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— Um koban, de ouro, amanhã. Neh?

Gyoko ergueu o frasco de porcelana e encheu dois cálices. Ofereceu um a Mariko, bebeu o outro, e tornou a encher o seu imediatamente.

— Um — disse ela, a voz abafada.

— Obrigada, é muito gentil e atenciosa. Sim, os tempos estão difíceis. — Mariko sorveu o seu vinho afetadamente. — O Anjin-san e eu estaremos na casa de chá dentro em breve.

— Hein? O-que-foi-que-disse?

— Que o Anjin-san e eu logo estaremos na casa de chá. Vou interpretar para ele.

— O bárbaro? — exclamou Kiku, boquiaberta.

— O bárbaro. E estará aqui a qualquer momento, a menos que o detenhamos... com ela, a hárpia mais cruel e que já conheci, que renasça como prostituta de décima quinta categoria!

Apesar do seu temor, Kiku riu francamente.

— Oh, Mamasan, por favor, não se aflija! Ela parece uma senhora tão adorável, e um koban inteiro... a senhora realmente fez um negócio maravilhoso! Ora, ora, temos muito tempo. Primeiro um pouco de saque para dissipar o seu azedume. Ako, rápida como um beija-flor!

Ako desapareceu.

— Sim, o cliente é o Anjin-san. — Gyoko quase sufocou de novo.

Kiku abanou-a e Hana, a pequena aprendiz, abanou-a e segurou-lhe ervas aromáticas junto ao nariz. — Pensei que ela estivesse negociando para o Senhor Buntaro... ou o próprio Senhor Toranaga. Claro que quando ela disse que era o Anjin-san eu perguntei por que a consorte dele mesma, a Senhora Fujiko, não negociou, conforme a educação correta determina, mas tudo o que ela disse foi que a senhora está seriamente doente, com queimaduras, e ela recebeu ordem do próprio Senhor Toranaga de conversar comigo.

— Oh! Oh, como eu seria afortunada de servir ao senhor!

— Você o fará, criança, fará se nós planejarmos. Mas o bárbaro! O que pensarão todos os seus outros clientes? O que dirão? Claro que deixei a coisa em suspenso, dizendo à Senhora Toda que não sabia se você estava livre, portanto você ainda pode recusá-lo se quiser, sem ofensa.

— O que os outros clientes podem dizer? O Senhor Toranaga ordenou isso. Não há nada a fazer, neh? — Kiku dissimulou a própria apreensão.

— Oh, você pode recusar facilmente. Mas tem que ser rápida, Kiku-chan. Oh ko, eu devia ter sido mais esperta... devia.

— Não se preocupe, Gyoko-sarna. Tudo dará certo. Mas temos que pensar com clareza. É um grande risco, neh?

— Sim. Enorme.

— Nunca poderemos voltar atrás se aceitarmos.

— Sim. Eu sei.

— Aconselhe-me.

— Não posso, Kiku-chan. Sinto que fui pega numa armadilha por kamis. A decisão deve ser sua.

Kiku avaliou todos os horrores. Depois avaliou as vantagens.

— Vamos arriscar. Vamos aceitá-lo. Afinal de contas, é samurai, e hatamoto, e o vassalo favorito do Senhor Toranaga. Não se esqueça do que disse o adivinho: que eu a ajudaria a ficar rica e famosa para sempre. Rezo para poder fazer isso, para poder retribuir-lhe todas as gentilezas.

Gyoko acariciou o adorável cabelo de Kiku.

— Oh, criança, você é tão boa, obrigada, obrigada. Sim, acho que é sábia. Concordo. Deixemos que ele nos visite. — Beliscou-lhe a maçã do rosto afetuosamente. — Você sempre foi a minha favorita! Mas eu teria pedido o dobro pelo almirante bárbaro, se soubesse.

— Mas conseguimos o dobro, Mama-san.

— Deveríamos receber o triplo!

Kiku deu um tapinha na mão de Gyoko.

— Não se preocupe... este é o começo da sua boa fortuna.

— Sim, e é verdade que o Anjin-san não é nenhum bárbaro comum, mas um samurai e hatarnoto. A Senhora Toda contou-me que ele recebeu um feudo de dois mil kokus, foi feito almirante de todos os navios de Toranaga, e toma banho como uma pessoa civilizada e não fede mais...

Ako chegou sem fôlego e serviu o vinho sem derramar uma gota. Quatro cálices desapareceram em rápida sucessão. Gyoko começou a se sentir melhor.

— Esta noite tem que ser perfeita. Sim. Se o Senhor Toranaga ordenou, claro que tem que ser. Ele não ordenaria pessoalmente se não fosse importante para ele pessoalmente, neh? E o Anjin-san é realmente como um daimio. Dois mil kokus anuais... por todos os kamis, devíamos mesmo ter uma sorte tão boa! Kiku-san, ouça! — Chegou mais perto, e o mesmo fez Ako, toda olhos. — Perguntei à Senhora Toda, vendo que ela falava a infame linguagem deles, se conhecia alguns dos estranhos costumes ou modos deles, histórias, danças, posições, canções, instrumentos ou estimulantes que o Anjin-san preferiria.

— Ah, isso seria muito útil, muito — disse Kiku, assustada e desejando ter tido a prudência de recusar.

— Ela não me disse nada! Fala a língua deles, mas não conhece nada sobre os hábitos de "travesseiro". Perguntei-lhe se já lhe havia perguntado alguma vez e ela disse que sim, mas com resultados desastrosos. — Gyoko relatou o ocorrido no Castelo de Osaka. — Você pode imaginar como isso deve ter sido embaraçoso!

— Pelo menos sabemos que não devemos sugerir meninos... já é alguma coisa.

— Além disso, há apenas a criada da casa!

— Temos tempo para mandar buscar a criada?

— Fui lá eu mesma. Direto à fortaleza. Nem um mês de salário abriu a boca da garota, carunchinho estúpido!

— Ela é apresentável?

— Oh, sim, para uma criada amadora e destreinada. Tudo o que disse foi que o amo era viril e não era pesado, que "travesseirava" abundantemente, na posição mais comum. E que era generosamente dotado.

— Isso não ajuda muito, Mama-san.

— Eu sei. Talvez o melhor a fazer seja ter tudo preparado, só para o caso de ser necessário. Tudo.

— Sim. Simplesmente terei que ser mais cautelosa. É muito importante que saia tudo perfeito. Será muito difícil — se não impossível — entretê-lo corretamente se eu não conversar com ele.

— A Senhora Toda disse que interpretaria.

— Ah, que gentileza da parte dela. Isso ajudará enormemente, embora não seja a mesma coisa, claro.

— É verdade, é verdade. Mais saque, Ako... graciosamente, criança, sirva graciosamente. Mas Kiku-san, você é uma cortesã de primeira classe. Improvise. O almirante bárbaro salvou a vida do Senhor Toranaga hoje, e senta-se à sombra dele. Nosso futuro depende de você! Sei que conseguirá lindamente. Ako!

— Sim, ama!

— Certifique-se de que os futons estejam perfeitos, que tudo esteja perfeito. Veja que as flores... não. Eu mesma cuidarei das flores! E o Cozinheiro, onde está o Cozinheiro? — Deu um tapinha no joelho de Kiku. — Use o quimono dourado, com o verde por baixo. Temos que impressionar muito a Senhora Toda esta noite. — Saiu correndo para começar a pôr a casa em ordem, todas as damas, criadas, aprendizes e empregados apressados limpando e ajudando, muito orgulhosos da boa fortuna que tocara a sua casa.

Quando tudo ficou arrumado, o horário das outras garotas reajustado, Gyoko foi para o seu quarto e deitou-se um instante para recuperar as forças. Ainda não havia falado a Kiku sobre a oferta do contrato.

Vou esperar e ver, pensou. Se conseguir fazer o acordo que pretendo, então talvez eu deixe a minha adorável Kiku partir. Mas nunca antes de saber com quem. Fico contente por ter tido a antevisão de deixar isso claro à Senhora Toda antes de vir embora. Por que está chorando, sua velha tola? Está bêbada de novo? Ponha os miolos a funcionar! De que lhe serve a infelicidade?

— Hana-chan!

— Sim, Mãe-sama? — A criança veio correndo a ela. Seis anos recém-completados, grandes olhos castanhos, e um cabelo longo, encantador. Usava um quimono novo, de seda escarlate. Gyoko a comprara há dois dias, por intermédio de Mura e do vendedor de crianças local.