— Farei isso, se lhe apraz, embora... — Seu sorriso foi adorável.
— Obrigada, Mariko-sama.
Feriu o acorde. Desde o momento em que os hóspedes atravessaram o portão, entrando no mundo dela, todos os seus sentidos tinham-se aguçado. Observara-os secretamente enquanto estavam com Gyoko-san e enquanto estiveram sozinhos, procurando qualquer indício de como agradá-lo ou como impressionar a Senhora Toda.
Não estava preparada para o que logo se tornou óbvio: o Anjin-san desejava a Senhora Toda, embora o dissimulasse tão bem quanto qualquer pessoa civilizada. Isso, em si, não era de surpreender, pois a Senhora Toda era muito bonita, completa e, o mais importante, era a única que podia conversar com ele. O que a assombrou foi que teve certeza de que a Senhora Toda o desejava igualmente, se não mais.
O samurai bárbaro e a senhora samurai, filha patrícia do assassino Akechi Jinsai, esposa do Senhor Buntaro! Iiih! Pobre homem, pobre mulher. Muito triste. Com certeza isso vai terminar em tragédia.
Kiku sentiu-se prestes a irromper em lágrimas ao pensar na tristeza da vida, na injustiça. Oh, como desejaria ser samurai e não camponesa, de modo a poder até me tornar consorte de Omi-sama, não apenas um brinquedo temporário. De bom grado daria a minha esperança de renascer em troca disso.
Afaste a tristeza. Dê prazer, é esse o seu dever.
Seus dedos feriram um segundo acorde, um acorde cheio de melancolia. Então notou que embora Mariko estivesse encantada com a sua música, o Anjin-san não estava.
Por quê? Kiku sabia que não era por causa do seu modo de tocar, pois tinha certeza de que tocava quase perfeitamente. Talento como o seu era concedido a poucas.
Um terceiro acorde, mais bonito, experimentalmente. Não há dúvida, disse-se ela impaciente, isto não lhe agrada. Deixou que o acorde se extinguisse e começou a cantar sem acompanhamento, sua voz elevando-se com as repentinas mudanças de ritmo que se levava anos para aprender. Novamente Mariko ficou fascinada, ele não, então imediatamente Kiku parou. — Esta noite não é para música nem canto — anunciou. — Esta noite é para felicidade. Mariko-san, como digo "por favor" na língua dele?
— "Por favor".
— Por favor, Anjin-san, esta noite devemos apenas rir, neh? — Domo, Kiku-san. Hai.
— É difícil entreter sem palavras, mas não impossível, neh? Ah, já sei! — Pôs-se em pé e começou a fazer pantomimas cômicas — daimio, kaga, pescador, falcoeiro, um samurai pomposo, até um velho fazendeiro coletando um balde cheio —, e as fez tão bem e tão humoristicamente que logo Mariko e Blackthorne estavam rindo e. aplaudindo. Então ela ergueu a mão. Brejeiramente começou a mostrar através de mímica um homem urinando, segurando-se ou achando falta de alguma coisa, agarrando, procurando o insignificante ou maravilhado com o inacreditável, em todos os estágios de sua vida, começando primeiro como uma criança molhando a cama e berrando, depois um rapaz apressado, outro tendo que se deter, outro com tamanho, outro com pequenez ao ponto de “onde foi parar", e finalmente um homem muito velho gemendo de êxtase simplesmente por ser capaz de urinar.
Kiku curvou-se ao aplauso e tomou um gole de chá, secando com tapinhas a leve perspiração da testa. Notou que ele estava contraindo os ombros e as costas.
— Oh, por favor, senhor! — disse em português, e se ajoelhou atrás dele e começou a massagear-lhe a nuca.
Seus dedos experientes imediatamente encontraram os pontos de prazer.
— Oh, Deus, isso é... hai... bem aí!
Ela fez conforme ele pedia. — Seu pescoço logo estará melhor. Está sentado há muito tempo, Anjin-san!
— Isso é muito bom, Kiku-san. Faz Suwo quase mau!
— Ah, obrigada, Mariko-san, os ombros do Anjin-san são tão vastos, e a senhora me ajudaria? Cuide do ombro esquerdo, enquanto eu me ocupo do direito, sim? Desculpe, mas as minhas mãos não são suficientemente fortes.
Mariko permitiu-se ser persuadida e fez o que ela pedira. Kiku ocultou o próprio sorriso ao senti-lo retesar-se sob os dedos de Mariko, e ficou muito satisfeita com as suas improvisações. Agora o cliente estava sendo satisfeito através do seu talento e conhecimento, e manobrado como devia ser.
— Está melhor, Anjin-san?
— Bem, muito bem, obrigado.
— Oh, não há de quê. O prazer é meu. Mas a Senhora Toda é muito mais hábil do que eu. — Kiku podia sentir a atração entre eles, embora tentassem esconde-la. — Agora um pouco de comida, talvez. — Veio imediatamente.
— Para o senhor, Anjin-san — disse orgulhosamente. O prato continha um pequeno faisão, cortado em pedaços minúsculos assados sobre brasas, com um molho doce de soja. Ela serviu.
— Está delicioso, delicioso — disse ele. E estava.
— Mariko-san?
— Obrigada. — Mariko pegou um pedaço simbólico, que não comeu.
Kiku segurou um fragmento nos pauzinhos e mastigou-o com prazer.
— Está bom, neh?
— Não, Kiku-san, está ótimo! Ótimo!
— Por favor, Anjin-san, coma mais. — Ela pegou um segundo bocado. — Há muito.
— Obrigado. Por favor. Como foi... como isto? — Apontou para o espesso molho marrom.
Mariko traduziu.
— Kiku diz que é açúcar com soja e um pouco de gengibre. Perguntou se o senhor tem açúcar e soja no seu país.
— Açúcar de beterraba sim, soja, não, Kiku-san.
— Oh! Como pode alguém viver sem soja? — Kiku tornou-se solene. — Por favor, diga ao Anjin-san que temos açúcar aqui há mil anos. O monge budista Ganjin trouxe-o da China. Todas as nossas melhores coisas vieram da China, Anjin-san. O chá chegou a nós há cerca de quinhentos anos. O monge budista Eisai trouxe sementes e plantou-as na província de Chikuzen, onde nasci. Também trouxe o zen-budismo.
Mariko traduziu com igual formalidade, então Kiku soltou uma gargalhada. — Oh, desculpe, Mariko-sarna, mas os dois pareciam tão graves. Eu só estava fingindo solenidade em relação ao chá... como se tivesse importância! Era só para diverti-los.
Observaram Blackthorne terminar o faisão.
— Bom — disse ele. — Muito bom. Por favor, agradeça a Gyoko-san.
— Ela ficará honrada. — Kiku serviu mais saquê para os dois. Depois, sabendo que era tempo, disse inocentemente: — Posso perguntar o que aconteceu hoje durante o terremoto? Ouvi dizer que o Anjin-san salvou a vida do Senhor Toranaga. Consideraria uma honra saber em primeira mão.
Acomodou-se pacientemente, deixando Blackthorne e Mariko apreciar o relato, juntando um "oh" ou "que aconteceu depois?", ou servindo saquê, nunca interrompendo, sendo a ouvinte perfeita.
Quando terminaram, Kiku maravilhou-se com a bravura deles e com a boa fortuna do Senhor Toranaga. Conversaram algum tempo, depois Blackthorne levantou-se e a criada recebeu ordem de mostrar-lhe o caminho.
Mariko rompeu o silêncio.
— Você nunca tinha comido carne antes, tinha, Kiku-san?
— É meu dever fazer tudo o que posso para agradá-lo, só por algum tempo, neh?
— Eu não sabia como uma dama podia ser perfeita. Compreendo agora por que tem sempre que haver um Mundo Flutuante, um Mundo do Salgueiro, e como os homens têm sorte, como sou inadequada.
— Oh, não tive a intenção, Mariko-sama, nunca. E não é a nossa intenção. Estamos aqui apenas para agradar, por um momento fugaz.
— Sim. Eu só quis dizer que a admirava muito. Gostaria que fosse minha irmã.
Kiku curvou-se.
— Eu não seria digna dessa honra. — Havia cordialidade entre elas. — Este é um lugar muito secreto e todo o mundo merece confiança, não há olhos à espreita. A sala de prazer no jardim é muito escura, se alguém a desejar escura. E a escuridão guarda todos os segredos.
— O único modo de guardar um segredo é estar sozinha e sussurrá-lo dentro de um poço vazio ao meio-dia, neh? — disse Mariko despreocupadamente, precisando de tempo para se decidir.
— Entre irmãs não há necessidade de poços. Dispensarei a minha criança até o amanhecer. Nossa sala de prazer é um lugar muito privado.