— Lá você deve ficar sozinha com ele.
— Sempre posso ficar sozinha, sempre.
— É muito gentil comigo, Kiku-chan, muito atenciosa.
— É uma noite mágica, neh? E muito especial.
— Noites mágicas terminam cedo demais, Irmãzinha. Noites mágicas são para as crianças, neh? Não sou uma criança.
— Quem sabe o que acontece numa noite mágica? A escuridão encerra tudo.
Mariko meneou a cabeça, triste, e tocou-a ternamente.
— Sim. Mas para ele, se a noite contivesse você, seria tudo.
Kiku fez uma pausa. Depois disse. Sou um presente para o Anjin-san? Ele não pediu por mim pessoalmente?
— Se a tivesse visto, como poderia não pedir? Sinceramente, é uma honra para ele que você o tenha recebido. Compreendo isso agora.
— Mas ele me viu uma vez, Mariko-san. Eu estava com Omi-san quando ele passou a caminho do navio para ir para Osaka, na primeira vez.
— Oh, mas o Anjin-san disse que viu Midori-san com Omi-san. Era você? Ao lado do palanquim?
— Sim, na praça. Oh, sim, era eu, Mariko-san, não a senhora esposa de Omi-sama. Ele me disse "konnichi wa”. Mas, claro, ele não se lembraria. Como poderia? Foi durante a sua vida anterior, neh?
— Oh, ele se lembra dela, a bela garota com a sombrinha verde. Disse que era a garota mais bela que já vira. Falou-me dela muitas vezes. — Mariko estudou-a mais de perto. — Sim, Kiku-san, você poderia facilmente ser confundida com ela num dia como aquele, sob a sombrinha.
Kiku serviu saquê e Mariko ficou fascinada pela sua elegância inconsciente.
— Minha sombrinha era verde-mar — disse Kiku, muito satisfeita de que ele se lembrasse.
— Como era o Anjin-san então? Muito diferente? A Noite dos Gritos deve ter sido terrível.
— Sim, sim, foi. E ele era mais velho então, a pele do rosto repuxada... Mas ficamos sérias demais, Irmã Mais Velha. Ah, não sabe como me sinto honrada em ser autorizada a chamá-la assim. Esta é uma noite de prazer apenas. Nada de seriedade mais, neh?
— Sim. Concordo. Por favor, perdoe-me.
— Agora, passando a assuntos mais práticos, a senhora me daria alguns conselhos?
— Pois não — disse Mariko, igualmente amistosa.
— Quanto a "travesseiro", as pessoas do país dele preferem algum instrumento ou posição de que a senhora esteja a par? Desculpe por perguntar, mas talvez a senhora pudesse me orientar.
Mariko precisou de todo o seu treinamento para permanecer impassível.
— Não, não que eu saiba. O Anjin-san é muito suscetível a qualquer coisa que tenha a ver com "travesseiro".
— Ele poderia ser interrogado de algum modo indireto?
— Não creio que você possa fazer perguntas a um estrangeiro assim. Com certeza não ao Anjin-san. E, sinto muito, não sei quais são os instrumentos, exceto, claro, o harigata.
— Ah! — Novamente a intuição de Kiku a guiou e ela perguntou com naturalidade. — A senhora gostaria de vê-los? Eu poderia mostrá-los, talvez com ele lá, então não seria preciso perguntar-lhe. Poderíamos ver pelas reações dele.
Mariko hesitou, sua curiosidade turvando-lhe a capacidade de julgamento.
— Se pudesse ser feito com humor...
Ouviram Blackthorne aproximando-se. Kiku deu-lhe boas-vindas e serviu vinho. Mariko tomou o seu, contente por não estar mais sozinha, embaraçadamente certa de que Kiku podia ler-lhe os pensamentos.
Tagarelaram, jogaram alguns jogos e, quando Kiku julgou que chegara o momento certo, perguntou-lhes se não gostariam de ver o jardim e as salas de prazer.
Saíram para a noite. O jardim faiscava à luz dos archotes onde as gotas de chuva ainda escorriam. O caminho coleava ao lado de um lago minúsculo e uma gorgolejante queda d'água.
Na extremidade do caminho ficava a pequena casa isolada no centro do bosque de bambu. Erguia-se sobre solo tratado e tinha quatro degraus até a varanda que a rodeava. Tudo na construção de dois cômodos era de bom gosto e caro. As melhores madeiras, a melhor carpintaria, os melhores tatamis, as melhores almofadas de seda, os mais elegantes reposteiros no takonoma.
— É encantador, Kiku-san — disse Mariko.
— A casa de chá em Mishima é muito mais bonita, Mariko-san. Por favor, ponha-se à vontade, Anjin-san! Por favor, isto lhe agrada, Anjin-san?
— Sim, muitíssimo.
Kiku viu que ele ainda estava inebriado pela noite e pelo saquê, mas totalmente consciente de Mariko. Estava muito tentada a se levantar, entrar para a sala onde os futons estavam desdobrados, sair para a varanda de novo e ir embora. Mas se o fizesse sabia que estaria violando a lei. Mais que isso, sentia que tal atitude seria irresponsável, pois sabia que no íntimo Mariko estava pronta e já quase ultrapassara qualquer preocupação.
Não, pensou, não devo empurrá-la para uma indiscrição trágica, por mais valiosa que pudesse ser para o meu futuro. Ofereci, mas Mariko-san se impôs recusar. Prudentemente. Serão amantes? Não sei. Isso é o karma deles.
Ela se inclinou para a frente e riu, com ar de cúmplice.
— Ouça, Irmã Mais Velha, por favor, diga ao Anjin-san que há alguns instrumentos de "travesseiro" aqui. Ele os tem no seu país?
— Diz que não, Kiku-san. Lamenta mas nunca ouviu falar de nenhum.
— Oh! Ele não se divertiria em vê-los? Estão na sala ao lado, posso ir buscá-los. São realmente muito excitantes.
— Gostaria de vê-los, Anjin-san? Ela diz que são realmente muito engraçados. — Mariko mudou deliberadamente a palavra.
— Por que não? — disse Blackthorne, a garganta apertada, todo o seu ser carregado com a consciência do perfume e feminilidade delas. — Vocês... vocês usam instrumentos para "travesseirar"? — perguntou.
— Kiku-san diz que às vezes sim. Diz, e isso é verdade, que é nosso costume sempre tentar prolongar o momento das Nuvens e Chuva, pois acreditamos que por esse breve instante nós, mortais, tornamo-nos um com os deuses. — Mariko observava-o. — Por isso é muito importante fazê-lo durar tanto quanto possível, neh? Quase um dever, neh?
— Sim.
— Sim. Ela diz que tornar-se um com os deuses é muito essencial. É uma boa crença e bem possível, não acha? A sensação de Aguaceiro é tão extraterrena e divina. Não é? Portanto qualquer meio de se igualar aos deuses tanto tempo quanto possível é nosso dever, neh?
— Sim. Oh, sim.
— Aceitaria um pouco de saque? Anjin-san? — Obrigado.
Ela se abanou.
— Isso sobre Aguaceiro e Nuvens e Chuva ou Fogo e Torrente, como chamamos às vezes, é muito japonês, Anjin-san. É muito importante ser japonês em coisas de "travesseiro", neh?
Para seu alívio, ele sorriu e se curvou para ela como um palaciano.
— Sim. Muito. Sou japonês, Mariko-san. Honto!
Kiku voltou com a caixa revestida de seda. Abriu-a e tirou um substancial pênis em tamanho natural, feito de marfim, e outro feito de material mais suave, elástico, que Blackthorne nunca vira antes. Negligentemente, colocou-os de lado.
— Isso, naturalmente, são harigatas comuns, Anjin-san — disse Mariko desinteressada, de olhos grudados nos outros objetos.
— Isso é um fato? — disse Blackthorne, sem saber o que dizer. — Mãe de Deus!
— Mas é só um harigata comum, Anjin-san. Com certeza as suas mulheres os têm!
— Certamente que não! Não, não têm — exclamou ele, tentando se lembrar do humor.
Mariko não podia acreditar. Explicou a Kiku, que ficou igualmente surpresa. Kiku falou longamente, Mariko concordando.
— Kiku-san diz que isso é muito estranho. Devo concordar, Anjin-san. Aqui quase todas as garotas usam um harigata para se aliviar, sem pensar duas vezes. De que outro modo uma garota pode permanecer saudável quando tem restrições onde o homem não tem? Tem certeza, Anjin-san? Não está arreliando?
— Não... eu, eu, tenho certeza de que as nossas mulheres não os têm. Isso seria... Jesus, isso... bem, não, nós... elas... não os têm.