saque?

— Sim, obrigada. Contrato... o contrato dela? Bem, isso é outra coisa. Cinco mil kokus.

— Impossível!

— Sim — concordou Gyoko —, mas Kiku-san é como se fosse minha filha. É minha filha, mais do que a minha própria filha. Eduquei-a desde os seis anos de idade. É a dama do Mundo do Salgueiro mais completa de toda Izu. Oh, eu sei, em Yedo a senhora encontraria damas formidáveis, mais espirituosas, mais mundanas, mas isso só porque Kiku-san não teve a boa fortuna de cruzar com a mesma qualidade de pessoas. Mas mesmo agora, nenhuma se equipara em canto e no samisen. Juro por todos os deuses. Dê-lhe um ano em Yedo, com o protetor certo e as fontes de conhecimento, e ela competirá satisfatoriamente com qualquer cortesã do império. Cinco mil kokus é uma soma pequena por uma flor como ela. — A perspiração porejava na testa da mulher. — A senhora deve me desculpar, mas nunca considerei antes a venda do contrato dela. Mal tem dezoito anos, é imaculada. Na realidade penso que jamais poderei vender-lhe o contrato, mesmo pelo preço mencionado. Não, acho que terei que reconsiderar, sinto muito. Talvez pudéssemos discutir isso amanhã. Perder Kiku-san? Minha pequena Kiku-chan? — Lágrimas juntaram-se nos cantos dos olhos da mulher e Mariko pensou: essas lágrimas são tão autênticas, Gyoko, quanto o fato de você nunca ter-se entregado a um Pilão Magnífico.

— Sinto muito. Shikata ga nai, neh? — disse cortesmente, e deixou a mulher lamentar-se e chorar, enchendo-lhe continuamente o cálice. Quanto será que o contrato vale realmente? perguntava a si mesma. Quinhentos kokus seriam fantasticamente mais do que justo. Depende da ansiedade do homem, que neste caso não está ansioso. Certamente o Senhor Toranaga não está. Para quem estará comprando? Omi? Provavelmente. Mas por que Toranaga ordenou que o Anjin-san viesse aqui?

— Concorda, Anjin-san? — perguntara-lhe com um riso nervoso, por sobre a turbulência dos oficiais embriagados.

— Está dizendo que o Senhor Toranaga arranjou uma dama para mim? Como parte da minha recompensa?

— Sim. Kiku-san. Dificilmente o senhor poderia recusar. Eu... recebi ordem de interpretar.

— Ordem?

— Oh, ficarei feliz em interpretar para o senhor. Mas, Anjin-san, o senhor de fato não pode recusar. Seria terrivelmente descortês, depois de tantas honras, neh? — Ela lhe sorrira, desafiando-o, orgulhosa e encantada com a inacreditável generosidade de Toranaga. — Por favor. Nunca estive numa casa de chá... adoraria ver a mim mesma conversando com uma autêntica dama do Mundo do Salgueiro.

— O quê?

— Oh, elas são chamadas assim porque se supõe que sejam tão graciosas quanto salgueiros. Às vezes é Mundo Flutuante, porque são comparadas a lírios flutuando num lago. Vamos, Anjin-san, concorde, por favor.

— E Buntaro-sama?

— Oh, ele sabe que devo fazer os arranjos para o senhor. O Senhor Toranaga lhe disse. É tudo muito difícil, naturalmente. Recebi ordem. O senhor também! — Depois dissera em latim, muito contente de que mais ninguém em Anjiro falasse a língua: — Há uma outra razão que lhe direi mais tarde.

— Ah... diga agora.

— Mais tarde. Mas concorde, com prazer. Porque eu estou pedindo.

— A senhora... como posso lhe recusar?

— Mas com prazer. Tem que ser com prazer. Prometa!

— Com riso. Prometo que tentarei. Não lhe prometo nada além de que tentarei fazer o melhor.

Depois ela o deixara se preparar.

— Oh, fico perturbada com o simples pensamento de vender o contrato da minha beldade — estava gemendo Gyoko. — Sim, obrigada, só mais um pouco de saquê. Depois realmente tenho que ir embora. — Esvaziou o cálice e estendeu-o debilmente para ser enchido de novo. — Digamos dois kobans para esta noite... uma prova do meu desejo de agradar a uma senhora de tanto mérito?

— Um. Se isso for combinado, talvez possamos falar mais sobre o contrato, esta noite, na casa de chá. Sinto muito por ser precipitada, mas o tempo, a senhora compreende... — Mariko acenou vagamente na direção da sala de conferência. — Negócios de Estado... o Senhor Toranaga... o futuro do reino... a senhora compreende, Gyoko-san.

— Oh, sim, Senhora Toda, naturalmente. — Gyoko começou a se levantar. — Estamos de acordo em um koban e meio para a noite. Ótimo, então isso está...

— Um.

— Oh ko, senhora, o meio koban é um mero símbolo e nem merece discussão — lamuriou-se Gyoko, agradecendo aos deuses pela sua sagacidade e mantendo a angústia fingida no rosto. Um koban e meio seria paga tripla. Mas mais do que o dinheiro, aquilo era, finalmente, o primeiro convite vindo da aristocracia autêntica de todo o Japão, coisa de que vinha atrás há muito tempo, pela qual ela de bom grado aconselharia Kiku-san a fazer tudo por nada, duas vezes. — Por todos os deuses, Senhora Toda, coloco-me à sua mercê, um koban e meio. Por favor, pense nas minhas outras crianças, que têm que ser vestidas e treinadas e alimentadas durante anos, que não se tornam tão inestimáveis como Kiku-san, mas que têm que ser nutridas como ela.