— Sem eles a vida deve ser muito difícil. Temos um ditado que diz que um harigata é como um homem, mas melhor, porque é exatamente como a melhor parte dele, sem as partes piores. Neh? E também é melhor porque nem todos os homens são... têm uma suficiência, como os harigatas têm. Além disso, são devotados, Anjin-san, e nunca se cansam da gente, como um homem se cansaria. E podem ser tão ásperos ou macios... Anjin-san, o senhor prometeu, lembra-se? Com humor!
— Tem razão! — Blackthorne sorriu. — Por Deus, a senhora tem razão. Por favor, desculpe-me. — Pegou o harigata e o estudou de perto, assobiando desafinado. Depois levantou-o. — Estava dizendo, Professora-san? Pode ser áspero?
— Sim — disse ela alegremente. — Pode ser tão áspero ou liso como se desejar, e os harigatas muito particularmente têm muito mais resistência do que qualquer homem e nunca se esgotam!
— Oh, esse é um detalhe e tanto!
— Sim. Não se esqueça de que nem toda mulher tem a sorte de pertencer a um homem viril. Sem um objeto destes para ajudar a libertar paixões comuns e necessidades normais, uma mulher comum logo se tornaria envenenada de corpo, e isso certamente muito em breve lhe destruiria a harmonia, ferindo a ela e aos que a rodeassem. As mulheres não têm a liberdade que os homens têm, em maior ou menor grau, e com razão, neh? O mundo pertence aos homens, e com razão, neh?
— Sim. — Ele sorriu. — E não.
— Lastimo pelas suas mulheres, sinto muito. Devem ser iguais a nós. Quando voltar, o senhor deve instruí-las, Anjin-san. Ah, sim, diga à sua rainha, ela compreenderá. Somos muito sensatas em assuntos de "travesseiro".
— Mencionarei isso a Sua Majestade. — Blackthorne pôs o harigata de lado com uma relutância fingida. — E depois?
Kiku retirou da caixa quatro contas redondas e grandes de jade branco, presas a intervalos num forte fio de seda. Mariko ouviu atentamente a explicação de Kiku, os olhos maiores do que nunca, o leque esvoaçando, e olhou para as contas maravilhada, quando Kiku concluiu. — Ah so desu! Bem, Anjin-san — começou com firmeza —, isto é chamado konomi-shinju. Pérolas de Prazer, e tanto o homem quanto a mulher podem usá-las. Saque, Anjin-san?
— Obrigado.
— Sim. Tanto a dama quanto o homem podem usá-las. As contas são cuidadosamente colocadas na passagem de trás e depois, no momento das Nuvens e Chuva,.puxadas lentamente, uma a uma.
— O quê?
— Sim. — Mariko pousou as contas na almofada à frente dele. — A Senhora Kiku diz que a sintonia é muito importante e que sempre... não sei como o senhor diria, ah, sim, sempre se deve usar uma pomada oleosa... por conforto, Anjin-san. — Ela levantou os olhos para ele e acrescentou: — Ela também diz que as Pérolas de Prazer podem ser encontradas em muitos tamanhos e que, se usadas corretamente, podem causar um resultado realmente muito considerável.
Ele riu ruidosamente e exclamou em inglês:
— Aposto um barril de dobrões contra uma moeda de bosta de porco que se pode acreditar nisso!
— Desculpe, não compreendi, Anjin-san.
Quando conseguiu falar, ele disse em português:
— Aposto uma montanha de ouro contra uma folha de grama, Mariko-san, que o resultado deve ser realmente muito considerável! — Apanhou as contas e as examinou, assobiando sem notar. — Pérolas de Prazer, hein? — Pouco depois, pousou-as no chão. — O que mais?
Kiku estava satisfeita de sua experiência estar tendo êxito. E mostrou-lhe um himitsu-kawa, a Pele Secreta. — É um anel de prazer, Anjin-san, que o homem usa para se manter ereto quando está exaurido. Com isto Kiku-san diz que o homem pode gratificar a mulher após ter passado o seu apogeu, ou o seu desejo ter esmorecido. — Mariko observou-o. — Neh?
— Absolutamente. — Blackthorne sorriu. — O Senhor me proteja tanto de uma coisa quanto da outra, e de não ser gratificante. Por favor, peça a Kiku-san para me comprar três... só para o caso de serem necessários!
Depois mostraram-lhe os hiro-gumbi, o Equipamento do Cansado, talos secos e finos de uma planta que, quando encharcados e envoltos em torno da Parte Sem Par, faziam-na inchar e parecer forte. Depois havia todo tipo de estimulantes — para excitar ou aumentar a excitação —, e todo tipo de pomada — para umedecer, para avolumar, para reforçar.
— Nunca para enfraquecer? — perguntou ele, para maior hilaridade.
— Oh, não, Anjin-san. Isso seria despropositado!
Depois Kiku lhes mostrou outros anéis para o homem, de marfim, elástico ou seda, com nódulos, cerdas, fitas, penduricalhos e apêndices de todo tipo, feitos de marfim, crina de cavalo, grãos ou até de sinos minúsculos.
— Kiku-san diz que quase qualquer um destes objetos deixará voluptuosa a mais acanhada das damas.
Oh, Deus, como eu gostaria de ver você voluptuosa, pensou ele.
— Mas isto é só para homens, neh? — perguntou.
— Quanto mais excitada esteja a dama, maior é o gozo do homem, neh? — disse Mariko. — Claro, dar prazer à mulher é igualmente um dever do homem, não é, e com um destes objetos, se ele infelizmente for pequeno, fraco, ou velho ou cansado, ainda poderá satisfazê-la com honra.
— A senhora os usou, Mariko-san?
— Não, Anjin-san, nunca os tinha visto antes. Essas coisas... as esposas não são para o prazer, mas para engravidar e para tomar conta da casa e do lar.
— As esposas não esperam ser satisfeitas?
— Não. Isso não seria usual. Isso é para as damas do Mundo do Salgueiro. — Mariko abanou-se e explicou a Kiku o que fora dito. — Ela diz que com certeza acontece o mesmo no seu mundo, não? Que é dever do homem satisfazer a mulher, assim como é dever dela satisfazê-lo.
— Por favor, diga-lhe que sinto muito, mas não acontece o mesmo, apenas exatamente o contrário.
— Ela diz que isso é muito mau. Saquê?
— Por favor, diga-lhe que somos ensinados a nos envergonhar do nosso corpo, de "travesseiro", da nudez e... e todo tipo de estupidez. Foi só depois de ter chegado aqui que entendi isso. Agora que estou um pouco civilizado, sei melhor.
Mariko traduziu. Ele esvaziou seu cálice. Foi enchido imediatamente por Kiku, que se inclinou para a frente e segurou a longa manga com a mão esquerda, de modo que não tocasse a mesinha laqueada enquanto ela servia com a direita.
— Domo.
— Do itashimashité, Anjin-san.
— Kiku-san diz que devemos nos sentir honrados de que o senhor diga coisas assim. Eu concordo, Anjin-san. Fiquei muito orgulhosa do senhor hoje. Mas com certeza não é tão mau quanto o senhor diz.
— É pior. É difícil compreender, quanto mais explicar, se vocês nunca estiveram lá nem foram criadas lá. Veja... na verdade... — Blackthorne viu-as a observá-lo, esperando pacientemente, tão atraentes e limpas, o aposento tão austero, despojado, tranqüilo. Imediatamente sua mente começou a contrastá-lo com o cálido e amistoso mau cheiro do seu lar inglês, palha sobre o chão de terra, fumaça da lareira aberta de tijolos erguendo-se para o buraco no telhado - em toda a sua aldeia só havia três das novas lareiras com chaminés, apenas para os muito abastados. Dois pequenos dormitórios e depois a grande e desarrumada sala do chalé, para comer, viver, cozinhar e conversar. Entrava-se de botas no chalé, no verão ou no inverno, a lama despercebida, a bosta despercebida, e sentava-se numa cadeira ou banco, a mesa de carvalho atravancada como a sala, três ou quatro cães e as duas crianças — seu filho e a menina do falecido irmão, Arthur — subindo e caindo e brincando numa balbúrdia só, Felicity cozinhando, seu vestido comprido arrastando pelas palhas e pela sujeira, a empregada fungando e atrapalhando o caminho e Mary, a viúva de Arthur, tossindo no cômodo contíguo que ele construíra para ela, às portas da morte como sempre, mas não morrendo nunca.
Felicity. Querida Felicity. Um banho por mês, talvez, e no verão, muito em particular, na banheira de cobre, mas lavando o rosto, as mãos e os pés todos os dias, sempre escondida até o pescoço e os punhos, envolta em camadas de lãs pesadas o ano todo, que não eram lavadas durante meses ou anos, cheirando forte como todo mundo, infestada de piolhos como todo mundo, coçando-se como todo mundo.